Huck fala de proteção ambiental com desenvoltura de quem se envolveu em irregularidades. Por Luis Felipe Miguel

Luciano Huck. Foto: Pedro Zambarda/DCM

Publicado originalmente no perfil de Facebook do autor

POR LUIS FELIPE MIGUEL, cientista político

Na sua campanha sem fim para tornar Luciano Huck um candidato presidencial respeitável, a Folha dá quase uma página inteira, com direito a chamada de capa, para artigo de opinião assinado pelo apresentador de TV.

O ex-amigo de Aécio pontifica sobre a “vocação agrícola” do Brasil e a necessidade de “romper com a ideia de que existe um litígio entre agricultura e meio ambiente”.

Em meio a um festival de banalidades (“abandonar dogmas”, “nunca tudo esteve tão interligado”, “narrativas convergentes e exequíveis”, “nos inspirar em Juscelino”), o artigo revela sua compreensão da tal ausência de “litígio” na defesa retumbante do novo Código Florestal e do agronegócio.

O Código Florestal, tal como aprovado pelo Congresso e sancionado por Dilma, foi uma grande vitória dos ruralistas sobre os ambientalistas. Para o marido de Angélica, porém, “foi constituído depois de ter sido debatido em sociedade e é um balizador fundamental que nos impulsiona para um lugar melhor do que estamos”.

O funcionário da Rede Globo fala alegremente sobre proteção ambiental, com a desenvoltura de quem – como seus patrões, aliás – esteve envolvido em várias práticas irregulares.

Em Fernando de Noronha, driblou a regra que proibia novas construções por pessoas que não morassem no arquipélago para edificar uma pousada de luxo. No Rio, conseguiu mudar a legislação, para garantir sua mansão irregular em Angra dos Reis. “Nova política” é isso aí.

Mas, para o ex-chefe da Tiazinha e da Feiticeira, o “perdão” da imprensa nem é necessário. É incessante a campanha para apagar o explorador da miséria alheia e da objetificação da mulher e colocar no lugar o “bom moço”.

No texto assinado pelo ex-sócio do Madero, há até uma sutil e delicada crítica ao presidente que ele ajudou a eleger: uma referência algo artificial à “tragédia construída com radicalismo aloprado em relação à saúde”. Tão sutil e delicada que quem quiser pode ler também como apoio, em vez de crítica. Imagino que esse era o objetivo.

Em 2018, a ambição presidencial do dono do jatinho financiado pelo BNDES foi um voo de galinha, rapidamente abatida pelos muitos esqueletos no armário. Mas o dilema de seus patrocinadores continua igual: como encontrar um candidato que implante o mesmo programa de Bolsonaro, expurgado de seus excessos, e que tenha viabilidade eleitoral. Por isso, voltam a ensaiar essa alternativa.

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