John Bolton, ídolo dos Bolsonaros: falcão na Venezuela, galinha no Vietnã. Por Miguel Enriquez

Bolton com Trump

Do alto do seu espesso bigode branco, aos 70 anos de idade, John Robert Bolton, Conselheiro de Segurança Nacional do presidente Donald Trump, notabilizou-se como o mais longevo e empedernido falcão guerreiro do governo americano.

Saudoso dos bons tempos da Guerra Fria, Bolton despreza a diplomacia –  coisa de fracotes, em sua opinião – em favor do poder de persuasão das armas. “Ele advoga a força no lugar da negociação, geralmente com resultados desastrosos”, afirmou Steve Feldstein, professor de política externa e relações internacionais da Boise State University, do Estado americano de Idaho.

Não por acaso, Bolton, que ocupava a subsecretaria de controle de armas e assuntos de segurança internacional do Departamento de Estado, foi um dos mais fervorosos defensores da invasão do Iraque, em 2003. Foi acusado de ter patrocinado a produção de relatórios falsos sobre a existência de um arsenal de armas de destruição em massa em poder do presidente Saddam Hussein, o que acabou se mostrando inverídico.

A visão de Feldstein foi reforçada pelo colunista Fareed Zakari, do jornal Washington Post: “Bolton acredita que, para se proteger e projetar seu poder, os Estados Unidos devem ser agressivos, unilaterais e militantes.”

Segundo ele, Bolton parece compartilhar a visão de mundo de Dick Cheney, o belicoso vice-presidente de George W. Bush, “de usar quaisquer meios a disposição, basicamente para alcançar nossos objetivos”.

A gama de inimigos dos interesses americanos, reais ou imaginários, é vasta para Bolton. Vai de potências como a Rússia e a China, passando por países como Irã, Coréia do Norte, Líbia, Síria, Cuba, Nicarágua e Venezuela, considerados ameaças mortais aos interesses e sobrevivência dos Estados Unidos, da mesma forma que o foi o Iraque no começo deste século.

Inclusive, Bolton chegou a rotular Cuba, Venezuela e Nicarágua como um “triângulo do terror”, plantado na América Latina. “Esperamos ver cada canto do triângulo cair”, afirmou há pouco tempo.

Não por acaso, o assistente de segurança nacional americano tornou-se um dos interlocutores favoritos na administração Trump do presidente Jair Bolsonaro e de seu ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, engajados na cruzada pela derrubada de Nicolás Maduro do governo venezuelano e no apoio ao aventureiro Juan Guaidó.

Essa relação começou no fim de novembro do ano passado, um mês após o segundo turno da eleição presidencial no Brasil, quando Bolton foi recebido por Bolsonaro em sua residência na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, para um café da manhã, em meio a uma mesa mal posta, repleta de farelos de pão e garrafas pet de refrigerantes.

Um pouco antes, Bolton elogiara Bolsonaro e seu colega colombiano Ivan Marques, chamando-os de parceiros que “pensam igual” e definiu a vitória eleitoral do brasileiro como um sinal positivo para a América Latina.

A má notícia para os aliados brasileiros de Bolton é que o fervor guerreiro do brother americano não encontra respaldo em sua biografia. Falcão quando se trata de jogar com a vida dos outros, Bolton, na verdade mostrou-se uma galinha medrosa quando a sua própria segurança esteve em risco.

Cursando desde 1966 a Universidade de Yale, era um dos raros de seus contemporâneos a apoiar o envolvimento dos Estados Unidos no Vietnã.  No entanto, ao contrário de dezenas de seus colegas, fez de tudo para safar-se de uma convocação para combater. Primeiro, alistou-se na Guarda Nacional de Maryland, seu Estado natal, por quatro anos.

Depois disso, ingressou na força de Reserva dos Estados Unidos, onde permaneceu por mais dois anos, até completar o tempo legal de alistamento.

Meio século depois, Bolton candidamente explicou a razão de sua bem sucedida estratégia para fugir do serviço militar, feito também alcançado por Trump. Como se sabe, o atual presidente conseguiu quatro isenções por estar estudando economia na Wharton School e uma quinta alegando problema médico, um esporão no calcanhar, do qual se recuperou tão logo seu prazo de convocação expirou.

Muitos anos depois, Bolton tentou explicar sua recusa em servir no Vietnã. “Confesso que eu não desejava morrer num arrozal do Sudeste Asiático”, afirmou. “Eu considerava que a guerra no Vietnã estava perdida, por causa dos liberais que impediram os Estados Unidos de fazerem tudo o necessário para vencer”.

Provavelmente, tampouco desejavam morrer os 58 mil soldados americanos que perderam a vida no Vietnã e não conseguiram seguir o exemplo de Bolton e Trump.

O pior foi a tentativa de politizar sua recusa em combater. “Morrer pelo seu país é uma coisa, mas morrer para conquistar um território que as forças antiguerra no Congresso podem simplesmente devolver para o inimigo, me pareceu ridículo”, justificou.

Dono de uma personalidade centralizadora e conflitiva, Bolton não costuma deixar saudades pelos lugares por onde passou. Um deles foi no posto de embaixador dos Estados Unidos da ONU, no qual permaneceu por pouco mais de um ano, entre 2005 e 2006, depois de se indispor com representantes de países aliados, graças a suas práticas de rolo compressor.

Ali manifestou mais de uma vez sua convicção de que diplomacia é perda de tempo. “A diplomacia é uma tática dos países fracos para amarrar as mãos dos mais fortes”, definiu.

O corolário dessa concepção foi considerar a própria ONU como uma instituição sem serventia. “Se tirarem 10 dos 38 andares da sede da ONU, ninguém vai sentir falta”, afirmou.

