Jantar de correspondentes não teve alto nível de segurança propositalmente, diz Washington Post

Atualizado em 26 de abril de 2026 às 20:22
Convidados se abrigam após atirador tentar invadir o salão de festas no Washington Hilton no evento da noite de sábado

O Jantar de Correspondentes da Casa Branca, cerimônia anual que reúne líderes políticos e jornalistas, incluindo o presidente Donald Trump e vários membros do seu governo, não foi tratado com o mais alto nível de segurança, conhecido como “Evento Nacional de Segurança Especial” (NSSE).

Isso significa que a totalidade dos recursos de segurança federal não foi mobilizada. Medidas de proteção para uma festa que, em circunstâncias normais, exigiria um aparato de segurança mais robusto não foram implementadas.

O Washington Post relata que a solenidade, realizada no hotel Washington Hilton, não foi designada como NSSE, como ocorre com encontros de líderes mundiais ou outras ocasiões que envolvem figuras políticas de alta relevância.

Quando um evento recebe o status de NSSE, os recursos de segurança são intensificados, envolvendo não apenas o Serviço Secreto, mas também outras agências federais, além de uma vigilância mais rígida sobre a segurança no local e nas imediações.

O atirador Cole Tomas Allen, de 31 anos, escreveu um manifesto dizendo que queria atacar autoridades do governo Trump e zombou daquilo que chamou de segurança frouxa no hotel, de acordo com dois oficiais de segurança familiarizados com o texto. Ele afirmou que agentes iranianos facilmente poderiam ter trazido armas mais perigosas para o local.

O Serviço Secreto, que normalmente coordena a segurança do presidente e de outras figuras importantes, se concentrou em proteger o salão de baile onde a cerimônia acontecia, mas sem um esquema de segurança mais abrangente para o restante do Washington Hilton, o que pode ter deixado pontos vulneráveis.

A segurança, portanto, ficou restrita à área imediata, sem um controle total sobre o hotel, que não foi submetido a uma vigilância intensificada, como aconteceria em um evento com o status de NSSE.

Essa falha de segurança tornou-se ainda mais evidente quando, no meio da celebração, tiros foram disparados nas proximidades do salão, o que provocou pânico imediato. Trump, a primeira-dama Melania e outros membros do gabinete foram rapidamente evacuados.

Imagens e vídeos mostraram o presidente e o vice sendo escoltado para fora do salão de forma apressada enquanto agentes do Serviço Secreto cercavam a área. Esse incidente levanta sérias questões sobre a preparação e os protocolos de segurança adotados, especialmente considerando a alta visibilidade e a presença de várias autoridades de peso.

Outros presentes eram o Presidente da Câmara Mike Johnson, o Secretário de Estado Marco Rubio, o Secretário do Tesouro Scott Bessent e o Secretário de Defesa Pete Hegseth, além do chefe do FIB, Kash Patel.

O jornalista da CNN, Wolf Blitzer, que estava presente no local, relatou em detalhes o momento de pânico e a rapidez com que as autoridades reagiram.

Blitzer comentou sobre a situação, destacando a agilidade do Serviço Secreto, mas também levantando o questionamento sobre o fato de a segurança não ter sido reforçada em toda a área, especialmente em um evento tão significativo.

A falta de designação de Evento Nacional de Segurança Especial (NSSE) foi questionada pela última vez devido à falha na proteção do Capitólio dos Estados Unidos durante a certificação dos resultados da eleição presidencial em 6 de janeiro de 2021.

Manifestantes pró-Trump atacaram a Polícia do Capitólio e invadiram o edifício, forçando a evacuação de parlamentares e suspendendo a certificação por horas. O Capitólio foi finalmente limpo com a ajuda da polícia de Washington, agentes federais e da Guarda Nacional.

Após o ocorrido, o comitê da Câmara sobre o 6 de janeiro, o Gabinete de Responsabilidade Governamental e o Inspetor Geral do Departamento de Justiça recomendaram que futuras certificações eleitorais fossem designadas como Eventos Nacionais de Segurança Especial.

Além disso, o fato de o evento não ter recebido o status de NSSE levanta questões sobre o processo de decisão da Casa Branca e do Serviço Secreto sobre como alocar recursos em eventos públicos de grande porte.

O presidente Donald Trump fez uma breve declaração sobre o incidente, reafirmando que ele e sua família estavam em segurança, mas também questionando a eficácia das medidas de segurança. “Eu estaria aqui para reclamar, se isso tivesse sido mais sério”, disse Trump.

As autoridades ainda não esclareceram completamente os motivos da falha de segurança, mas a discussão sobre a adequação dos protocolos para eventos de alto risco continua.

A Casa Branca e o Serviço Secreto já iniciaram uma revisão do incidente, com alguns funcionários da administração sugerindo que o Jantar de Correspondentes no futuro deve ser tratado com muito mais cuidado e segurança.

Trump e apoiadores do MAGA aproveitaram para vender a necessidade do controverso salão de baile que ele tenta construir.

“Esse evento nunca teria ocorrido com o salão de baile ultrassecreto, em termos militares, atualmente em construção na Casa Branca”, afirmou o presidente americano em uma publicação em sua rede social Truth Social.

Na mesma postagem, Trump criticou uma ação judicial que tenta barrar a construção do salão, chamando o processo de “absurdo” e pedindo que seja retirado imediatamente para não afetar o andamento da obra.

Em março, um juiz federal decidiu paralisar a construção do salão de festas na Ala Leste da Casa Branca, projeto determinado por Trump.

O juiz Richard Leon declarou que, embora Trump seja o “administrador” da Casa Branca, ele “não é o proprietário”, e, portanto, a obra precisa de aprovação do Congresso.

O custo estimado do salão de festas é de US$ 400 milhões (cerca de R$ 2 bilhões). Trump afirma que o projeto está sendo financiado por doações privadas, incluindo apoiadores e empresas.

Kiko Nogueira
Diretor do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.