“Impressionante e preocupante”, diz Amorim após EUA tirarem Brasil da lista de países amigos

Atualizado em 3 de junho de 2026 às 12:17
Celso Amorim e Lula

O ex-chanceler Celso Amorim, assessor especial do presidente Lula (PT), afirmou que a declaração do secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, ao excluir o Brasil da lista de países amigos de Washington, é inédita na história da relação bilateral. Brasil e EUA mantêm 202 anos de relações diplomáticas.

“A declaração de Rubio é inédita. Nem quando o Dean Rusk [secretário de Estado dos EUA entre 1961 e 1969] e o Lincoln Gordon [embaixador do Brasil entre 1961 e 1966] estavam conspirando [para derrubar o presidente João Goulart], um secretário de Estado excluiu o Brasil da lista de países amigos”, afirmou Amorim.

A fala de Rubio ocorreu nesta terça-feira (2), durante audiência no Senado dos Estados Unidos. O secretário de Estado disse que o Ocidente conta hoje com uma coalizão de países alinhados aos EUA em temas de segurança e prosperidade econômica, mas citou o Brasil como uma das exceções na América Latina.

“É uma declaração impressionante e preocupante. Precisamos ver o que ocorrerá a partir disso, mas nem quando havia conspiração essa situação foi formalizada”, disse Amorim.

Durante a audiência, Rubio afirmou que a região tem, em geral, governos próximos de Washington. “Com exceção da Nicarágua, de Cuba, obviamente da Venezuela, que ainda enfrenta alguns desafios, e do Brasil, embora esteja no meio de um ciclo eleitoral, e, em certa medida, também do atual governo da Colômbia —ou pelo menos de seu presidente, que tem sido problemático—, de modo geral trata-se agora de uma região repleta de aliados dos EUA, de líderes amistosos aos EUA e de uma direção favorável aos interesses americanos”, disse Rubio.

Donald Trump e Lula em encontro na Casa Branca. Foto: Ricardo Stuckert

A declaração ocorre em meio a uma sequência de medidas do governo Donald Trump contra o Brasil. Um dia antes da fala de Rubio, o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) propôs tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros. A medida foi apresentada com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974.

Poucos dias antes, Rubio também havia anunciado a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. A medida abriu nova frente de tensão entre Brasília e Washington, com possíveis efeitos sobre empresas e setores com operações financeiras internacionais.

Nesta quarta-feira (3), os EUA propuseram outra tarifa, de 12,5%, contra o Brasil, após incluir o país em investigação sobre suposta falha no controle de importação de produtos feitos com trabalho forçado. Ainda não está claro se essa alíquota poderá ser somada à tarifa de 25% sugerida na investigação comercial anterior.

Para Amorim, a fala de Rubio marca um novo patamar na relação entre os dois países por formalizar uma distância política que nem mesmo ocorreu durante a conspiração dos anos 1960 contra João Goulart. A avaliação do ex-chanceler é que o gesto exige acompanhamento dos próximos movimentos do governo Trump.

Augusto de Sousa
Augusto de Sousa, 31 anos. É formado em jornalismo e atua como repórter do DCM desde de 2023. Andreense, apaixonado por futebol, frequentador assíduo de estádios e tem sempre um trocadilho de qualidade duvidosa na ponta da língua.