Integrante do PCC usou Palácio dos Bandeirantes para posar helicóptero e ir a jogo do São Paulo

Atualizado em 28 de abril de 2026 às 6:32
João Gabriel de Mello Yamawaki na Câmara de Mogi das Cruzes. Foto: reprodução

Um suspeito apontado como operador financeiro do Primeiro Comando da Capital (PCC) foi autorizado a pousar de helicóptero no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo de São Paulo, para assistir a uma partida entre São Paulo e Palmeiras no Morumbis. O caso ocorreu em março de 2022, durante a gestão João Doria (PSDB), e veio à tona na Operação Contaminatio, deflagrada nesta segunda-feira (27) pela Polícia Civil.

O ocupante da aeronave foi identificado como João Gabriel de Mello Yamawaki, preso em fevereiro deste ano no Tocantins. Segundo a investigação, ele é suspeito de integrar o núcleo político e financeiro do Primeiro Comando da Capital e de ter envolvimento no transporte de cerca de 500 quilos de cocaína vindos da Bolívia.

De acordo com documentos da apuração, a autorização para uso do heliponto foi obtida em cerca de seis horas, após contatos políticos acionados pelo suspeito. Para a Polícia Civil, o episódio é um indício concreto do nível de acesso do crime organizado a estruturas oficiais do Estado.

O relatório policial classificou o caso como “surpreendente” e afirmou que ele demonstra “o alcance da infiltração do crime organizado no poder público e o risco que isso pode gerar nas instituições estatais”.

Palácio dos Bandeirantes, sede do governo de SP. Foto: reprodução

Segundo os investigadores, Yamawaki teria acionado o ex-vereador Thiago Rocha de Paula, de Santo André, para intermediar a liberação. Mensagens analisadas pela polícia indicam que o político alegou ter um contato na Secretaria de Desenvolvimento Regional capaz de viabilizar o pedido. A suspeita é de que um assessor ligado à pasta tenha participado do processo.

Como justificativa oficial, foi apresentada a informação de que a aeronave transportava uma suposta delegação japonesa, versão considerada falsa pelos investigadores. O objetivo real, segundo a apuração, era levar Yamawaki ao estádio do Morumbi para acompanhar o clássico do Campeonato Paulista.

Ao Metrópoles, o ex-governador João Doria afirmou que não tinha responsabilidade direta sobre o controle do heliponto. “Eu não controlo o heliponto. Nem precisa de autorização do governador para fazer uso do heliponto no Palácio dos Bandeirantes. Quem tem que se manifestar, quem tem que responder sobre essa circunstância é a Casa Militar do Governo de São Paulo, não é o governador”, declarou.

A Operação Contaminatio investiga a infiltração do PCC em administrações públicas municipais, especialmente no interior e na Grande São Paulo. As apurações apontam financiamento de campanhas, inserção de aliados em cargos estratégicos e tentativa de influência sobre estruturas administrativas.

Yamawaki também é apontado como criador da 4TBANK, um banco digital sediado em Palmas e com filiais em outros estados. Segundo a investigação, a estrutura teria movimentado ilegalmente cifras que podem chegar a R$ 8 bilhões. O Banco Central informou que a 4TBANK não tinha autorização para funcionar.

Além de Yamawaki, quatro pessoas identificadas como lobistas foram presas temporariamente. A operação cumpriu 22 mandados de busca e apreensão em cidades de São Paulo, Goiás, Paraná e Brasília. A Justiça também determinou o bloqueio de R$ 513 milhões de alvos ligados ao PCC.

Augusto de Sousa
Augusto de Sousa, 31 anos. É formado em jornalismo e atua como repórter do DCM desde de 2023. Andreense, apaixonado por futebol, frequentador assíduo de estádios e tem sempre um trocadilho de qualidade duvidosa na ponta da língua.