“Irmão”: a troca de mensagens entre Bacellar, desembargador e o cantor Belo

Atualizado em 16 de dezembro de 2025 às 17:49
O deputado estadual licenciado Rodrigo da Silva Bacellar, o cantor Belo e o desembargador Macário Ramos Júdice Neto. Foto: Divulgação

A Polícia Federal (PF) revelou detalhes sobre a relação entre o deputado estadual licenciado Rodrigo da Silva Bacellar (União Brasil), o desembargador Macário Ramos Júdice Neto e o cantor de pagode Marcelo Pires Vieira, mais conhecido como Belo, em um relatório que embasa a segunda fase da Operação Unha e Carne, deflagrada em 16 de dezembro.

A investigação, que foca no vazamento de informações sigilosas, descreve o encontro entre o deputado e Júdice Neto como algo planejado e com uma clara relação de proximidade.

A PF destaca diálogos trocados entre os investigados, caracterizados por “palavras de afeto e troca de declarações efusivas de carinho, que denotam confiança e lealdade”, indicando uma amizade íntima. Mensagens interceptadas pela PF revelaram conversas que comprovam a proximidade entre Bacellar e o desembargador.

Em uma delas, datada de 23 de outubro de 2025, ele chama o desembargador de “irmão de vida” e faz declarações de amizade incondicional, dizendo: “Não se desgaste por nada porque o melhor não temos irmão, que é amizade para vida e reciprocidade”.

O magistrado, por sua vez, responde de maneira afetuosa, pedindo para ele ligá-lo e comentando que a conversa havia sido “positiva”. A investigação aponta que essas interações demonstram uma confiança mútua e uma relação além dos limites profissionais.

Outro ponto relevante da investigação é o envolvimento de Belo, que é mencionado como elo entre eles.

De acordo com a PF, o cantor mantém uma amizade pessoal com ambos, o que é evidenciado por conversas em que Belo expressa carinho, como ao dizer “Eu te amo” para ele, que o responde chamando-o de “irmão”.

A frequência e a intensidade dessas mensagens reforçam a relação próxima entre os três, o que levanta questionamentos sobre a influência de Belo nos eventos que estão sendo investigados.

Conversas entre RodrigoBacellar, Belo e Júdice Neto. Fotomontagem

Além das trocas de mensagens, a PF aponta que ambos se encontraram presencialmente em setembro de 2025, na véspera da deflagração da Operação Zargun, em uma churrascaria no Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro.

Esse encontro gerou suspeitas, pois no mesmo período, o celular de TH Joias, preso na primeira fase da operação, registrou mensagens sobre evasão de provas e destruição de evidências, que seriam discutidas enquanto os dois estavam juntos.

Esse fato, combinado com os registros de movimentação e imagens de câmeras de segurança, sugeriu à PF que os dois estavam envolvidos em ações que prejudicaram a investigação.

A segunda fase da Operação Unha e Carne resultou em um mandado de prisão preventiva contra o desembargador e em dez mandados de busca e apreensão contra o deputado licenciado, todos expedidos pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).

As investigações visam apurar o vazamento de informações sigilosas, que teriam sido usadas para beneficiar a facção criminosa Comando Vermelho. Na primeira fase, Bacellar já havia sido preso sob suspeita de vazar dados que resultaram na prisão de Thiago Raimundo dos Santos, o TH Joias, ex-deputado estadual.

A Polícia Federal afirma que, de acordo com as provas, Júdice Neto foi responsável por repassar informações sigilosas sobre a operação contra o ex-deputado, o que teria ocorrido através do celular dele.

A situação do desembargador é mais grave, pois ele já havia sido afastado por 17 anos da magistratura devido a acusações de venda de sentenças enquanto era juiz federal no Espírito Santo, mas retornou ao cargo em 2023. Agora, ele está preso na sede da PF no Rio de Janeiro.

Bacellar, que foi ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), havia sido solto após uma decisão da Casa, mas foi novamente alvo de investigações nesta nova fase da operação.

Apesar de responder em liberdade, com uso de tornozeleira eletrônica, ele segue sendo investigado por sua suposta participação em um esquema de vazamento de informações sigilosas.

Guilherme Arandas
Guilherme Arandas, 28 anos, atua como redator no DCM desde 2023. É bacharel em Jornalismo e está cursando pós-graduação em Jornalismo Contemporâneo e Digital. Grande entusiasta de cultura pop, tem uma gata chamada Lilly e frequentemente está estressado pelo Corinthians.