“Indecente e indecoroso. Ninguém na União Europeia acredita em Bolsonaro”, diz ao DCM eurodeputado francês

O eurodeputado Pascal Durand

POR WILLY DELVALLE

Indecente; indigno; indecoroso; insuportável. São adjetivos que o eurodeputado Pascal Durand utiliza para qualificar a pessoa e o governo Bolsonaro, sua política ambiental, sua relação com a França e a União Europeia.

Uma situação que, na visão do ecologista, eleito pelo grupo Renaissance do presidente Emmanuel Macron, é triste e sofrível. Nesta entrevista ao DCM, Durand manda recados a Jair Bolsonaro.

Diz que a voz do presidente brasileiro é praticamente inaudível na União Europeia, um contraste com a era Lula. Para o eurodeputado francês, Bolsonaro não é um interlocutor aceitável e as negociações com o Mercosul devem ser suspensas.

Os incêndios na Amazônia, explica, provocaram uma comoção na Europa, o que bloqueia as possibilidades de prosperar tal acordo.

Nesta conversa, ele se constrange ao ser perguntado sobre Moro, revela sua preocupação em torno de sua independência como magistrado, do processo de Lula e fala do que deseja para o rumo das relações entre ambos países.

De que forma o senhor, como eurodeputado, percebe a política ambiental de Jair Bolsonaro?

Eu a percebo com uma grande tristeza pelo grande país que é o Brasil. Esse país ao qual eu sou muito ligado, pois vivi com uma brasileira um bom tempo da minha vida e que é um país que detém tanta beleza e capacidade a se colocar no mundo, está se isolando de maneira exponencial. Há uma incapacidade em levar em conta o fato do multilateralismo.

O Brasil é um elemento do mundo e não está isolado no continente sul-americano. Meu sentimento é de sofrimento porque o Brasil foi, durante anos, um país de abertura. E agora, eu tenho a impressão de que o Brasil entrou numa política de isolamento, um pouco como Trump tentou fazer nos Estados Unidos, dizendo “nós primeiro”, sem compreender que se separar dos outros é primeiro se prejudicar. É algo muito crítico.

Qual é o estado das relações entre o Brasil e a União Europeia nesse momento?

Ela (a relação) é ruim. Temos uma impressão que há uma recusa em falar da realidade. Claro que se pode sempre acusar os outros. Dizer que os incêndios na floresta são as ONGs. Ele (Bolsonaro) tem o dever de saber que ninguém acredita nele.

Ele tem o dever de saber que, na União Europeia, absolutamente ninguém acredita que as ONGs, os ativistas, os autóctones são responsáveis por incêndios, pelo desmatamento. São evidentemente escolhas econômicas, políticas.

Não há uma responsabilidade exclusiva do Brasil. Essa situação faz parte de uma relação na qual privilegiou-se o agronegócio, em detrimento dos autóctones, dos direitos humanos, do respeito à natureza e ao meio ambiente. Incluem-se aí grupos europeus, pois eles não estão ausentes das relações comerciais.

Para ter esse debate, ainda é necessário ter pessoas que têm a vontade de encontrar soluções que sejam boas para todo mundo. Eu não acredito que essa seja a vontade do governo brasileiro.

E enquanto eurodeputado francês, de que maneira vê a escalada de ofensas do governo Bolsonaro contra Macron e a primeira dama?

É insuportável. É indigno. Mas na França sabemos fazer a diferença entre os delírios verbais e ataques pessoais do presidente… Eu conheci políticos brasileiros que tinham um mínimo de respeito. Atacar alguém por sua idade, por seu físico, para evitar um debate profundo é indigno da política, é indigno da democracia.

Eu lembro ao presidente Bolsonaro que ele foi eleito para representar a nação inteira. Agredir dessa forma a mulher do presidente da República francesa, e poderia ser qualquer outra pessoa, eu não acredito que isso seja honrar ao conjunto da nação brasileira. Pelo contrário, é indecoroso pelas suas declarações. Há palavras que são indignas. Não vejo outro termo. Me fazem pensar em certas palavras de torcedores de futebol em estádio que dizem besteiras.