Diante disso, nada mais natural que, em vez de adotar o caminho da negociação, Bolton jogue suas fichas na pressão e ameaças de intervenção militar, de curta ou mesmo longa duração. É o que advoga não apenas em relação à Venezuela, como ao Irã e à Coreia do Norte.

A perspectiva de que no caso coreano, uma retaliação militar à negativa do governo de Kim Jong-un de desarmar seu arsenal nuclear provoque centenas de milhares de mortes, parece não preocupar Bolton. “Eu acredito que para Bolton esse é o preço de se fazer negócios”, diz o professor Feldstein, da Boise University.

Aparentemente, pelo menos por enquanto, as vozes mais sensatas do governo americano têm prevalecido sobre os instintos guerreiros do falcão com a vida dos outros, levando Trump a investir na negociação com o coreano.

Na verdade, Bolton não foi a primeira opção de Trump para a importante posição de Conselheiro de Segurança Nacional, cargo que dá direito a uma sala próxima ao Salão Oval, na Casa Branca. Antes dele, ocuparam o posto dois generais, Michael Flynn e H.R. MacMaster.

De acordo com o jornalista Dexter Filkins, autor de um alentado perfil de Bolton, publicado na edição de 6 de junho da revista New Yorker, Trump, além de implicar com o bigode de Bolton, estaria preocupado com sua mania “de querer sair soltando bombas em todo lugar”.

Foi apenas depois de entrar em atrito com MacMaster que o presidente se rendeu à indicação de Bolton, em abril de 2018.

Mas não se deve subestimar Bolton, um sujeito tenaz, obsessivo e implacável, capaz de apelar até à utilização de métodos mafiosos quando se trata de atingir seus objetivos.

Um exemplo disso, é o conflito relatado por Filkins, entre Bolton e o embaixador brasileiro José Maurício Bustani, que dirigia a Organização para a Destruição de Armas Químicas (Opac), no início dos anos 2000. À frente da entidade, que reunia 192 países, Bustani estava negociando com o governo do Iraque sua adesão à Opac, o que permitiria a inspeção para verificar se o presidente Saddam Hussein havia abandonado seu programa de produção de armas químicas.

Com isso, acreditava Bustani, a projetada invasão do Iraque pelo governo de George W. Bush, que tinha na teoria da existência de um arsenal de armas química seu principal pretexto, poderia ser evitada. No entanto, os Estados Unidos exigiram que as conversações com os iraquianos fossem interrompidas.

Mais: para surpresa de Bustani, certo dia Bolton irrompeu em seu escritório em Haia, na Holanda, exigindo sua renúncia à direção da Opac. Diante da recusa do embaixador brasileiro, Bolson, ao melhor estilo de um gangster do Brooklin, lhe disse: “Nós sabemos que você tem dois filhos em Nova York. Sabemos que sua filha está em Londres. Sabemos onde está sua mulher”.

Como Bustani se mantivesse firme diante das ameaças e se recusasse a deixar a diretoria geral, os Estados Unidos convocaram uma assembleia extraordinária da Opac para defenestrá-lo, pagando as despesas de viagem de muitos delegados. Por 48 votos contra sete e quarenta e três abstenções, Bustani foi afastado.

Naquele mesmo ano, 2002, Bustani foi indicado para o prêmio Nobel da Paz, por seu trabalho contra a proliferação de armas químicas. Ao invadir o Iraque, as tropas americanas não encontraram nenhuma evidência da existência do tal arsenal.

De acordo com Filkins, embora a maioria dos políticos e comentaristas desacreditassem e condenassem a invasão- até mesmo Trump a considera “um grande erro”, Bolton não mudou seu ponto de vista. “Eu ainda penso que a decisão de derrubar Saddam estava correta”, afirmou em 2015.

Dezessete anos depois, o espectro de Bolton continua afetando a vida de Bustani, que à época se considerou traído pelo governo brasileiro de então. Fernando Henrique Cardoso e seu ministro das Relações Exteriores Celso Lafer, o diplomata que tirava os sapatos nos aeroportos americanos depois do 11 de setembro, não esboçaram nenhuma reação à truculência dos Estados Unidos.

Escolhido em fevereiro deste ano para paraninfo da turma de diplomatas formados pelo Instituto Rio Branco, em reconhecimento ao seu trabalho na Opaq, o embaixador teve se nome vetado pelo chanceler Araújo, que não queria queimar o filme com Bolton.

Por sinal, um ano antes, Bustani não mediu as palavras ao comentar a indicação de Bolton para o posto atual. “Estou chocado. Chocado que Bolton ainda tem, terá influência num governo, penso que é terrível. Ele é brutal na forma como faz as coisas”, afirmou ao site Viomundo.

A boa notícia é que, embora possa muito, Bolton não pode tudo. Sua estratégia agressiva em relação à Venezuela já começa a incomodar Trump a quem foi vendida a ideia de que seria fácil derrubar Maduro e substitui-lo por Guaidó.

Segundo o Washington Post, o presidente chegou mesmo a reclamar que seu Conselheiro de Segurança Nacional, que subestimou a capacidade de resistência do presidente venezuelano, quer colocá-lo “em uma guerra”.

Na verdade, diz o jornal, Trump, que já chegou a simpatizar com a possibilidade de uma intervenção militar na Venezuela, aparentemente recuou. Um dos motivos é o temor de criar um conflito com a Rússia, que apoia o governo chavista.

Outro é que a intervenção prejudicaria a narrativa de Trump para a eleição de 2020, como observa o ex-embaixador John Feeley, citado pelo Washington Post.

“No momento em que o país está retirando tropas de Síria, Iraque e Afeganistão, como justificar o envio de soldados para um lugar onde ninguém sabe quem é mocinho e quem é bandido?”, questionou Feeley.

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