
A ampliação da isenção do Imposto de Renda para salários de até R$5 mil passou a valer na folha de janeiro e já começa a impactar o bolso da classe média, reduzindo quase pela metade o número de brasileiros contribuintes. A medida, promessa de campanha de 2022, fortalece o cenário econômico e coincide com a vantagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas primeiras pesquisas às vésperas da eleição de outubro.
Segundo estimativas da Receita Federal, cerca de 11,3 milhões dos 25,4 milhões de contribuintes que pagaram IR no ano passado, aproximadamente 44%, deixaram de recolher o tributo. Outros 5,7 milhões tiveram redução do imposto, com descontos estendidos para rendas de até R$7.350 mensais. Segundo a Reuters, o governo calcula que a medida deve injetar R$28 bilhões na economia em 2025.
O ambiente macroeconômico também contribui. O desemprego está em mínimas históricas, o rendimento médio atingiu recorde e a inflação arrefeceu, abrindo espaço para queda de juros sinalizada pelo Banco Central. Pesquisas recentes indicam Lula à frente de adversários por quatro a sete pontos percentuais em simulações de segundo turno.
Para trabalhadores como a publicitária Vitória Santos, de 30 anos, o impacto é imediato. “É quantia significativa, que acaba fazendo diferença”, afirmou em entrevista à Reuters. “Para algumas pessoas, é a conta de luz do mês, a conta de internet, ajuda a planejar uma viagem ou pagar uma matrícula de academia”.

Já o carteiro Emerson Marinho relatou: “É dinheiro a mais que coloco na compra de alimentos. Tenho dois filhos, e é um valor de duas semanas inteiras que eu vou ter pra injetar em frutas, legumes. Então faz diferença sim”.
Economistas divergem sobre os efeitos de longo prazo. “É política ruim economicamente, mas gera votos”, avaliou Fabio Kanczuk, ex-diretor do Banco Central. Ele projeta impacto de 0,2 ponto percentual no crescimento neste ano, com efeito semelhante sobre a inflação.
Bruno Funchal, CEO da Bradesco Asset Management, alertou que estímulos ao consumo integram modelo “insustentável”. “Na eleição, em geral, a tendência é não mostrar um remédio amargo que vai ter que ser feito”, afirmou.
Para compensar a perda de arrecadação, o governo instituiu imposto mínimo sobre rendimentos acima de R$50 mil e retenção de 10% sobre dividendos enviados ao exterior. Estudo da Câmara aponta que a mudança pode reduzir a desigualdade de renda em 1,1%.
A política também dialoga com a classe média, que nos últimos anos se aproximou da direita. O senador Flávio Bolsonaro tem defendido agenda de redução de impostos e menor participação do Estado. O governo Lula, por sua vez, ampliou financiamentos habitacionais subsidiados para famílias com renda de até R$12 mil mensais, buscando ampliar sua base eleitoral.