
O Irã decidiu não repetir o padrão do conflito anterior. Após a guerra de 12 dias contra Israel no ano passado — quando grandes salvas de mísseis foram amplamente interceptadas e lançadores destruídos — Teerã reformulou sua doutrina. Em vez de disparos massivos e concentrados, passou a realizar uma campanha mais constante, com o objetivo de desgastar os sistemas de defesa aérea israelenses e de aliados dos Estados Unidos no Golfo.
Segundo autoridades israelenses falaram ao Financial Times, dezenas de mísseis foram lançados contra Israel até segunda-feira, em ondas menores que as do conflito anterior, porém em ritmo mais contínuo. Um ex-integrante do setor de segurança de Israel descreveu a tática como uma estratégia deliberada de “atrito”, apelidada internamente de “chuva”, em contraste com os ataques intensos do ano passado.
Ao mesmo tempo, o Irã emprega mísseis de curto alcance e drones contra países do Golfo, atingindo infraestrutura civil e bases militares americanas. A intenção seria utilizar primeiro armamentos considerados menos valiosos, enquanto busca esgotar os interceptadores dos adversários e provocar instabilidade regional.
Desde que Estados Unidos e Israel iniciaram ataques contra o território iraniano no sábado, a República Islâmica respondeu com mísseis balísticos e drones contra alvos em Israel, Bahrein, Catar, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Iraque.
A maioria dos projéteis foi interceptada por sistemas avançados de defesa aérea, mas alguns drones e mísseis escaparam ou não foram considerados ameaça suficiente para justificar o uso de interceptadores caros. Em Israel, dois ataques diretos em Tel Aviv e Beit Shemesh deixaram dez mortos, segundo serviços de emergência. Nos Emirados Árabes Unidos, três pessoas morreram e 58 ficaram feridas após mais de 150 mísseis balísticos, mais de 500 drones e dois mísseis de cruzeiro atingirem o país até domingo. Também houve registros de danos em Manama, Doha e Kuwait City.
O número de mortos no Irã é superior. O Crescente Vermelho informou que 555 pessoas morreram até segunda-feira. Entre as vítimas estão o líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, além de altos comandantes militares e o ministro da Defesa.
The Size of Iran’s Arsenal Against American Bases
Iran possesses no fewer than 16 missile models capable of striking U.S. bases in the Middle East, with 14 models in full service and the other 2 gradually being moved to reserve status.
Older missiles can be reconditioned by… pic.twitter.com/5OVbHNrhaM
— Patricia Marins (@pati_marins64) February 27, 2026
Especialistas apontam que Teerã estaria usando primeiro mísseis mais antigos, movidos a combustível líquido, possivelmente versões do Emad ou do Shahab-3, preservando modelos mais avançados para fases posteriores do confronto.
Robert Campbell, ex-oficial britânico especializado em armamentos aéreos, afirmou que interceptadores como Thaad, Arrow e David’s Sling custam caro e levam anos para serem acumulados. Segundo ele, o envio de mísseis mais antigos teria como meta reduzir os estoques adversários, mantendo mísseis de combustível sólido mais modernos para ataques futuros — desde que os lançadores iranianos sobrevivam aos bombardeios.
Um vídeo mostrou o que especialistas identificaram como um drone Shahed-136 atingindo uma instalação naval dos Estados Unidos no distrito de Juffair, em Manama, onde está sediada a Quinta Frota americana. Campbell disse ter ficado surpreso com o impacto de um drone que descreveu como tecnologicamente simples.
Lynette Nusbacher, ex-conselheira do governo britânico em inteligência, avaliou que o Irã busca obter ao menos uma detonação bem-sucedida contra um alvo militar dos EUA ou de Israel. Segundo ela, o país já previa perdas na cadeia de comando e autorizou comandantes de escalões inferiores a disparar contra alvos pré-determinados, com base em coordenadas previamente definidas.
Por outro lado, a necessidade de utilizar os mísseis antes que lançadores sejam destruídos também pressiona Teerã. Autoridades militares israelenses afirmam que os ataques se concentram mais nos lançadores do que nos próprios mísseis. Na segunda-feira, um porta-voz declarou que a redução relativa nos disparos noturnos foi resultado de ações conjuntas com os Estados Unidos.
O Comando Central dos EUA (Centcom) informou ter repelido centenas de ataques, mas confirmou a morte de três militares americanos em combate.
Após a guerra anterior, o Irã investiu meses na recomposição de seu arsenal. Avaliações israelenses indicam que o país voltou a ter cerca de 2.500 mísseis balísticos no início do conflito atual. Durante a guerra de 2025, mais de 500 mísseis foram lançados contra Israel, com taxa de interceptação próxima a 90%.
🚨 BREAKING:
Jerusalem is being BOMBED right now.
Iran is BURNING DOWN israel city by city. pic.twitter.com/wtai1yMMTp
— Jvnior (@Jvnior) March 1, 2026
Grande parte dos mísseis modernos utiliza múltiplos sistemas de guiagem para superar bloqueios de GPS. Modelos mais avançados contam com orientação óptica, por meio de câmeras e sensores internos. No arsenal iraniano, poucos exemplares possuem essa tecnologia, como o Haj Qasem e o Qassem Bassir, apresentados em 2020 e 2025. Outro destaque é o Khorramshahr, capaz de transportar ogiva de duas toneladas, compensando eventual imprecisão com maior poder destrutivo. Também foram empregados no conflito anterior os modelos Fattah-1 e Sejjil, ambos de combustível sólido.
Analistas acreditam que Teerã calcula um confronto prolongado. A estratégia de ataques constantes também produz efeito psicológico em Israel, mantendo a população sob alerta frequente. Ainda assim, especialistas apontam que o Irã pode optar por preservar parte de seu arsenal para um momento posterior, inclusive após eventual retirada de ativos militares americanos da região.
A duração e a intensidade do conflito permanecem incertas, mas o padrão atual indica uma disputa baseada em desgaste gradual, custos elevados e pressão contínua sobre defesas e infraestrutura.