Igualdade, equidade e a falta que faz um dicionário. Por Luiza Coppieters

Uma das coisas que mais causa tentação é fazer a etimologia das palavras sem verificar o dicionário. Em tempos que a interpretação vale mais que a compreensão de um texto, isto é, em que mais vale colocar em um texto o que se pensa (ou sente) do que entender o que o autor quis dizer, tal tentação ganha força e se prolifera em meios internéticos.

É muito comum, por exemplo, darem como significado da palavra “aluno” o sentido de “sem luz”, muito provavelmente pelas trevas que vivemos. Talvez pelo adestramento de uma educação precária, acredita-se que “a” é “sem” e “luno” deriva de “lúmen”. Um verdadeiro duplo twist carpado back lift 360°. Corta-se aqui, puxa dali e se dá o sentido que se quer. Imagino um romano mandando seu filho, o trevinha, para estudar em Atenas.

Aluno, do latim, vem do verbo alo, alere, que significa nutrir, alimentar, edificar, construir. Aluno, portanto, é aquele que se nutre do saber, que se alimenta do conhecimento e se edifica como sujeito.

Vaga pela internet uma outra comparação muito tosca, mas que atende a interesses muito específicos. Trata-se de uma comparação entre igualdade e equidade. Essa comparação é feita em cima de um meme com três garotos que, na tentativa de assistir a um jogo de futebol se deparam com um muro entre eles e o campo.

Eis que, para superar tal empecilho, coloca-se caixas para que possam subir em cima ver o jogo. Mas como cada um dos três jovens tem alturas diferentes, as caixas são postas de acordo com a altura de cada um e assim a visão trespassa o obstáculo.

A jogada toda acontece no nome que se dá a cada divisão de caixas. Uma caixa para cada um seria igualdade, mas, como consequência, apenas o mais alto alcançaria o gramado com a visão. Já sendo a divisão feita com a equidade, as caixas seriam distribuídas de acordo com a necessidade de cada um, ficando o menor com três, e de estatura mediana com duas e alto com uma. Assim todos poderia ver o jogo. Em nenhum momento se fala em derrubar o muro.

Como não poderia deixar de ser, embutiram uma explicação para cada caso. No da igualdade, “é dar as mesmas oportunidades a cada um”, e no da equidade, “adaptar as oportunidades deixando-as justas”.

No primeiro caso, “dar as mesmas oportunidades a cada um”, na nossa realidade atual, pode ser uma ideia liberal, que parte do princípio de que aos indivíduos cabe (sabe-se lá a quem) oferecer condições para que alcancem os objetivos. Não se trata de mudar a realidade, mas de dar algo igual a cada um.

No segundo caso, o discurso beira o cômico, pois introduz-se outro conceito, o de justiça, para explicar o que seria equidade. Ou seja, equidade é igual justiça. E não se diz o que é justiça. Assim como justiça não entra na ideia de igualdade. Portanto, não se sabe o que equidade, cabendo a imagem traduzir o significado.

Aristóteles definira dois tipos de justiça: a justiça distributiva, aquela que se referia ao que era possível partilhar, a de bens que podem ser distribuídos; e a justiça comutativa, aquela que diz respeito ao que é comum a todos os cidadãos, o direito, aquilo que podem participar, como serem juízes, políticos, etc.

A palavra igual, do latim aequalitas, significa unido, ao nível, nivelado. Igualdade é, portanto, a qualidade do que tem nível, uniformidade, proporção. Já a palavra equidade, do latim aequitas, significa divisão igual, igualdade de porções.

Pelo significado etimológico das palavras já se percebe que as imagens estão trocadas. Se igualdade se refere àquilo que é nivelado, os três jovens só ficam nivelados se houver uma distribuição desigual das caixas. O que nos faz lembrar Aristóteles, novamente, em sua definição de igualdade: tratar os desiguais de forma desigual para que se tornem iguais. Não se trata, pois, dos bens distribuídos de forma igual, mas das pessoas terem acesso igual às coisas.

E a definição de equidade dada no meme fica completamente perdida, pelo explicado acima, seja por recorrer a outro conceito, o de justiça (dar a cada um o que lhe é devido, segundo Aristóteles, sempre ele), seja por ser uma palavra completamente esvaziada de sentido, já que o sentido que se quer dar a ela é o sentido de igualdade.

Mas, no fundo disso tudo, o que realmente incomoda quem fez, distribuiu e saiu replicando essa bobagem – e que funciona muito bem, pois é ideológica –  é o comunismo. Pois o pensamento comunista é que defende a igualdade entre as pessoas.

É o comunismo que defende derrubar o muro para que toda a classe trabalhadora possa ver o jogo. Os jovens são a classe trabalhadora, desprovida dos meios de produção e donas apenas de sua força de trabalho. É o comunismo que visa destruir o Capitalismo, o real produtor das desigualdades.

Caso esses jovens sejam bons alunos e não se alimentem apenas de memes, irão compreender que não basta uma divisão igual dos bens ou acesso às oportunidades, mas será necessário derrubar os muros que os impedem de ter acesso ao espetáculo do mundo. Ou seja, tomar os meios de produção e colocar classe trabalhadora no poder.

Já os que, por hora, são dono do espetáculo criam memes, definições falaciosas, falsas etimologias, analogias para deturpar e distorcer o real, bem como manter-se protegidos de jovens que, conscientes de sua classe, possam se organizar, tomar as caixas daqueles que as ofertam, derrubar muros e participar do jogo.

A esses que criam esse tipo de meme e distorcem o significado das palavras apenas interessa alunos famélicos e nenhuma igualdade.

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