Jogo de tabuleiro critica o capitalismo e democratiza teorias de Marx e Bourdieu. Por Paloma Varón

O jogo de tabuleiro Kapital, concebido pelos sociólogos franceses Michel e Monique Pinçon-Charlot, explica a sociologia a partir dos conceitos de Marx e Bourdieu. Reprodução

Publicado originalmente no site da RFI

POR PALOMA VARÓN

Imagine um jogo de tabuleiro que imita a vida real, mas no qual o objetivo não é ficar rico comprando e vendendo propriedades, como no Banco Imobiliário, nem alcançar sucesso em todas as etapas da vida, como no Jogo da Vida, mas aprender sobre a sociedade em que vivemos e suas regras não ditas. Criado pelos sociólogos franceses Michel e Monique Pinçon-Charlot, Kapital foi um sucesso de vendas na França, com estoque esgotado em três semanas.

Kapital – com K, como no livro do alemão Karl Marx – foi lançado em 8 de novembro e vendeu as 10 mil edições iniciais em poucos dias. “A gente queria oferecer como opção de presente de Natal, mas o estoque esgotou antes”, explica Marianne Zuzula, responsável pelo projeto, contando que é o primeiro jogo de tabuleiro lançado pela sua editora, La ville brûle (A cidade arde, em tradução livre), especializada em ciências humanas e sociais.

Enquanto prepara mais 100 mil cópias que devem ser lançadas em fim de fevereiro, Zuzula comemora o sucesso da editora. “Monique e Michel mostram que as desigualdades sociais não são naturais, mas são o resultado de uma vontade política implementada em benefício dos ricos”, diz.

“O nosso jogo de tabuleiro foi inteiramente concebido a partir da sociologia crítica. Colocamos em prática os conceitos de Karl Marx e de Pierre Bourdieu, as teorias da exploração e da dominação, decorticadas e misturadas, aplicadas à classe dominante”, explica a socióloga Monique Pinçon-Charlot, dizendo que, como nos jogos mencionados acima, este se joga com dados e cédulas e pode ser disputado por dois a seis jogadores.

Classe dominante

Ao contrário de como ocorre nos jogos de tabuleiro mais conhecidos dos brasileiros e até dos franceses, as cédulas não representam apenas o dinheiro. Primeiro, se jogam os dados para decidir quem são o dominante – no singular, porque só pode ter um – e os dominados. “Se você é dominante, você recebe logo bastante dinheiro, 50 cédulas de capital financeiro”, diz a socióloga.

Mas – e aí entra a teoria do sociólogo francês Pierre Bourdieu – a riqueza não se resume a isso. O dominante recebe também, já no início, 50 cédulas de capital social (“os ricos estão sempre com os ricos, têm amigos influentes”), de capital cultural, (“que representa o mundo dos mercados de arte, das universidades de prestígio, de amantes dos livros e de ópera”), e de capital simbólico.

Sobre este último, Monique explica: “Na França e mesmo no Brasil, a gente reconhece alguém que faz parte da alta sociedade pelo seu corpo, pela sua postura; sua casa é excepcional, ele tem uma elegância que parece natural. Esta riqueza simboliza a soma das outras três riquezas”.

Os dominados têm direito a apenas 10 cédulas de cada uma destas riquezas. E o dominante começa a partida, claro. “No jogo é como na vida: é o acaso que decide quem será o dominante e quem será o dominado.” Se no jogo são os dados que decidem – quem tira o valor maior é o dominante -, na vida real, isso passa pelo lugar e pela família onde se nasce.

“Se você nasce nos bairros nobres de São Paulo, você nasce com títulos de propriedade e herança, mas, se você nasce numa favela um pouco mais longe, você nasce com um caminho de espinhos diante de você e todas as dificuldades que podem estar ligadas às diferentes formas de miséria – econômica, social, cultural e simbólica”, explica Monique.

Comentário sociológico

À medida em que os jogadores lançam os dados, seguem o percurso que conta de 82 casas (que correspondem à esperança de vida de um francês ao nascer). Ao caírem em uma casa, eles retiram cartas com perguntas a serem respondidas, que lhes permitirão avançar ou recuar no jogo. Existem cartas específicas para o dominante e os dominados “porque não fazem parte da mesma classe social”.

Além da questão a ser respondida, há um comentário sociológico para cada carta.
Monique pega uma carta ao acaso para exemplificar. Ela pega uma carta de dominante em que este tem de citar três bairros nobres da França. A carta vem com um comentário sobre um clube fechado: “A metade dos membros do très chic Clube do Automóvel – tão seleto que só admite homens – mora no 16º distrito de Paris [onde vivem as principais fortunas da cidade]”.

“Os comentários sociológicos devem ser lidos em voz alta e mostram as fissuras sociais da França”. Numa outra carta que retira do monte, destinada aos dominados, ela mostra que os ricos pagam proporcionalmente muito menos impostos que os pobres. “Isso não te deixa com um gosto amargo na boca?”, provoca a socióloga.

