Hospital infantil em Cuba em escolhe bebês que vão viver por causa de bloqueio dos EUA

Atualizado em 27 de março de 2026 às 22:03
O hospital pediátrico William Soler, em Havana, no escuro
O hospital pediátrico William Soler, em Havana, às escuras – AFP

O hospital pediátrico William Soler, em Havana, enfrenta decisões dramáticas diante da escassez de recursos agravada pela crise energética no país. Durante o dia, a luz do sol se tornou a principal fonte de iluminação nos quartos, onde crianças permanecem internadas ao lado de mães, muitas usando máscaras, em ambientes escuros.

Referência no atendimento a crianças e gestantes com cardiopatias congênitas graves, a unidade opera sob forte pressão. O sistema de saúde universal, um dos pilares da Revolução Cubana, já vinha sofrendo com falta de insumos e equipamentos obsoletos — situação que se agravou após medidas recentes do governo dos Estados Unidos, sob o presidente Donald Trump, que restringiram ainda mais o acesso a combustível.

A médica Herminia Palenzuela, de 79 anos e fundadora do hospital, disse à AFP que a equipe é obrigada a fazer “escolhas muito difíceis”. Segundo ela, casos menos graves acabam ficando em espera. “As crianças com quadros menos sérios vão para o fim da lista e simplesmente aguardam”, disse.

Com capacidade para 100 leitos, o hospital não consegue utilizar todos devido à necessidade de preservar equipamentos e insumos para pacientes em estado mais crítico. “Os recursos são sempre reservados para aqueles que podem morrer a qualquer momento”, afirmou Palenzuela. “Gostaríamos de operar mais, fazer mais, mas não temos condições.”

instalações do hospital pediátrico William Soler no escuro
Instalações do hospital pediátrico William Soler – AFP

Nos corredores pouco iluminados, familiares convivem com a incerteza. Yaima Sánchez aguarda atendimento para o filho de nove anos, que sofre de taquicardia. “Venho com fé de que os médicos vão nos atender com o que tiverem disponível”, disse. Segundo ela, muitas vezes faltam até dispositivos básicos para monitoramento cardíaco. “Às vezes o aparelho não está disponível ou está sem bateria. Até agora tivemos sorte, mas nunca se sabe.”

Os apagões diários, que chegam a durar várias horas — incluindo dois blecautes nacionais recentes — afetam toda a ilha. Embora hospitais tenham prioridade no fornecimento e contem com geradores, a rotina segue comprometida. Profissionais de saúde enfrentam dificuldades para chegar ao trabalho, muitas vezes caminhando longas distâncias ou pegando carona nas ruas de Havana.

De acordo com o Ministério da Saúde, mais de 96 mil cubanos aguardam cirurgias, incluindo 11 mil crianças, reflexo direto da crise energética. O diretor da unidade, Eugenio Selmam, destacou que o embargo comercial imposto pelos EUA desde 1962 sempre dificultou o acesso a medicamentos e equipamentos. “Sempre convivemos com isso, mas agora atingiu níveis dramáticos”, afirmou.

A Organização das Nações Unidas negocia com Washington alternativas para permitir a entrada de combustível destinado a operações humanitárias. O coordenador da entidade em Cuba, Francisco Pichon, alertou para o risco de agravamento rápido da situação. “Se a escassez continuar e as reservas se esgotarem, tememos uma deterioração acelerada, com potencial perda de vidas”, disse.

Nesta semana, o hospital recebeu parte de um carregamento internacional de ajuda humanitária, com cerca de 50 toneladas de medicamentos, alimentos e produtos de higiene. A ativista italiana Martina Steinwurzel, integrante do comboio Our America, descreveu o cenário como crítico. “Essas pessoas resistiram por muitos anos, e agora enfrentam um cerco como nunca antes em sua história”, afirmou.

Enquanto isso, médicos, pacientes e famílias seguem lidando com limitações severas, em um sistema de saúde que luta para manter atendimentos essenciais diante da escassez crescente de energia e recursos.

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