
Lançamento da Netflix, “Jay Kelly” é uma obra que transcende o mero entretenimento, estabelecendo uma conexão profunda com cinema clássico, especialmente mestres como Federico Fellini e Bob Fosse, cujas influências são sentidas sob a condução segura do diretor Noah Baumbach.
A história, centrada na vida de um astro que está prestes a completar 60 anos e que se encontra em uma profunda crise da meia-idade, revela não apenas um enredo bem estruturado, mas também mergulha o espectador em uma reflexão sobre a passagem do tempo, a ambição e a solidão.
George Clooney brilha no papel-título, trazendo à vida um personagem carismático, talentoso, atraente e atormentado. Ele vive seu alter ego de forma convincente, capturando as nuances da luta interna que muitos enfrentam em sua posição de destaque. Ao lado dele, Adam Sandler arrasa como seu agente, confidente e babá em tempo integral, proporcionando uma dimensão emocional que ressoa com o público.
A química entre os dois atores é palpável, tornando a jornada pela amizade ainda mais impactante. Relações formadas e desfeitas, os amores perdidos, o afeto das filhas e o isolamento, mesmo cercado por uma equipe de filmagem, são temas universais e íntimos. “Jay Kelly” não se esquiva de mostrar as verdades da fama, revelando que ser uma estrela não é sinônimo de felicidade constante, mas sim uma jornada repleta de desafios emocionais, escolhas e renúncias.
O arquétipo da bem-sucedida jornada do ator/galã espelha o desejo juvenil de exposição máxima ao escalar os píncaros da glória eterna, muitas vezes em detrimento de sua vida pessoal, que se resume a filmes colecionados e realizados.
A fotografia e a narrativa são outros pontos altos. A estética visual é sutil e provocativa, um verdadeiro deleite para os olhos. Temos a cena com o personagem principal correndo em um bosque em lusco-fusco enevoado, vestindo um terno de linho branco impecável, exasperado. Cada quadro é meticulosamente estruturado, refletindo a influência ímpar de cineastas europeus e clássicos americanos.
A forma como os ambientes são capturados não apenas dá vida à cena, mas também se torna um personagem por si só, refletindo os sentimentos de isolamento contínuo e introspecção, além de um humor sutil, que em alguns momentos nos lembra Robert Altman pelo humor refinado presente na trama.
O filme está repleto de referências a diretores, personagens e atores icônicos do cinema europeu. Desde cenas oníricas que evocam o estilo de Fellini até a delicadeza da abordagem de Tornatore na cena final, cada detalhe parece ser uma ode aos mestres que moldaram a sétima arte. Esses elementos não apenas engrandecem a narrativa principal, mas também atraem cinéfilos, convidando-os a uma reflexão mais profunda sobre o que está sendo apresentado na tela da TV.
A trilha sonora delicada e minimalista é de Nicholas Britell, e toca as fibras sensíveis do coração, tendo o poder de arrancar lágrimas dos espectadores mais emotivos. As notas melancólicas ecoam os temas sutis que costuram o enredo do filme, proporcionando uma experiência sensorial que complementa a narrativa. A música se torna uma personagem silenciosa, intensificando cada emoção sentida pelos protagonistas e pelo público.
É uma obra que quebra as amarras e liberta um pouco a sensibilidade dos aficionados por séries distópicos e violentas, lembrando que ainda podemos sofrer de amor ao apreciar a grande jornada do herói e suas peripécias, tropeços, travessias e roupas chiquérrimas. Uma película que se revela um delicado e sensível entretenimento no mar de mesmices do streaming.