João Gilberto e o melhor show de sua vida. Não sai de mim, não sai. Por Paulo Donizetti de Souza

João Gilberto dizia ter feito o melhor show de sua vida no 3º Festival de Água Claras, em 1983. Foto: JORGE ROSENBERG/O BARATO DE IACANGA

Publicado originalmente na Rede Brasil Atual (RBA)

POR PAULO DONIZETTI DE SOUZA

Aquela madrugada de domingo, 5 de junho de 1983, não foi uma madrugada qualquer. Ela marcou a transição de uma das noites mais ricas da história da música do Brasil, para o amanhecer mais inimaginável dessa mesma história. A chegada de João Gilberto àquela fazenda enlameada em Iacanga, no interior de São Paulo, parecia um detalhe pouco importante para a maioria dos acampados na Fazenda de Águas Claras.

Os mais barulhentos estavam ali em nome do rock. Pois, se ali era uma versão brasileira de Woodstock, ali era lugar de rock. Mas para os produtores, capitaneados por Antonio Cechin Júnior, o Leivinha, era muito mais do que isso. E João Gilberto até que mereceria a Limusine que reivindicou para chegar à fazenda. Mas acabou tendo de ir de trator mesmo.

O Brasil é um lugar especializado em assimilar o espírito da coisa, e dar-lhe um corpo peculiar. Os modernistas de 22, quase um século atrás, captaram esse talento antropofágico. Que o diga o samba que dormiu com o jazz e acordou com a Bossa Nova.

O ritmo de Woodstock era o rock, mas a atmosfera era de guerra do Vietnã. E ainda que a inspiração de Águas Claras fosse Woodstock – paz, amor, justiça e liberdade em tempos de Guerra Fria –, o ritmo por aqui, após duas décadas de ditadura e repressão cultural, era maior do que o rock. Maior do que a bossa, mas filho dela.

Foram quatro dias chuvosos naquele festival. Para chegar lá, aos 18 anos, desempregado, como não pouca gente naquele 1983, rifei um três-em-um da marca Grundig. Meia-boca. Toca-discos, toca-fitas e rádio. Deu para pagar o frete do ônibus que saiu de Santo André e para entrar na fazenda pela porta da frente, comprar os enlatados para comer e a garrafa de Domeq que duraria até o último acorde de João Gilberto.

Fui, ao lado de pessoas queridas, movido ao repertório. Adoro rock, mas “só” o rock não valeria o sacrifício. Iacanga prometia Dodô e Osmar. Oswaldinho do Acordeon. Premê. Língua de Trapo. Raul Seixas. Sá e Guarabira. Expresso Rural. Sivuca. Paulinho Boca de Cantor. Wanderléia e Erasmo Carlos (ela foi num dia, ele noutro, vai entender), Wagner Tiso. Arthur Moreira Lima. Paulinho da Viola. Fagner. Moraes Moreira. Sandra Sá (não era “de” Sá ainda). Jorge Mautner. Luli e Lucina. Tinha muito mais, não vou lembrar.

Dedico a Walter Franco, com sua espinha ereta, o grande momento de transição da impaciência do público com a falta de “Raul” e de “rock”, para uma noite sublime de música pura. Da noite do sábado para a manhã de domingo, depois dele, vi roqueiros alucinados trocando o “toca Raul” por um bis de Arthur Moreira Lima. Vi uma transição natural de Erasmo para Paulinho da Viola. Sempre com a obrigação do “mais um”.

E consegui ver João Gilberto entrar no palco sob céu ainda escuro. A paz geral da nação que estava começando ali a enterrar a ditadura esteve sob sério risco. É que a primeira saudação de João Gilberto foi acompanhada de uma microfonia. Suspense. O momento de tensão fez lembrar os violinos eternizados da cena do banho em Psicose. Mas, surpreendentemente, João Gilberto tocou em frente, e fez ali o melhor show de sua vida – segundo dizem que ele disse. E eu acredito.

Para quem deu o toque mágico que fez de Chega de Saudade um divisor histórico entre Antigo e Novo Testamento da música brasileira; para quem some por meses para reaparecer com Oba-Lá-lá (Quem ouvir o oba-lá-lá/ Terá feliz o coração/ O amor encontrará/ Ouvindo esta canção) e Bim Bom (É só isso o meu baião/ E não tem mais nada não/ O meu coração pediu assim, só); para quem fica exageradamente transtornado diante de uma tosse ou um pedido de música durante um show para grã-finos… aquilo tudo era inacreditável. Ou tudo o que ele sempre quis.

Era verdade. João Gilberto foi capaz de cantar para um público sedento por rock, entre 5h30 e 7h da manhã, por aí, todas as canções que caberiam em um álbum de greatest hits de sua bossa. Fez três noites de chuva, iniciadas numa quinta-feira cinza, culminarem num nascer de sol deslumbrante e inexplicável de uma manhã fria de domingo.

Não posso dizer que tiro de memória tudo que escrevo. Vi recentemente no festival É Tudo Verdade um documentário precioso dirigido por Thiago Mattar. O Barato de Iacanga. É um dos mais bem elaborados documentos sobre o que foram as três, quase quatro, edições do Festival de Águas Claras (1975, 1981, 1983 e 1984). Duvido que apareça algum inventário tão rico desses eventos como o reunido nesse filme do Thiago e companhia. Melhor do que isso, só estando lá. Eu estive. Nos dois baratos de Iacanga.

Talvez aquele amanhecer catártico possa explicar um pouco o significado de João Gilberto para a música do mundo. De cada três pessoas que ali estavam, duas pularam as cercas por falta de grana. E não era por mal, era um misto de aventura com não tem outro jeito. Do outro lado, tanta gente boa da música, que estava ali tocando e que não estava, deve a João Gilberto pelo menos dois terços de sua inspiração.

João fez de sua obra uma mina de ouro, material e imaterial, exposta a céu aberto. Seu tesouro não cabe num baú. No fim da vida, escondeu-se da pequenês humana em seu pijama. E numa melancolia que “não sai de mim, não sai”.

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