“Não basta ter dinheiro para morar em um condomínio exclusivo em Paris. É preciso ser aceito pelos seus pares, mesmo se a gente tiver dinheiro para comprar uma mansão”, conta ela, exemplificando como os capitais social, cultural e simbólico são importantes.

“O que nós fazemos neste jogo é ‘pleonasmar’ o real”, resume.

Luta de classes na França e no Brasil

“O objetivo é fazer entender que a riqueza é multidimensional – não basta ter dinheiro –, e esta é a teoria de Bourdieu. E que nós estamos em uma guerra de classes, esta é a teoria marxista. “Não é à toa que o subtítulo do jogo é ‘Quem ganhará a luta de classes?’”.

“Na França, a guerra de classes atinge o seu nível máximo. Por tudo que eu li sobre o Brasil, que eu amo muito, posso dizer a mesma coisa: a luta de classes lá está em seu nível máximo. E vocês ainda são mais penalizados que nós, franceses, porque são um país da América Latina, sob a influência dos Estados Unidos”, afirma Monique.

Segundo a socióga, Kapital ajuda na “compreensão da gravidade da situação que os países capitalistas atravessam, incluindo o Brasil, com uma oligarquia globalizada que promove a guerra contra o povo”.

Questionada se trata-se de um jogo anticapitalista, Monique diz: “A situação ficou tão grave na França, no Brasil e em todos os países do mundo que apenas uma postura anticapitalista é compatível com a sobrevida do planeta e da humanidade”.

O jogo vai também contra outro conceito bastante utilizado no mundo capitalista, que é o da meritocracia: “Ele mostra bem que não importa o que faça o menino pobre da favela brasileira ou de Seine-Saint Denis [departamento mais pobre da França], ele não chegará nunca, porque tudo é feito para celebrar aquele que nasceu em Neuilly [cidade rica a oeste Paris] e para desmerecer aquele que nasceu em Bobigny [cidade pobre a leste de Paris]”, afirma.

“A escola de ricos vai legitimar os filhos dos ricos, e a escola de pobres vai continuar a estigmatização dos filhos dos pobres”, acrescenta.

Para mostrar a diferença entre os quatro tipos de capital na vida real, Monique cita o exemplo do próprio marido, Michel Pinçon. “Ele é filho de operários bastante pobres e terminou sua carreira como diretor de pesquisas do prestigioso Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS, na sigla em francês) como eu. Mas isso foi na época do Estado de bem-estar social e havia uma possibilidade de ascensão social. Mas, apesar disso tudo, Michel sempre teve uma dificuldade em relação ao capital social. Sou sobretudo eu, que sou de origem da burguesia provinciana, que gerencio o nosso capital social”.

O casal se especializou no estudo da classe dominante francesa e fez também documentários e histórias em quadrinhos para democratizar este conhecimento sobre a oligarquia.

“Violência dos ricos”

“Para mim, o sucesso deste jogo se deve a uma conjuntura social, econômica e política extremamente favorável: com o nível de violência de Emmanuel Macron e Édouard Philippe na França, uma violência de ricos, econômica, cultural, social e simbólica. Num momento em que Macron insiste num reforma da Previdência extremamente reacionária que vai levar os trabalhadores a uma regressão social”, diz a socióloga.

“Eu acho que é um jogo necessário para o Brasil também.  A gente não pensou nisso quando o criou, mas ele pode ser adaptado a diferentes realidades. Todos os países hoje são regidos pelo FMI e pelo Banco Mundial, por um sistema capitalista de tipo neoliberal, onde a finança tem todo o poder”, afirma.

Monique revela que já tem pedidos de direitos de adaptação na Espanha, na Itália, na Alemanha e na Sérvia. “Os textos têm que ser adaptados às conjunturas nacionais específicas”.

Revolução social

No jogo dos Pinçon, é possível que um dominado ganhe “desde que ele se entenda bem com os outros dominados e caia nas boas casas”. “Por exemplo, se um dominado cai na casa ‘Rebelião’, ele pode exigir que o dominante dê 30 bilhetes a cada dominado. E na casa ‘Revolução’, a gente redistribui todos os bilhetes igualmente”, diverte-se.

Por fim, a repórter propôs uma simulação em que o franco-líbano-brasileiro Carlos Ghosn, ex-CEO na Renault-Nissan, seria o jogador dominante. Perderia ele muito capital com a sua prisão? “Ele perde capital financeiro, porque tem de pagar seus advogados, e um pouco de capital simbólico, mas não muito, porque depois a gente sabe que ele vai saber se reconstruir, como Balkany, Sarkozy e todos os corruptos da Terra e da França”, fala.

“O poder de tiro de Ghosn é incrível, ele é o oligarca cosmopolita internacional. Ghosn representa o capitalismo mundial neoliberal em pessoa, ele é perfeito”, se entusiasma com o exemplo de “dominante” desta jogada imaginária.

“A gente sabe que ele vai dar a volta por cima, porque ele é dominante. Ghosn pega o seu jato particular e vai direito à linha de chegada”, brinca.

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