Iván Duque representa uma “ultradireita miliciana”, afirma ativista colombiana

Publicado no Brasil de Fato

Manifestantes fazem um gesto em frente a uma fila da polícia de choque durante um protesto contra a reforma tributária em frente à casa do presidente Iván Duque, em Bogotá, em 1º de maio – Juan Barreto/AFP
(Photo by Juan BARRETO / AFP)

Um país com longa tradição da direita no poder e uma forte marca de um Estado violento. É essa história que está sendo questionada nas ruas da Colômbia, desde novembro de 2019, e que foi retomada em novos protestos que seguem, desde 28 de abril.

O Brasil de Fato conversou com a antropóloga colombiana Luz Angela Rojas, integrante do Congreso de Los Pueblos, movimento popular no país, que integra os protestos, para analisar os conflitos no país.

As reivindicações passam pela rejeição de reformas neoliberais do governo de Iván Duque, mas avançam ao denunciar a violência policial e paramilitar expressa nas manifestações, e que fazem parte da estrutura estatal. Levantamento do Instituto para Desenvolvimento da Paz (Indepaz) contabiliza, até o dia 18 de maio, 45 vítimas em decorrência da paralisação. A maioria delas por ação do Esquadrão Móvel Antidistúrbios (Esmad).

“As pessoas começaram a falar: ‘Não é só a reforma tributária, é abaixo o governo de Duque, que representa uma história muito longa de uma ultradireita na Colômbia, uma ultradireita miliciana’”, afirma Luz.

Rojas explica as reivindicações e aponta possíveis cenários para o conflito, inclusive com as eleições presidenciais previstas para 2022. Com voto facultativo no país, ela aponta os desafios para a esquerda para tornar representada a voz das ruas.

Confira alguns trechos da entrevista:

Brasil de Fato – No final de 2019, os colombianos já haviam saído às ruas para protestar contra o governo de Iván Duque. Por que o povo colombiano está nas ruas neste momento? 

Luz Rojas – O 28 de abril, que foi um novo ciclo daquele protesto social [de 2019], começou com três pautas: contra a reforma tributária, uma reforma neoliberal que, além de tudo, é muito indignante porque ela surge como uma resposta à ineficiência para enfrentar a Covid por parte do governo. A crise na saúde; a crise no emprego; altas taxas de trabalho informal, que não estava se desenvolvendo por causa da pandemia; e gerou esta situação de crise social que acho que a gente vive em toda a Nossa América, uma ineficiência no desenvolvimento e numa resposta frente à pandemia.

A reforma tributária é uma proposta em que todo mundo ficava com maiores taxas de impostos para o Estado, para sermos solidários entre todos nós. Mas, deixava de fora o capital financeiro. Era o povo, a classe média, a classe baixa, sociedade muito empobrecida, que tinha que começar a pagar taxas sobre os alimentos e outras coisas de consumo de primeira necessidade.

Outra questão é a situação dos direitos humanos. Isso se junta ao não cumprimento dos Acordos de Paz, que foram feitos com as Farc [Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia ] e, além disso, uma crise de mais de mil lideranças sociais assassinadas entre 2018 e 2021. Estou falando de um país, a Colômbia, que cabe oito vezes no Brasil, para que vocês tenham uma dimensão dessa diferença.

E também uma pauta a nível rural, como era a reivindicação contra as fumigações ilícitas. O narcotráfico não é controlado e nem atacado pelo governo, mas sim o camponês que produz a coca, a folha. É bem importante entender: coca não é cocaína, como uva não é vinho. E esse camponês que produz a coca, faz parte de uma crise da economia e uma falta de investimento por parte do governo, que tem desenvolvido toda a economia extrativista e que não tem nenhum apoio econômico para o pequeno camponês. O que ele pode fazer? Vai produzir café, que está na baixa ou vai produzir folha de coca? E o governo, essa política de intervenção junto com os Estados Unidos, é uma política que vai enfrentar o camponês, não ao narcotraficante, mas ao camponês.

Ganhamos uma primeira batalha, não ainda a vitória, que foi a retirada da reforma tributária. O governo recuou. Ele ia apresentar a reforma tributária dividida: reforma na saúde, reforma na aposentadoria, mas do pacote, ele recuou. É uma lembrança para nós que estamos nas ruas de que a gente ainda segue conquistando algumas lutas. É por isso que as pessoas começaram a falar: ‘Não é só a reforma tributária, é abaixo o governo de Duque, que representa uma história muito longa de uma ultradireita na Colômbia, uma ultradireita miliciana

Você fala de uma crise dos direitos humanos, e vimos isso muito expresso nas ruas da Colômbia na repressão aos protestos. Embora as imagens nos impressionem, a violência é parte da estrutura do próprio Estado colombiano. Como isso se dá historicamente?