De que maneira o senhor se posiciona em relação ao acordo da União Europeia com o Mercosul?

Pessoalmente, eu vejo como muito ruim. Queremos continuar importando soja transgênica? Há um esquema não respeitoso do clima. Mas eu tenho um outro ponto: enquanto o presidente Bolsonaro se comportar da maneira como ele se comporta, como alguém de extrema-direita, e não na lógica e no respeito dos valores da União Europeia, eu penso que deveríamos suspender qualquer negociação sobre o Mercosul. Creio que devemos parar de fazer avançar com o Mercosul, simplesmente porque eu creio que o presidente Bolsonaro não é um interlocutor aceitável para o momento.

Não era o caso para ninguém de discutir com o Chile de Pinochet, ninguém faria um acordo de livre-comércio durante a ditadura do Brasil, o que o presidente Bolsonaro parece lamentar. Enquanto houver alguém assim no comando de vocês, eu acredito que perdemos nosso tempo discutindo. Não teremos capacidade política face a um regime refratário, de impor o respeito a um certo conjunto de valores, um respeito aos direitos de populações autóctones.

Estou duvidando que se possa continuar uma discussão sobre o Mercosul. Proponho que a gente retire as canetas e diga: “a gente se fala num outro momento, agora, por enquanto, não é possível”. Se dissermos isso, acredito igualmente numa pressão sobre os amigos de Bolsonaro, falo dos amigos do agronegócio, aí eles começariam a ficar preocupados e talvez pediriam amigavelmente que ele recue um pouquinho sobre suas posições radicais, pois o agronegócio brasileiro tem vontade que esse acordo continue.

Não acredito que eles sejam partidários de uma deriva excessivamente nacionalista de Jair Bolsonaro. Que volte-se a ser mais racional.

E em relação aos seus colegas, qual é a possibilidade de ratificação de um tal acordo?

Eu penso que hoje é muito fraca. Houve uma comoção e tomada de consciência muito forte da comunidade europeia em relação à perda considerável para a humanidade da perda parcial da Amazônia. Eu considero o que disse o presidente Lula recentemente. Ele disse que a Amazônia é uma parte integrante do Brasil, então cabe ao Brasil decidir o que fazer com a Amazônia.

Eu entendo que o Brasil é soberano em relação ao seu próprio território. Não estamos aqui para fazer neocolonialismo, para explicar aos brasileiros o que é bom para o Brasil. Só esperamos um diálogo, como com a Indonésia. Florestas primárias no mundo, não há tantas assim. Vocês têm uma responsabilidade particular, como um pai de família tem responsabilidade com as suas crianças.

O Brasil tem uma responsabilidade particular sobre a floresta amazônica. Precisa-se encontrar uma solução e por enquanto ela não foi encontrada. Entramos numa relação conflituosa e eu penso que a maioria política no Parlamento europeu não é favorável a um acordo com o Mercosul.

Sobre Lula, qual é a sua visão sobre as revelações do Intercept sobre a Operação Lava Jato e a continuidade de sua prisão?

Esse é um real assunto da política interna brasileira. Eu não estou à vontade enquanto eurodeputado, acho que você entenderá, para dizer que não tenho confiança na justiça de outro país. Não é o meu papel. Digamos que me interpela, de maneira quase pessoal, que o juiz que condenou Lula foi admitido num governo de extrema direita no cargo de ministro da justiça.

Eu sempre fico preocupado quando vejo um magistrado ter um papel como esse. Um magistrado deve ser independente. Eu sempre fico preocupado quando vejo um juiz aceitar um cargo político. Enquanto advogado, isso me interpela, me parece um problema. Isso é uma grande questão.

Não tive acesso ao dossiê. Mas a eleição do presidente Lula foi percebida pelo mundo inteiro como um sinal extremamente positivo. Ele teve no seu mandato o que teve Obama nos Estados Unidos.

Pessoalmente, eu lamento ver um grande presidente, um grande dirigente, num momento ou em outro, condenado por casos extrapolíticos.

O que aconteceu com essa “aura” do Brasil hoje?

