Indicadores econômicos não mostram a realidade da crise no Brasil. Por Fernando Brito

Foto: Ricardo Moraes/Reuters

PUBLICADO NO TIJOLAÇO

POR FERNANDO BRITO

Desde o início da pandemia, tenho insistido que os indicadores econômicos de pouco servem para dar a medida exata da crise econômica do Brasil.

Em parte, porque ainda não sabemos quanto a crise sanitária que a agravou vai durar – e com que intensidade vai se manifestar, ao logo deste tempo, em parte porque – como deve mesmo ser – medidas emergenciais fazem com que seus efeitos sejam postergados, exatamente como se faz aos casos de doença com o isolamento social, “achatando a curva” dos danos econômicos com crédito e auxílios emergenciais.

Tudo estaria relativamente “resolvido” se, como alguns pensaram. fossem “desgraças de curta duração” tanto a pandemia quanto a crise econômica a ela associada. Mas, numa e noutra, não foi nem está sendo assim.

Os auxílios emergenciais, assim como os semi-lockdowns que se puseram em prática estão visivelmente esgotados.

Na pandemia, acabamos chamando de “platô” a continuidade, monotonamente repetida, de mortes e casos da doença. Se pensarmos bem, como contaminados e mortos são indicadores negativos, talvez mais adequados seria chamá-lo de “vale”. E é mesmo de “vale da sombra da morte”, tal como a expressão que usa Davi nos Salmos bíblicos.

Já se sabe que a vacina é a única saída de seus horríveis paredões e que alcançá-la é a única esperança, ainda que se veja, aqui e por quase toda parte, paciência para manter as precauções neste jornada.

Na economia, este platô-vale igualmente está colocado e mas com a diferença que não se enxerga a mesma saída, preferindo-se a ilusão de que, cessada a pandemia, tudo se reanimará como num milagre e voltaremos a um “paraíso” que estava longe de existir.

A discussão sobre o tal “renda Brasil” insere-se neste quadro. Um programa maciço de transferência de renda precisa de duas pontas: a dos que recebem a renda transferida e as perdas de quem a transfere. Só é possível – e ainda assim com os ressentimentos que vimos na última década, em ambientes de progresso econômico.

Mas não há, na economia, a esperança de uma “vacina”, que se traduz de dotar o organismo social dos anticorpos do desenvolvimento sustentado, que advém do investimento, do emprego e da definição de um Norte para a nação, que lhe possibilite ter-se um horizonte em nome do qual mantêm-se a marcha, mesmo com as dificuldades.

Para a vacina, precisa-se de cientistas; para o rebrotar da economia precisar-se-á de estadistas.

Os primeiros, temos. Quanto aos homens de Estado, os praticamente destruímos pela demonização da política.

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