Nosso quadro de repressão, por parte do Estado, faz parte de uma doutrina militar de segurança nacional na Colômbia e, por isso, é importante analisar o caso da Colômbia como um espelho do que poderia acontecer em alguns dos nossos países, da Nossa América. Uma doutrina de segurança nacional militar, que tem total apoio dos Estados Unidos.

Temos, historicamente, a lógica de que qualquer mobilização social, uma reivindicação em sua comunidade, tem algum vínculo com a guerrilha. Depois, com o Acordo de Paz [2016], [do qual] as Farc participou, tinha outra guerrilha que não participou, o ELN [Exército de Libertação Nacional], mas o governo já não tinha esse argumento no centro do debate. Agora, o argumento voltou, que é o protesto, a manifestação social é o inimigo interno.

Já não tem aquela figura do terrorista, do guerrilheiro, do narcotraficante, do castro-chavismo, mas agora são manifestantes que saem nas ruas. E essa figura para o governo é ainda mais difícil de criar um argumento [para a violência] e as pessoas aceitarem. Aquele manifestante é uma pessoa comum, um vizinho, um amigo, o camarada da universidade, e isso é muito importante porque a polícia está desenvolvendo toques de recolher, uma política de assassinato com uso excessivo da força pública.

A gente não pode esquecer que temos mais de 12 bases militares apoiadas pelos Estados Unidos em nosso país, isso faz parte dessa perspectiva da repressão.

A pressão de organismos internacionais tem contribuído para frear as violências no país?

A Colômbia sempre está no centro do debate, quando foi feito o Acordo de Paz, passou-se essa página e tem ainda muitos organismos que falam que esta é uma situação de pós-conflito. Nós reivindicamos que é uma situação do conflito, que ainda não se conseguiu a paz na Colômbia porque o governo se negou a continuar os diálogos com a ELN, se negou cumprir os Acordos de Paz e há os assassinatos sistemáticos de toda a organização que queira construir a paz no país, além disso a negativa do governo de negociar.

Mas sabemos que os organismos têm um limite, porque o governo sente que tem todo o apoio por parte dos Estados Unidos, e por parte também de outros governos, então eles escutam e se acha que estão prestando atenção, mas agir é outra coisa.

Qual o futuro do conflito na Colômbia?

Vivemos um momento importante agora porque as comunidades que estão na rua, que começaram a se organizar, devem ter uma participação nas negociações com o governo. Essa é uma situação que sempre, dentro do Congreso [de los Pueblos], falamos para construir a paz, construir outro projeto de sociedade na Colômbia, você precisa de todas as pessoas, estejam elas organizadas ou não.

Nesse cenário atual, a gente precisa escutar os setores sociais, escutar não só suas demandas, mas também suas propostas. É também reconhecer que nos territórios da Colômbia, a ausência do Estado também gerou exercícios de autonomia e de poder das mesmas comunidades.

De que forma as mobilizações podem impulsionar uma vitória da esquerda nas eleições de 2022 na Colômbia?

Temos que falar que as eleições na Colômbia estão sempre muito mediadas pelo conflito, como já falei, esse controle territorial, e o medo. Temos uma alta porcentagem de abstenções e aquele setor, que não é abstencionista, está no meio do conflito. Aquelas eleições livres sempre ficam muito entre aspas. Vai ser difícil essa proposta de Pacto Histórico [coalizão de partidos progressistas], uma proposta que busca juntar um bloco, mas reconhecendo o contexto, onde a gente tinha que superar as diferenças ideológicas para não permitir o avanço da ultradireita.

A crise geral na Nossa América na esquerda, suas divisões, fraturas e os diferentes enfoques que têm, na Colômbia temos a mesma situação.  A gente, com aquele Pacto Histórico, buscou criar as condições para uma unidade no campo eleitoral. No nosso caso, a gente tem que construir articulações, a liga tem que ser uma construção mais programática de projeto e de sociedade.

As mobilizações ajudam na medida em que os partidos escutem os sujeitos que estão nos protestos. Se os partidos políticos se fecham na realidade de uma estrutura institucional, elas [mobilizações] não vão ajudar. Vai ser um sujeito que não vai nas urnas votar, porque não se sente representado. E seja quem for no poder, vai gerar aquela crise de governabilidade que a gente está vivendo hoje.

Então, se os partidos, se o Pacto Histórico, se as coalizões ou mesmo os movimentos, compreenderem que algo está acontecendo nas ruas da Colômbia, no campo e na cidade, e escutarem essas pessoas, vai potencializar muito e pode mudar as condições políticas no nosso país.