Uma visita a Roma só é completa se incluir Caravaggio

Um gênio. Um delinquente. Um assassino. Um inovador. Morto aos 38, vítima de si mesmo

Medusa de Caravaggio. Obra recentemente exposta no MASP de São Paulo.

Foi um gênio. Inventou o “tenebrismo”, palavra que vem de tenebroso. E significa o jogo de claro e escuro numa pintura exatamente para acentuar o aspecto sombrio. Inovou ao simplesmente reproduzir a realidade feia que via sem se preocupar em melhorá-la e embelezá-la artificialmente. Foi, por isso, um precursor do realismo e do naturalismo. “A arte moderna começa com Caravaggio”, um especialista escreveu.

E foi um delinquente, um encrenqueiro. Um assassino.

Caravaggio matou um homem num duelo em Roma. Por trás do duelo, travado numa quadra de tênis, estavam dívidas. Antes já mostrara o caráter arruaceiro. Esfregara comida na cara de um garçom. Prometera “fritar as bolas” de desafetos. Fazia palhaçadas nas tavernas, como mostrar às pessoas como ensinara seu cachorro a andar apenas com as patas traseiras.

Mas como pintava.

Numa época em que Roma estava cheia de igrejas para serem decoradas, o talento extraordinário o fez o pintor mais célebre da cidade.

Seus protetores poderosos não conseguiram livrá-lo das consequências do assassinato. Caravaggio fugiu para Nápoles primeiro, e depois para Malta. Mas voltou a se meter em encrencas, e acabou numa cela subterrânea da qual conseguiu fugir ninguém sabe como.

Caravaggio colocou a si mesmo na cabeça de Golias

Fez em Malta um de seus quadros mais perturbadores. Davi segura a cabeça de Golias. Golias é o próprio Caravaggio. Esperava com este quadro obter perdão em Roma, para onde desejava voltar. Você pode ler neste quadro a seguinte inscrição, em latim:  “Humilitas occedit superbiam”. A humildade supera o orgulho.

Repare no vencedor, Davi. Em sua expressão. Ele não está feliz, mas desolado. Parece à beira de chorar.

Caravaggio se encaminhou para Roma, mas não chegou. Morreu no caminho, em 1610, aos 38 anos, vítima de si mesmo mais que de qualquer doença.

Este texto foi publicado no Diário do Centro do Mundo em 12 de março de 2011.

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