Imigração, neoliberalismo ou morte. Por Caetano Lagrasta

Cena do documentário “100% boliviano, mano”

POR CAETANO LAGRASTA, desembargador

Em 2008 li “Gomorra”, de Roberto Saviano, na edição italiana na Strade Blu, da Mondadori, indicação de Umberto Eco; e ainda na edição de Portugal, do mesmo ano, na Chancela C, do grupo Leya.

O susto foi enorme e hoje se renova, a partir de atitudes erráticas e pré-fascistas de quem nos governa, ao facilitar de forma absurda e sem compensações, a entrada de imigrantes chineses, indianos, norte-americanos, japoneses e australianos.

Saviano, nos capítulos iniciais, narra a queda de contêiner e vazamento de seu conteúdo: cadáveres descongelados de chineses.

Evidente que o vínculo entre aquele país e a máfia, seja lá de qual Região da Itália fosse, era perfeito para incentivar negócios e lavar o produto de crimes.

A narrativa mostra o contrabando, seguido de leilão de tecidos a que comparecem representantes de grifes multinacionais. Àquelas que pagam o maior preço reserva-se o acesso ao tecido original e à chancela “made in Italy”, aos outros participantes apenas o uso dos da contrafação.

Para ser vencedor, além do preço, tem o licitante que garantir o menor prazo de confecção e entrega, atingindo a venda do produto original e o melhor preço.

Assim, montam-se – como em nosso Brasil – confecções para a escravização de mão-de-obra, sem quaisquer direitos trabalhistas, condições de higiene, habitabilidade, além da promiscuidade das famílias, cujos filhos perambulam pelas ruas da periferia, até galgarem o direito de chegar ao centro, onde praticam pequenas infrações ou delitos e passam a constituir a reserva das milícias mafiosas.

O contrabando é enorme e a contrafação absoluta, seja nos tênis, vestimentas esportivas ou nos milhares de outros produtos que invadem Nápoles, e são ansiosamente aguardados para o consumo.

Evidente que estes contêineres jamais podem retornar vazios. Nas entrelinhas dos fatos narrados por Saviano pululam mortos: aqueles operários imigrantes, escravizados, seus familiares, criadores do dilema: onde cairemos mortos, eu e minha família?

Mas, para o neoliberalismo e sua delinquência tudo tem solução: parte dos míseros salários é reservada, pelos mais felizes poupadores, para o contrabandista e o congelamento físico, até que possam ser “despachados” para a China e consigam ser enfiados em algum buraco, onde possam desfrutar da certeza de que irão rever seus antepassados.

Nada consta, por ora, quanto ao destino dos nossos bolivianos, peruanos, venezuelanos, colombianos, paraguaios ou que estejam a ser congelados e embalsamados, até conseguirem meios de atravessar a respectiva fronteira.

Contudo, é certo que índios ou proletários, políticos ou não, continuam sendo enfiados de forma anônima em covas rasas.

Abre-se agora, com a chegada desses novos imigrantes, a possibilidade de que sejam conservados até o retorno aos respectivos cemitérios, aqui ou em países do Continente e, até mesmo, ao solo sagrado da respectiva Reserva.

O livro, como recordam alguns, traz inúmeras outras denúncias, mas seu início teve escolha deliberada por comprovar que o progresso econômico ou a ostentação dos estratos econômicos superiores traz sempre como substrato a morte.

Vamos aguardar.

 

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