
Originalmente publicado em Brasil de Fato
O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a ampliação das investigações sobre o destino de emendas parlamentares enviadas pelo senador Carlos Viana (Podemos-MG) à Fundação Oásis, entidade vinculada à Igreja Batista da Lagoinha, liderada pelo pastor André Valadão. A decisão, proferida no fim de março, aponta falta de transparência e rastreabilidade no uso de ao menos R$ 3,6 milhões repassados por meio das chamadas “emendas Pix”.
Dino deu prazo de 10 dias para que o senador, o Senado e as prefeituras de Belo Horizonte e Capim Branco apresentem esclarecimentos detalhados. A medida reforça uma cobrança anterior, feita em 19 de março, quando as respostas foram consideradas insuficientes.
A decisão se baseia em relatório da Controladoria-Geral da União, que identificou “múltiplas irregularidades” nos repasses, além de uma ação movida pelos deputados Henrique Vieira (Psol-RJ) e Rogério Correia (PT-MG). Os parlamentares questionam a finalidade pública dos recursos, a transparência na execução e possíveis conflitos de interesse.
Entre os pontos levantados está o fato de Viana ter atuado em veículos ligados à Lagoinha ao mesmo tempo em que destinava verbas à fundação da igreja. Além disso, parte das entidades beneficiadas aparece em investigações conduzidas pela própria Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS, presidida pelo senador até recentemente.
Na decisão, Dino menciona suspeitas de que requerimentos sobre essas entidades não teriam sido analisados pela CPMI, possivelmente por interesse pessoal do então presidente. O caso envolve três repasses principais: R$ 1,5 milhão em 2019, via Prefeitura de Belo Horizonte; R$ 1,47 milhão em 2023; e R$ 650,9 mil em 2025, ambos destinados a Capim Branco.
Conexões com investigações financeiras

A apuração sobre as emendas se cruza com investigações mais amplas envolvendo a Lagoinha e o chamado “Caso Master”, que apura suspeitas de fraudes financeiras e lavagem de dinheiro. Um dos nomes centrais é o ex-pastor Fabiano Zettel, ligado ao banqueiro Daniel Vorcaro.
Zettel, que atuava em uma unidade da igreja em Belo Horizonte, declarou ter recebido mais de R$ 190 milhões em lucros e dividendos de um fundo apontado pela Polícia Federal como instrumento de lavagem de dinheiro. Relatórios também indicam transferências de mais de R$ 40 milhões para estruturas ligadas à igreja.
As conexões familiares e institucionais ampliam o alcance do caso. A família Vorcaro mantém vínculos históricos com a Lagoinha, inclusive na aquisição de veículos de comunicação e na construção de templos de grande porte na capital mineira.
Além disso, a igreja aparece em apurações sobre supostas fraudes em descontos ilegais de aposentados, investigadas pela CPMI do INSS. A própria CGU já apontou indícios de uso de estruturas religiosas para movimentações financeiras suspeitas.
Mensagens e suspeitas de proteção política
Outro elemento sob análise são mensagens atribuídas a André Valadão, nas quais ele menciona a orientação de um senador para adiar seu retorno ao Brasil e aguardar ações que poderiam “resguardá-lo”. O conteúdo foi incorporado ao conjunto de indícios analisados por investigadores. O pastor não se manifestou publicamente sobre o caso até o momento.
Reação do senador
Carlos Viana reagiu às decisões do STF classificando a investigação como um “ataque à reputação”. O senador afirma que a destinação de recursos a entidades religiosas e assistenciais é prática comum em seu mandato, citando repasses a organizações ligadas à Igreja Católica, Assembleia de Deus e instituições filantrópicas.
Segundo ele, os valores não foram transferidos diretamente à igreja, mas às prefeituras, que teriam executado os recursos em políticas públicas, como compra de equipamentos e custeio de serviços.
Viana também argumenta que, à época dos repasses, não havia impedimentos legais envolvendo a entidade beneficiada e que os procedimentos seguiram critérios técnicos. Ele atribui a investigação a disputas políticas e ao contexto pré-eleitoral.
Crise de confiança entre fiéis
Em Belo Horizonte, o avanço das investigações já provoca impactos dentro da comunidade religiosa. Frequentadores da Lagoinha relatam desconfiança e cobram posicionamentos mais claros da liderança diante das denúncias.
A igreja, fundada em 1957, tornou-se uma das maiores denominações evangélicas do país, com presença internacional sob a marca “Lagoinha Global” e iniciativas que vão além do campo religioso, incluindo empreendimentos financeiros.