Jessé Souza e a guerra santa contra os “deuses” da sociologia brasileira. Por Joaquim de Carvalho

 

Quando terminou a entrevista, Jessé Souza estava suado. “Eu me empolgo e transpiro”, disse ele, ajeitando a gravata.

Sociólogo formado pela Universidade Federal de Brasília, fez doutorado pela Universidade de Brasília (UnB) e pós doutorado em psicanálise e filosofia na The New School for Social Reserch, em Nova York.

A empolgação está relacionada à paixão com que recorre à ciência para demonstrar que o Brasil é uma nação que nunca se viu no espelho.

Parece contraditório — paixão e ciência —, mas não é.

Jessé é um intelectual profundamente incomodado com as “as verdades” que nos foram apresentadas como explicação científica, com a chancela da universidade.

Ele não poupa críticas a Raymundo Faoro, autor de Os Donos do Poder, e Sérgio Buarque de Holanda, autor de “Raízes do Brasil”.

Ambos desenvolvem uma interpretação para o caso brasileiro do conceito sociológico de patrimonialismo criado pelo sociólogo alemão Max Weber.

A patrimonialismo seria a acumulação de riqueza por uma elite da burocracia a partir do Estado — os políticos seriam os grandes patrimonialistas.

No caso de Faoro, a crítica se deve ao que Jessé entende como fraude científica a apresentação da corrupção como a herança de um modelo português que teve origem na monarquia.

“Eram terras do rei: como ele poderia roubar ele mesmo? A noção de corrupção como nós conhecemos só surge a partir da Revolução Francesa”, diz, com energia.

“É uma fraude, e nós aceitamos tudo isso sem questionamento, tanto a direita quanto a esquerda”, acrescenta.

Ele critica Sérgio Buarque de Holanda pela tentativa de criação de um tipo brasileiro, o homem cordial.

“É a concepção do brasileiro como vira-lata, ou seja, como conjunto de negatividade: emotivo, primitivo, personalista e, portanto, essencialmente desonesto e corrupto”, escreveu, em seu livro precedente, “A Elite da Escravidão”.

Na obra que está sendo lançada, “A Classe Média no Espelho — sua história, seus sonhos e ilusões, sua realidade”, Jesse aprofunda a crítica.

Para ele, sobressai na teorização (“inconsistente”) de Buarque de Holanda a ideia de que esse homem cordial deve ser transformado pelo mercado e pela industrialização um homem “tão democrático, produtivo, puro e honesto como” os nascidos nos Estados Unidos.

Nesse esquema teórico, o Estado seria o inferno dos vícios e o mercado, paraíso das virtudes.

Uma fraude grotesca, segundo ele, desmascarada em 2008, com a descoberta de “um fabuloso esquema de corrupção planetário do capitalismo financeiro americano”.

Nem assim, entende Jessé, o viralatismo nacional foi enfraquecido em suas bases teóricas. Continuamos a falar de um homem cordial como um ser inferior.

O que essas teorias escondem, na opinião dele, é a gigantesca corrupção que é praticada pela elite do dinheiro no Brasil, através de mecanismos legalizados, como juros estratosféricos (os maiores do mundo) e um serviço da dívida pública que não é dívida, já que se trata de juros sobre juros.

O resultado disso é que, nos preços no Brasil, está embutida essa ganância, a ação da “elite de rapina”. Na entrevista, à medida em que faço perguntas para aprofundar o tema, Jessé parece tomado por uma indignação crescente.

“É inacreditável que não percebam que o Estado brasileiro é um mero instrumento para essa apropriação de um bem que é de todos”, afirma.

Ele usa uma imagem do tráfico de drogas para explicar melhor. A elite do dinheiro seria a dona da boca de fumo, os políticos corruptos, aviõezinhos.

Graças a teorias como de Faoro e Sérgio Buarque de Holanda, o Brasil legitimou uma ação judicial em que se pune o aviãozinho, jamais o grande traficantes.

Na realidade do tráfico, não é muito diferente, mas, na metáfora de Jessé, se trata dos homens do dinheiro e políticos mesmo.

Com a Lava Jato, não é diferente, embora empreiteiros tenham sido presos. São exceções que confirmam a regra.

Os esquemas de sonegação bilionários jamais são punidos. Não é por acaso que a Operação Zelotes, nascida quase ao mesmo tempo que a Lava Jato, morreu por inanição.

Se no bolso dos corruptos passivos, os aviõezinhos, se encontram malas de dinheiro, imagine-se nos paraísos fiscais dos ativos.

Mas nosso olhar é dirigido só para o intermediários, nunca para o dono da boca. É um modelo pensado, construído e divulgado com um propósito, o da rapina permanente. Os teóricos da fraude estão na universidade.

“Se Sérgio Buarque é o filósofo do liberalismo conservador brasileiro, ao construir o esquema de categorias teóricas nas quais ele pode ser pensado de modo pseudocrítico, Raymundo Faoro é seu historiador oficial”, define.

Na verve do sociólogo, sobram críticas para a esquerda e o candidato que enfrentou Jair Bolsonaro no segundo turno das eleições, Fernando Haddad.

A esquerda é criticada porque aceita de modo passivo essas construções teóricas e seus derivativos, como o populismo de Francisco Weffort, um dos fundadores do PT.

Weffort, que em meados da década de 90 trocaria o PT pelo governo demo-tucano de Fernando Henrique Cardoso, aplicou o conceito como uma crítica a políticos brasileiros que se conectariam às massas populares para manipulá-las.

Hoje, o conceito de populismo é usado para atacar Lula.

“O populismo também se tornou um instrumento importante para congelar a sociedade brasileira, impedindo governos que reduzam a desigualdade social, esta sim a raiz de todos os nossos males”, destaca, gesticulando bastante.

Estes conceitos, aceitos sem contestações, fundamentam as críticas e ajudam a construir o discurso único de que nosso problema estaria concentrado na classe política.

“Com esse esquema teórico, se fez a cabeça da classe média, que se tornou idiotizada, incapaz de enxergar o real problema brasileiro”, afirmou.

Como é esta classe média o público com acesso a jornais, revistas e outras formas de publicação mais restritas, onde Faoro e Buarque de Holanda são endeusados, é ela que se tornou a propagadora do embuste.

Com isso, se tornou tropa de choque da elite de rapina. Pensa que se diferencia ao reproduzir esses conceitos. E se diferencia, mas de uma maneira negativa.

Para sair da encalacrada política em que se meteu, o Brasil precisa travar o grande debate dessas ideias.

Nessa arena, a direita brasileira está bem armada e com um exército sempre em ação. A esquerda está sem quadros e estratégia. Por isso, faz o discurso do inimigo.

Esta é uma das razões pelas quais Jessé, que já foi presidente do IPEA, o instituto de pesquisas aplicadas, e tem mais de 20 livros publicados, decidiu escrever as obras em que compra a briga com a intelectualidade brasileira, de esquerda e de direita.

É o preço que ele decidiu pagar. Mas não se arrepende.

“Não podemos ter medo da verdade. É preciso dialogar com o povão e com a classe média, mas para esclarecê-los, jamais para reproduzir a farsa”, afirma.

Veja a entrevista:

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