Jean Wyllys: “Apesar da fome, da pobreza e da homofobia, cheguei até aqui”

Jean Wyllys (foto/Agência Câmara)

Publicado originalmente na Carta Capital
Por Jean Wyllys, ex-deputado federal

Esqueça os polêmicos embates com Jair Bolsonaro à época em que ambos exerciam as funções de deputado federal. Há muito mais substância em O Que Será, autobiografia de Jean Wyllys a ser lançada na terça-feira 30. O ex-parlamentar que optou pelo exílio para “continuar vivo” mescla em cerca de 200 páginas relatos de sua trajetória desde a infância no interior nordeste da Bahia e análises cortantes da situação brasileira. Apesar das ameaças que teve e tem de enfrentar, Wyllys, como revela a entrevista a seguir, vê o futuro com certo otimismo. “Não sei quanto tempo Bolsonaro vai durar, mas ele vai passar.”

CartaCapital: No livro, o senhor afirma que o campo progressista diz amar os pobres, mas se revela elitista e arrogante. Por quê?
Jean Wyllys: Acho uma contradição autoproclamar-se defensor dos mais fracos e desprotegidos e ao mesmo tempo menosprezar o consumo cultural dessa população. É contraditório criar uma hierarquia de consumo cultural em que um romance tem mais valor do que uma novela ou série de tevê. É a minha crítica do ponto de vista cultural. O campo progressista, de uma maneira geral, tenta se encontrar. Ainda está perdido por causa dos resultados das eleições, não desenvolveu estratégias para restituir o valor dos fatos. Existe uma pulverização da fronteira entre verdade e mentira, pois um dos lados políticos se vale das fake news de maneira descarada. A oposição acaba por gastar energia em assuntos periféricos.

CC: De que tipo?
JW: O debate sobre o voto da deputada Tabata Amaral na reforma da Previdência é um exemplo. Um gasto de energia enorme. O campo progressista está em desvantagem. Parte dele, que inclui os liberais de centro, foi conivente com a ascensão de Bolsonaro. Muitos acreditaram que o antipetismo levaria à vitória eleitoral do PSDB, mas se enganaram redondamente. Também estou em busca de saídas para o momento.

CC: O senhor se ressente da falta de solidariedade de colegas deputados diante dos ataques que sofria. Há muitos culpados pela sua saída do Brasil?
JW: Não culpo ninguém. Falo da homofobia social, que se expressa em uma homofobia institucional que fez com que muitos naturalizassem os ataques contra mim. Essa homofobia levou gente dita de esquerda a me atacar. Cito o caso de minha viagem a Israel. Fui a convite de uma organização progressista do país, defensores de uma solução para o conflito com a Palestina. Nunca deixei de defender o povo palestino e denunciar o colonialismo do Estado de Israel. Mas fui atacado, inclusive por integrantes do PSOL. Muitos que se dizem de esquerda me insultaram com os mesmos termos usados pelos usuais detratores. Para mim, os ataques derivam da homofobia. Mas isso não influiu para a minha saída do Brasil. Decisivas foram as ameaças de morte que sofri e a negligência do Estado em proteger minha vida.

CC:Pretende voltar?
JW: Gostaria, mas não posso. Só quando a normalidade democrática for restituída, quando este governo não estiver mais no poder, quando houver um Estado de Direito. As denúncias do site The Intercept Brasil mostram que não existe um Estado de Direito no Brasil. Lula está preso sem provas. Houve uma conspiração contra a soberania popular e nada acontece. Agentes da Polícia Federal forjam a existência de um hacker para poder justificar as ações de Sérgio Moro. Que segurança vou ter? Não me arrependo de ter saído, estou vivo e com voz. Foi a melhor decisão que tomei.

CC: “Enquanto houver saliva, haverá cuspe”. Se tivesse oportunidade, cuspiria novamente em Bolsonaro?
JW: Nas mesmas circunstâncias eu faria tudo de novo e não me arrependo. Bolsonaro me difamou, me humilhou e me assediou durante anos. Naquela noite ele elogiou um torturador, crime de lesa-humanidade. Depois desse elogio, ele dirigiu a mim um insulto homofóbico. O único gesto digno daquela noite foi o cuspe na cara dele. O Brasil não pode achar que um cuspe na cara pode ser mais agressivo do que um elogio à tortura.

CC: Como avalia o desempenho do seu sucessor na Câmara, o deputado David Miranda?
JW: Não tenho acompanhado os mandatos especificamente. Acompanho o conjunto da bancada do PSOL. A identificação que tenho com ele é o fato de ele ser LGBT e eu também. Não acho que o fato de o David ter ficado na suplência significava que ele tenha que dar continuidade ao meu mandato ou fazer parecido. Somos diferentes, de formação e história distintas, apesar de integrar o mesmo partido. Fico feliz de, coincidentemente, o substituto ser LGBT, senão ficaríamos sem representação. Quando eu morava no Rio de Janeiro, chegamos a nos conhecer, a nos falar, mas não somos amigos. Sei que ele é um cara bacana, mas não temos uma relação como se imagina.CC: Quais seus próximos passos?

JW: Ganhei uma bolsa para estudar os fenômenos das fake news e me concentro nesse trabalho agora. Além disso, vou prestar seleção para o doutorado em outubro deste ano. Berlim é a cidade mais propícia para eu estudar, mas tem a possibilidade de eu cursar na Espanha ou nos Estados Unidos. Até o fim do ano tenho uma agenda de conferências e debates em diferentes universidades do mundo. Esse é o meu trabalho e é disso que vivo. Faço questão de explicar, pois essa mentira absurda de que vendi meu mandato para o David é tão surreal que só posso creditar à má-fé absoluta e ao mau-caratismo a opção de se acreditar nela. Movo processos contra o deputado José Medeiros, que, diante dessa mentira, ingressou com um pedido ridículo de investigação na Polícia Federal.

CC: Qual a expectativa em relação ao lançamento da autobiografia?
JW: Não vivo de expectativas. Acho o livro necessário. Comecei a escrever antes de deixar o Brasil. Discuto como a história recente do País moldou a minha história pessoal. Torço para que os brasileiros consigam construir o futuro que leva à pergunta “O que será?” É uma indagação e ao mesmo tempo uma afirmação, “o que será”. Apesar da fome, da quase morte, da pobreza e da homofobia, cheguei até aqui.

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