Imprensa se esforça para preservar o legado do golpe de 2016. Por Luis Felipe Miguel

Dilma Rousseff – Jacques Demarthon/AFP

Publicado originalmente no Facebook do autor:

Por Luis Felipe Miguel

O termo “narrativa” ficou tão desgastado que a gente evita usá-lo até quando é necessário.

O fato é que tenho sentido, em parte do jornalismo, um esforço para adequar a narrativa sobre a política brasileira dos últimos anos.

A catástrofe bolsonarista, o desmascaramento do justiceiro de Curitiba, os efeitos notáveis da destruição do país, tudo isto tem colocado em xeque as “verdades” construídas com tanto zelo pela própria imprensa.

Parece que estão achando que isto está indo longe demais e é necessário enfatizar alguns pontos inegociáveis.

Ontem, a Folha publicou com destaque artigo de um certo Filipe Campante, apresentado como professor de Economia da Johns Hopkins, mas que pontifica sobre a conjuntura política brasileira. Ele escreve – no trecho escolhido para servir de olho do texto:

“Ao contrário de outros presidentes ou políticos no Brasil pós-redemocratização, Bolsonaro considera duas alternativas para atingir seus objetivos: a opção institucional, via eleições, mas também a opção golpista”.

O trecho é discutível por muitos motivos, mas o importante é ressaltar que, antes de Bolsonaro, não havia golpismo no Brasil. A menção a “outros presidentes” é sob medida para dizer ao leitor que o mandato de Temer foi totalmente legítimo.

Hoje, escrevendo sobre a maior visibilidade dos militares na política, o jornalista Igor Gielow lista, entre outros motivos, a “implosão da política tradicional com as descobertas da Operação Lava Jato”.

Como é possível falar de “descobertas”, sem sequer uma qualificação, como se as entranhas da Lava Jato já não tivessem sido expostas?

O esforço é para preservar o legado do golpe de 2016, incluindo aí a criminalização da esquerda.