Tenho medo de responder essa pergunta diretamente, porque não quero constrangê-lo. A “aura” do Brasil não mudou. Penso, no entanto, que os posicionamentos, as provocações e as declarações do presidente Bolsonaro a desfaz e enfraquece a capacidade do Brasil como voz internacional reconhecida. Quando o presidente Lula falava, o presidente Lula era ouvido na comunidade internacional.

Nunca um presidente francês, de direita ou de esquerda, se permitiu dizer que as declarações do presidente Lula eram inaceitáveis. O presidente Lula jamais atacaria alguém por seu físico. É indecente quando um governo se comporta assim, seu crédito, sua possibilidade de ser escutado se torna muito baixa. A gente se pergunta: mas quem está falando?

O senhor está dizendo que o Brasil representado por Bolsonaro não tem credibilidade na esfera internacional?

Não. O Brasil é crível porque é uma grande potência. O Brasil enquanto país é crível. A voz do presidente Bolsonaro é quase inaudível. Eu dissocio bem os dois. A voz do presidente Bolsonaro não é o vetor mais forte. Mas eu diria a mesma coisa da voz do presidente Trump nos Estados Unidos versus a voz do presidente Obama.

Significa que a voz dos Estados Unidos é menos forte sob o presidente Trump do que quando eram governados por Obama? Não sei. Isso afeta a potência dos Estados Unidos? Não. A capacidade econômica do Brasil… O Brasil continua sendo uma potência mundial. E que bom! Por outro lado, a voz do presidente…

E quando ele diz que a Europa não tem nada a ensinar ao Brasil por conta de seus próprios desmatamentos faz sentido para o senhor?

Não. Isso não faz sentido. Eu disse que a Europa não deve se colocar numa posição neocolonialista. Nós estamos aqui para dizer: veja o que pode acontecer. Há uma enorme diferença entre o que aconteceu no passado e o que acontece agora. O que aconteceu no passado, e o Brasil nasceu de um sistema colonial, é que as potências dominantes saquearam, exploraram indiscriminadamente o planeta e a natureza.

A França, a Espanha, Inglaterra, Estados Unidos… Se disséssemos o que é melhor para o Brasil e fizéssemos o que se fazia antes, ele (Bolsonaro) teria razão. Mas houve o Acordo de Paris. São acordos livremente ratificados por nações livres e independentes.

Ninguém forçou cada país a assinar o Acordo de Paris. Não é colonialismo. Por isso eu digo que o multilateralismo e as Nações Unidas são um avanço considerável. Não estamos mais no século 18, onde grandes barcos chegavam dizendo: agora tomamos posse desse território. Para Bolsonaro, é fácil ficar no ataque e na demagogia.

Os engajamentos assumidos pelo Brasil na Europa foram negociados, discutidos e aceitos. O que desejamos é que esse acordo seja respeitado. E isso vale também para nós. Nós, enquanto ecologistas, vamos continuar lutando para que a União Europeia respeite seus engajamentos. E sobre a questão da soja, do agronegócio, a Europa também tem que se questionar. A responsabilidade é compartilhada. Para mim, o que é um problema é quando o presidente da República do Brasil diz que não há problema. Há um problema.

A União Europeia precisa sancionar o Brasil?

É uma verdadeira questão. Eu penso que não. Não vamos começar por sancionar o Brasil, colocá-lo em dificuldades. Por isso eu falo em suspender as negociações. Eu penso que é preciso uma suspensão. Eu falo por um momento. Não vamos fazer o povo brasileiro pagar o que quer seja. Não é esse o objetivo. É preciso que o Brasil volte à mesa.

Teria outras considerações a fazer?

Quando vemos as relações que se construíram entre o povo brasileiro e os povos europeus… Somos tão próximos, pelo aspecto cultural, econômico. Agora os insultos. Eu volto a dizer que é uma situação triste para nós, europeus, e para vocês, brasileiros. Não é racional que potências tão importantes como a União Europeia, o Brasil e a França não se falem como os amigos que sempre fomos. Eu gostaria que o Brasil voltasse e retomasse seu lugar na cena internacional, não com agressividade.

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