Jamie Oliver está certo em detonar o brigadeiro

Ele quer comida saudável
Ele quer comida saudável

Jamie Oliver não gosta de brigadeiro. Soubemos disso na visita que ele fez ao Brasil, onde vai abrir um restaurante.

Brigadeiro é doce de festa de aniversário de criança. E, como dizem as crianças, “e daí”?

E daí que eu gosto de brigadeiro mas acho que Jamie tem razão.

Contraditório? Não.

Minha mãe sempre fez brigadeiro no meu aniversário, senão ninguém iria na minha festa e eu seria uma criança deprimida. Meu filho, meus amigos, meus primos e meus sobrinhos também.

Então todo mundo no Brasil gosta de brigadeiro.

Se a Nestlé não inventou o brigadeiro no final de segunda guerra, também não perdeu a chance de vender toneladas de leite condensado e chocolate em pó fabricados por ela no Brasil desde 1921.

Então todos nós, “babyboomers” que crescemos tomando Nescau e Leite Ninho, ficamos também viciados em Leite Moça, que é leite cozido com muito açúcar e o chocolate “do padre”.

E foi por isso que Jamie não gostou: ele combate a obesidade infantil e, portanto, os alimentos contendo muita gordura e açúcar.

Eu gosto de Jamie. Jovem cozinheiro, ele logo percebeu que a cozinha inglesa era infinitamente pior do que a adega e foi aprender a cozinhar na Itália. Aprendeu bem e ficou rico e famoso.

Seu restaurante virou uma rede e, ele, um astro da videogastronomia.

Não parou ai. Além de concorrente, tornou-se um sério adversário da junk food. Estrelou vídeos mostrando para as crianças como os nojentos nuggets são feitos das carcaças de frango moídas. Para muitas delas, os vídeos são mais assustadores do que o bicho papão.

Elas entenderam melhor do que os pais.

Se houvesse um Jamie na nossa infância a indústria teria que fazer o que está fazendo agora: experimentando novas fórmulas para produzir produtos melhores ou para nos enganar melhor.

Contradição é elevar o brigadeiro – uma receita composta apenas da mistura de um produto enlatado e outro empacotado – à categoria de alta gastronomia, como um diamante culinário do mais alto quilate.

Por enquanto, Jamie só criticou os brigadeiros – além dos quindins – por serem doces demais. Nada que a maioria de nós não concorde.

Quando ele descobrir que somos capazes de pagar o preço de trufas de chocolate belga – ou mais – por um único brigadeiro com gotas e raspas de limão siciliano no lugar do chocolate, poderá trocar, no restaurante que pretende abrir no Brasil, o foie gras por patê de frango.

E cobrar o mesmo preço.

Tudo em nome do bem estar. Das crianças, dos gansos e dele mesmo.

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