Ignorância, fanatismo e exploração evangélica: o que leva à crença de que um morto pode reviver. Por Joaquim de Carvalho

Jéssica e o velório.

A morte é uma injustiça, sob a perspectiva de quem vive. Mas, para quem morre, como lembrou o filósofo Epicuro, ela nada significa.

“Enquanto nós existirmos, não existirá ela, e, quando ela chegar, nada mais seremos. Desse modo, a morte não toca nem os mortos nem os vivos”, disse ele, na famosa carta sobre felicidade ao discípulo Meneceu, por volta do ano 300 antes de Cristo.

Paulo, o filósofo que lançou a bases da doutrina cristã, escreveu um texto em que desafia a morte, na perspectiva de quem acredita na vida eterna.

“Cadê seu aguilhão?”, diz ele, dirigindo-se à morte.

Para Sócrates, é impossível, sob o ponto de vista físico, cessar a existência, e por isso ele teorizou, além das questões matemáticas, sobre a possibilidade de reencarnação.

Morte, morte…

Ela sempre foi notícia e reescreveu neste fim de semana um novo capítulo, com a tentativa desesperada de uma família no interior de Alagoas para ressuscitar uma jovem.

Sim, ressuscitar.

Jéssica Lima, uma morena muito bonita, estava internada depois de passar mal em casa, em Delmiro Gouvêa.

Teve parada cardíaca a caminho do hospital, na cidade vizinha de Palmeira dos Índios (onde o escritor Graciliano Ramos foi prefeito).

Alguns dias depois, os médicos comunicaram que ela havia falecido, em consequência de uma infecção generalizada.

O corpo da moça estava sendo velado quando uma tia, que é evangélica, conduziu uma oração. Ao final, profetizou:

Jéssica ressuscitaria.

Esta seria a vontade de Deus e a o resultado da força da fé daquele povo.

Logo, por correntes de WhatsApp e postagem na rede social, se espalhou a notícia de que a jovem ressuscitaria.

O enterro deveria acontecer na sexta-feira, mas a família não autorizou. A profecia manifestada dava conta de que Jéssica levantaria na manhã de ontem, sábado.

Por conta do número elevado de pessoas no entorno da casa e do risco da decomposição do corpo, a Polícia Civil foi chamada, e o delegado pediu a intervenção de um médico.

O doutor Petrúcio Bandeira, que tem mais de 30 anos de profissão, foi até a residência, encontrou o cadáver já sobre uma cama.

“Eu tive dificuldade de chegar até o cadáver porque a família estava intransigente dizendo que a paciente ia ressuscitar. Eu insisti e pedi o atestado de óbito, que eles não queriam entregar. Depois de muita insistência, me entregaram e eu vi que tinha uma infecção generalizada. O atestado não dava o diagnóstico definitivo. Mas, se era infecção, ela morreu de alguma de alguma bactéria.

Mesmo assim, ele fez novos exames.

“Primeiro vi a dilatação da pupila, ou seja, a bolinha preta, como a gente chama, entra em midríase, ela fica dilatada. Ela aumenta três a quatro vezes o tamanho. Procurei ver os batimentos da jugular, que são veias de grosso calibre e não tinha nenhum movimento de sangue. A temperatura dela estava completamente gelada, apesar de não ter rigidez muscular ainda. E também não tinha nenhum movimento torácico, ou seja, ela não respirava, não entrava ar no pulmão. Juntando todos esses elementos, não havia dúvida: ela faleceu”.

Petrúcio comunicou à família, mas os parentes não aceitaram, especialmente a mãe de Jéssica, irmã da mulher que fez a profecia.

O médico ficou preocupado.

“A rua estava cheia de gente, um negócio assim inusitado, parecia até filme de terror. E na realidade, e na minha opinião, e eu assino embaixo, é um cadáver, e ela veio a óbito ontem, e ela está lá só esperando — e o pessoal precisa se conscientizar — que seja enterrada.

Ontem, depois de constatar que não houve a ressureição esperada, Jéssica foi, enfim, sepultada. Mas o caso deixou no ar uma pergunta:

É um caso de ignorância ou fanatismo? O que faz uma família crer que haverá a ressureição?

Em São Paulo, há mais de vinte anos, o corpo de uma menina foi exumado clandestinamente, porque um grupo de fiéis acreditava que, com fé, ela voltaria à vida.

A resposta está na Bíblia, novo testamento. Há relatos de que Jesus ressuscitou duas pessoas, uma delas o famoso Lázaro.

Pedro também ressuscitou uma mulher.

Nas Igrejas evangélicas, a mesma em que a ministra Damares Alves costuma pregar, para falar do kit gay, são relativamente comuns depoimentos em púlpito de pessoas que teriam tomado conhecimento do caso de alguém que ressuscitou.

Nunca apontam o nome.

Mas a pregação costuma dar resultado em termos de crescimento do número de fiéis, das ofertas e, principalmente, oferece uma resposta a quem vive a angústia da incerteza do que acontece depois que o coração pára de bater.

O que importa se, mesmo nos casos relatados na Bíblia, se verdadeiros, os ressuscitados morreram depois?

Se assim não fosse, estariam entre nós até hoje, falando da experiência.

São compreensíveis a dor e o desespero de quem vê a morte de alguém muito próximo.

Mas são repulsivas as iniciativas de quem procura explorar comercialmente o maior mistério da vida com testemunhos fraudulentos de ressureição.

“Por onde andei, por ponde passei, nunca vi um caso desses, de forma alguma”, disse o médico.

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