Idealizadora do TrateCov hostilizou cubanos e ajudou a desmontar Mais Médicos

Passados 10 meses de pandemia, o escândalo do TrateCov, aplicativo do ministério da Saúde que recomendava cloroquina a qualquer doença, talvez seja o episódio de maior descaso do governo Bolsonaro com a saúde pública. O aplicativo foi idealizado pela pediatra Mayra Pinheiro, secretária de Gestão do Trabalho e Educação do Ministério da Saúde. 

Basicamente, o aplicativo consistia num formulário interativo online, no qual o paciente colocava seus sintomas e o programa recomendava tratamento. Poderia ser uma interessante maneira do governo coletar dados sobre a saúde da população, não fosse um problema: o aplicativo recomendava cloroquina, a infame substância cuja ineficácia contra a Covid já foi provada e comprovada, a pacientes de qualquer idade e com qualquer doença. 

Entretanto, este não é o primeiro episódio de ataque aos serviços públicos de saúde no qual a doutora Mayra Pinheiro está envolvida.  

Se voltarmos ao ano de 2013, auge da polêmica sobre a vinda de médicos cubanos ao Brasil, temos uma passagem marcante: no desembarque dos doutores da ilha caribenha em Fortaleza, uma foto ficou famosa. No registro, um médico negro é hostilizado aos gritos por uma brasileira – justamente Mayra Pinheiro.  

Na ocasião, Mayra pediu que os cubanos “voltassem à senzala”, num deprimente espetáculo de racismo e xenofobia. Juan Delgado, o médico cubano hostilizado por Mayra, foi trabalhar em Zé Doca, município com comunidade indígena no interior do Maranhão. Delgado ressaltou que os cubanos estavam indo “onde os médicos brasileiros não queriam ir e por isso, não estavam tirando o trabalho de ninguém”. 

O grotesco episódio catapultou a fama de Mayra. Em 2018, a doutora foi candidata a senadora pelo PSDB do Ceará. Ficou em quarto lugar, com 11,3% dos votos, mas isso foi suficiente para aumentar o cacife político da  médica. 

Com a vitória de Jair Bolsonaro na eleição de 2018, Mayra entrou no governo por uma espécie de cota reservada ao movimento médico apoiador de Bolsonaro. Sem grande brilho acadêmico ou sequer experiência em gestão de saúde, Mayra foi escolhida por Luiz Henrique Mandetta para chefiar a versão bolsonarista do programa Mais Médicos. 

Sob supervisão de Mayra, foi lançado um edital com 8500 vagas, somente para médicos brasileiros. A iniciativa não foi exatamente um sucesso: apenas 53% das vagas foram preenchidas e 31 municípios não receberam médico algum. A solução? Um novo edital, desta vez contemplando também médicos formados no exterior com diploma revaliado no Brasil. Ironicamente, algo bastante parecido com a ideia original, de 2013. 

Mandetta estava ciente de que precisava contemplar alguém do grupo de apoiadores de Bolsonaro entre a classe médica e colocou Mayra na secretaria de Trabalho e Educação do seu ministério. Em pouco tempo, Mayra ganhou espaço e deixou de ser uma secretária “café com leite” para ser a capitã cloroquina dentro do Ministério da Saúde. 

Tanto Mandetta quanto seu sucessor, Nelson Teich, se recusavam a endossar o protocolo de tratamento com hidroxicloroquina. Nas reuniões do ministério, muita gente ficava constrangida com as interrupções do general Eduardo Pazuello, hoje titular da pasta – menos Mayra. O Exército estava ansioso por despachar o estoque de cloroquina – remédio usado principalmente contra a malária. A combinação Pazuello-Mayra foi como juntar a fome com a vontade de comer. 

Pazuello assumiu o ministério e a ascensão do general coincide com o protagonismo de Mayra no enfrentamento da pandemia. Foi ela quem passou a responder às perguntas dos jornalistas sobre o medicamento em coletivas – Mayra é uma das raras médicas de formação na equipe de Pazuello. O general lotou o ministério de militares: da equipe original de Mandetta só restaram Mayra e Róbson Santos, responsável pelas políticas de saúde indígena. 

A secretaria de Mayra não tinha relação com pesquisas ou validação de medicamentos. Mayra se agarrou à cloroquina e à cantilena do “tratamento precoce” como quem segura a um fio desencapado e não mais largou. Com influência crescente, Mayra emplacou um aliado, Hélio Angotti, na Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde – setor responsável por aprovar experimentos farmacêuticos. 

Bolsonaro passou a defender a tese do tratamento precoce e a defesa da cloroquina com virulência. Foi a deixa para Mayra também subir o tom. Em vídeo postado nas redes sociais em maio de 2020, Mayra afirmou que quem não receitasse o coquetel cloroquina e azitromicina – um antibiótico –poderia ser acusado de “crime contra a humanidade”.  

A despeito de inúmeras pesquisas e de reclamações de médicos que atuam na linha de frente no combate à pandemia, Mayra continuou batendo bumbo pela cloroquina. A apoteose desse espetáculo foi o lançamento do aplicativo TrateCov. 

Numa situação que beira o escárnio, o aplicativo foi lançado em Manaus – onde pacientes morriam às dezenas por falta de oxigênio. A fábrica da Petrobrás no Rio Grande do Sul capaz de produzir o oxigênio necessário foi fechada por Bolsonaro em janeiro de 2019, no início do mandato. Segundo Pazuello e Mayra, a ferramenta serviria para auxiliar o diagnóstico dos doentes. A realidade era bem outra.  

Simulações feitas por jornalistas mostraram que o aplicativo prescrevia cloroquina até para bebês. Com a imensa repercussão negativa, Pazuello se apressou em dizer que o aplicativo foi colocado no ar por um hacker. No entanto, é estranho que um aplicativo em teste tenha sido anunciado em evento oficial, com médicos levados pela FAB para a capital do Amazonas para fiscalizar se os postos de saúde estavam mesmo prescrevendo o “kit Covid”. 

Funcionários do sistema de saúde em Manaus reclamaram da iniciativa: “A gente precisando de médico em UTI e eles trazem gente para fazer fiscalização”. O episódio repercutiu mal mesmo entre funcionários do Ministério da Saúde que evitavam fazer críticas à gestão Pazuello. Como se vê, a doutora Mayra tem quase uma década de desserviços prestados à saúde pública brasileira.

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