Imagine o novo Ministro da Saúde reinventando a roda. Por Alberto C. Almeida

O oncologista Nelson Teich. Foto: Reprodução

Publicado originalmente no blog do autor:

Por Alberto Carlos Almeida

Imagine os dias de trabalho do novo Ministro da Saúde. Ele terá algumas novas ideias do que deverá ser feito. Vamos supor uma ideia X qualquer. Ele terá de consultar algum funcionário de carreira do ministério: “gostaria de executar X, é possível?” O funcionário convocará o procurador geral do órgão que poderá das uma das seguintes respostas: a) eu não recomendaria esta decisão, pois já há vários pareceres do TCU contrários a coisas desta natureza, b) é possível sim fazer X, mas depende da aprovação de um projeto de lei que está tramitando na Câmara, o Senhor terá que entrar em contato com o Deputado Rodrigo Maia, c) há um convênio com os governos municipais que prevê parcialmente a realização de X, que já está sendo feito.

Antes que todas estas respostas sejam dadas é possível que um governador de estado tente entrar em contato telefônico com o ministro para comunicar que houve atraso no repasse dos recursos do SUS para vários procedimentos hospitalares já realizados meses atrás. O referido governador poderá ser enfático, argumentando que tais recursos estão fazendo falta em função da pandemia do coronavírus. Esta conversa telefônica poderá ser interrompida por uma demanda interna, do ministério, acerca da necessidade de realização urgente de uma licitação, posto que a vigência de determinados contratos está próxima de se encerrar.

Não será surpresa se no mesmo intervalo o líder de algum partido do Centrão tente ser recebido pelo Ministro por causa de demandas que não vêm sendo atendidas pela FUNASA, cuja diretoria depende de indicação do Ministério da Saúde. O árbitro final de tais conflitos é sempre o titular da pasta.

Tudo isso e muito mais ocorrerá em meio a uma crise cujas mortes aumentam em progressão geométrica, o que exige da burocracia respostas rápidas e automatizadas. Restará ao ministro, diante deste cenário, delegar todas as decisões para aqueles que conhecem na palma da mão o funcionamento do sistema de saúde brasileiro. Vale lembrar que na sua primeira aparição pública o ministro, sem conhecer a base de dados e os sistemas de informação do Ministério, mencionou a necessidade de dados confiáveis e atualizadas. Mal sabe ele que tudo isso existe há anos no SUS.

Apenas lamento que no nosso país tenha que ser submetido a isso.

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