Indiretas para Bolsonaro, Doria incomodado e Deltan defendendo Lava Jato: bastidores do prêmio Brasileiros do Ano da Istoé. Por Pedro Zambarda

Os premiados da Istoé. Foto: Pedro Zambarda/DCM

O prêmio Brasileiros do Ano promovido pela revista Istoé foi escandaloso do começo ao fim. Na lista de premiados, estavam  o governador João Doria e o procurador Deltan Dallagnol, aquele por uma suposta contribuição no aprimoramento da gestão pública e este por seu desempenho em  “Justiça”. Ou seja, uma piada.

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, recebeu a maior importante homenagem — certamente por seu empenho em passar o facão nas aposentadorias.

A cerimônia foi realizada na casa de shows Tom Brasil, na Várzea de Baixo, em São Paulo.

Para garantir que os convidados e premiados bebessem em paz champanhe e vinho tinto e comessem com tranquilidade carne de primeira, juntamente com  e celebridades da televisão e do meio empresarial, três ruas de acesso ao Tom Brasil foram fechadas pela PM de Doria.

Era para evitar protestos.

Mesmo assim, o governador, Rodrigo Maia e Deltan Dallagnol entraram pela porta dos fundos.

Isso não impediu que três mulheres corajosas promovessem um escracho na frente da casa de shows.

Veridiana, dona de casa e atualmente desempregada, e as professoras Edva e Simone deram o seu recado através de cartazes e palavras de ordem. “Eu não consigo estudar mais para ganhar um emprego melhor porque sou obrigada a lecionar em dois turnos. Semana passada, eu perdi um aluno para o tráfico de drogas. A gente perde alunos com frequência em Cidade Tiradentes e ninguém se solidariza com os mortos de Paraisópolis”, disse Simone ao DCM.

As três mosqueteiras Veridiana, Edva e Simone: elas não se intimidaram

Edva afirmou que o trio conseguiu escrachar José Serra, Datena e Luan Santana na entrada, mas os demais foram direto para a porta dos fundos. “Eles têm medo do povo. É um governador [Doria] que não consegue andar na rua”, diz.

Dentro do Tom Brasil, o clima era de autocongratulação, e muitos elogios para a revista Istoé por parte dos premiados.

Mas houve tanbém críticas. Sem mencionar Jair Bolsonaro, Jô Soares fez um protesto contra o governo: “A cultura está em um pior estado do que eu, que estou aqui de cadeira de rodas. A nossa cultura, tirando a de vírus como temos o Sarampo agora, está na UTI. É preciso que se faça alguma coisa. Eu vejo as nomeações e há uma preocupação de qualquer coisa que se assemelhe à esquerda. Por exemplo: se vivo, Jesus Cristo seria crucificado porque era um homem de esquerda. Por favor: um País só avança com tecnologia e cultura, e é o que eu espero que seja feito por aqui, principalmente nas ações feitas pelo atual governo”.

A deputada Tábata Amaral fez um discurso que deixou o governador João Doria desconfortável. “Não posso deixar de falar sobre a tragédia de Paraisópolis, e precisamos pedir desculpas às famílias. Eu estou envergonhada com o que aconteceu”, disse.

Gustavo Bebianno, recentemente filiado ao PSDB, e Luciano Bivar, o presidente do PSL que rompeu com Bolsonaro, também estavam presentes na cerimônia para prêmios.

O apresentador Datena criticou os empresários que acham que somente eles dão empregos, sem considerar o esforço dos trabalhadores, mas repetiu o senso comum da classe média de “evitar as polarizações”. Artistas globais como Paolla Oliveira e Marina Ruy Barbosa falaram sobre a necessidade da maior participação feminina e a quebra de preconceitos.

Deltan Dallagnol atrás de Álvaro Dias. Foto: Pedro Zambarda/DCM

Deltan Dallagnol agradeceu à esposa Fernanda, disse que a Lava Jato recuperou em 2019 R$ 2 bilhões aos cofres públicos e não disse uma palavra sobre as revelações da Vaza Jato, a série de diálogos divulgados pelo Intercept, assim como a própria organização da Istoé não abordou.

“Recentemente fui fazer alguns exames porque senti que estava comendo mal, dormindo mal, não fazendo atividades físicas e o médico me disse ‘pode continuar fazendo tudo isso que o corpo aguenta. Mas continua firme na Lava Jato’”, afirmou. Não recebeu muitos aplausos, como os outros premiados.

João Doria premiado pela Istoé. Foto: Pedro Zambarda/DCM

“Não vamos generalizar, mas investigar e punir responsáveis”, discursou Doria sobre mortos em Paraisópolis.

O governador também não falou sobre a atuação ou os abusos da PM que estão sendo noticiados pela imprensa.

Para fechar a noite, Maia, que deixou de ir em uma sessão no Congresso para viajar até São Paulo, soltou esta: “as mudanças que estão sendo produzidas desde a reforma trabalhista do governo Temer, o teto de gastos e a reforma da Previdência são a maior transferência dos ricos para os pobres mais recente. Não sou contra o Estado, mas sim contra aquele Estado que fomos responsáveis”.

Apesar do  absurdo da frase, Rodrigo Maia só tinha bebido água até então.

O presidente da Câmara reforçou o discurso de que as mudanças “só acontecerão através do Congresso”.

Na festa da IstoÉ, estavam os representantes do 1% mais rico do país — Tábata Amaral incluída. Por isso, naquele ambientes certas expressões não soam estranhas e todo mundo aplaude quando uma autoridade como Rodrigo Maia diz que a reforma da Previdência proporcionará desconcentração de rendas no país.

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Veja o vídeo com o discurso de Doria:

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