Já ouviu falar dos “telhados verdes”? Pois eles podem salvar as grandes cidades da poluição

O Edifício Conde Matarazzo, com sua cobertura
O Edifício Conde Matarazzo, com sua cobertura vegetal

 

Revestir terraços de prédios e casas com vegetação não tem finalidade meramente decorativa. Os telhados verdes, como são conhecidos, têm uma função muito mais nobre, atestada cientificamente pelo geógrafo e professor Humberto Catuzzo, da USP.

Em sua tese de doutorado concluída no final do ano passado, Catuzzo provou que os telhados verdes reduzem as temperaturas e aumentam a umidade do ar significativamente no entorno de onde estão instalados.

Espalhados pelas cidades esses, jardins suspensos podem ajudar – e muito – a abrandar o efeito de um fenômeno conhecido como ilha de calor. Frequentes nos grandes centros urbanos, as ilhas de calor provocam um aquecimento anormal das temperaturas. Esse aquecimento é produzido pelo aumento da radiação solar que é potencializada pela alta concentração de asfalto, de concreto e de poluição do ar e também pela ausência de vegetação.

Para provar que os telhados verdes funcionam mesmo, Catuzzo analisou, durante mais de um ano, dois prédios distantes entre si apenas cinqüenta metros, em pleno coração da capital paulista. Um deles, o edifício Conde Matarazzo (sede da prefeitura), abriga um grande terraço verdejante onde há até mesmo um pequeno lago.

O outro é o edifício Mercantil/Finasa, com uma tosca laje de concreto no topo dos seus 35 andares. Ambos estão localizados nas imediações do famoso viaduto do Chá, antigo cartão-postal da cidade, e à beira do Vale do Anhangabaú.

Foi um ano e mais onze dias de experimentos – entre 20 de março de 2012 e 31 de março de 2013 – até que o pesquisador Humberto Catuzzo chegasse a uma conclusão para sua tese, chamada “Telhado verde: impacto positivo na temperatura e umidade do ar. O caso da cidade de São Paulo”.

No alto dos dois edifícios, Catuzzo instalou sensores capazes de medir, a cada 10 minutos, a umidade e a temperatura do ar. Confrontou todas essas informações com análises de amplitudes térmicas e higrométricas – que são as diferenças entre as temperaturas e a umidade relativa do ar mínimas e máximas ao longo das quatro estações do ano. Por fim, fez comparativos dos resultados obtidos com dados oficiais do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) em uma estação medidora da cidade.

De posse de gráficos e estatísticas minuciosos e complicados, o pesquisador da USP, enfim, apresentou os números, que não deixam de ser impressionantes. A maior amplitude térmica – aquela diferença entre temperatura mínima e máxima diária – foi 6,7º C inferior no alto do edifício Conde Matarazzo em um dia qualquer de verão, em comparação com o prédio Mercantil/Finasa.

Catuzzo concluiu, com isso, que o telhado verde do prédio da prefeitura de São Paulo demora mais a aquecer e a resfriar, o que mantém a temperatura do ar mais constante e agradável. “O telhado verde absorveu grande parte da radiação solar emitindo menor quantidade de calor para a atmosfera”, explicou o geógrafo à Agência USP.

Já a tal amplitude higrométrica foi até 7,1% menor no telhado verde em relação ao topo de concreto do edifício Mercantil/Finasa. Traduzindo, em meio à vegetação o alto da sede da prefeitura paulistana perde menos umidade relativa do ar do que a laje de concreto do outro prédio.

Em confronto com os dados do Inmet, a temperatura no telhado verde chegou a ser 3,2º C mais fria e a umidade do ar ficou 21,7% mais alta, não somente em relação ao telhado de cimento, mas também em comparação às médias da estação medidora do Instituto, que está localizada no Mirante de Santana, no extremo norte da cidade.

Para o geógrafo Humberto Catuzzo, não há dúvidas de que os telhados verdes aumentam a qualidade ambiental em grandes metrópoles. “Eles podem fazer parte das políticas públicas do município como forma de ampliar as áreas verdes”, resumiu o geógrafo.

Outros países já priorizam a obrigatoriedade de instalação de telhados verdes. “Cabe ressaltar que, em países europeus, e em algumas cidades dos Estados Unidos e da Argentina, existem leis, incentivos fiscais e financeiros oferecidos às construções que utilizam este tipo de estrutura”.

A prefeitura de São Paulo – que já tem um telhado verde para chamar de seu – bem poderia tentar tornar obrigatória a instalação de telhados verdes nos principais edifícios. A medida aliviaria a sensação de efeito estufa em que vivem os paulistanos. E seria um bom exemplo a ser seguido pelas demais metrópoles brasileiras.

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