Jornal Nacional afrouxa. Faltou contraditório. Por Denise Assis

Atualizado em 23 de agosto de 2022 às 8:10
Jair Bolsonaro (PL) em participação do JN nesta segunda-feira (22/08)
Foto: Tv Globo/Reprodução

Por Denise Assis

No início, a dupla de apresentadores do Jornal Nacional parecia ter feito o seu dever de casa. Deram a entender ter observado os pontos fracos do candidato que entrevistariam, a fim de ver como ele se desvencilharia ou argumentaria sobre as questões – e não as “questões”, como irritantemente Bolsonaro insiste. Bastaram duas alterações de voz e uma esticada de pescoço por cima da mesa, para que Renata Vasconcellos se colocasse em posição de defesa e William Bonner de subserviência, a ponto de usar a expressão: “o senhor tem todo o direito de…” Sem continuar por alternativas do tipo: “o senhor tem todo o direito de discordar, mas nós insistimos em dizer, conforme nossas apurações, que o senhor…”

Não por acaso, dois gatos pingados na vizinhança, no final, foram para as suas janelas aos gritos de “Mito” e “é Bolsonaro”. Não foi criado a ele nenhum embaraço. O candidato (que começou dizendo ter Bonner cometido fake news, sem que lhe fosse exigida uma retratação) falou o que quis e, sim, seguiu mentindo. Por exemplo, quando afirmou ter dado imediatamente o auxílio emergencial na pandemia. Nós e o papagaio da vizinha sabemos que esse auxílio foi adiado, negociado, regateado, até que o Congresso e o STF entrassem para decidir que, sim, era uma emergência, pois quem não morresse de Covi-19, morreria de fome.

Ao ceder (sim, esse é o verbo!). Bolsonaro teve de ceder e propôs um auxílio de reles R$ 200,00. Foi a oposição que convenceu os deputados a votarem um auxílio de R$ 600,00. Não houve por parte da bancada do JN – nem Bonner nem Renata – quem o redarguisse e relembrasse esta situação. O caso a gente conta como o caso foi. E foi assim que foi. Sem tirar nem por.

Ele voltou com a sua falácia sobre o “fique em casa”, e ficou por isso mesmo, com Bonnner dizendo cordatamente: “vamos mudar de assunto”. Não!!! O assunto é esse. O uso desprezível de uma desculpa esfarrapada de que ele não agiu porque o Supremo transferiu a autoridade e as decisões para os governadores e prefeitos. Mentira. Era dever de Bolsonaro criar e coordenar uma força tarefa que centralizasse no governo federal as iniciativas de combate à pandemia. E ele só não o fez de pirraça, sentindo-se bay passado. Ou todo poder para ele, ou nenhum. Cruzou os braços. Foi o que fez.

Rolou fácil daí por diante a entrevista, para o candidato, que se sentiu à vontade para defender uma equipe mequetrefe e corrupta de ministros, sem que os apresentadores reagissem. Renata ainda tentou, na questão dos tratores empregados no desmatamento, mas vendo que não teria o respaldo do editor, trocou de tema, mais uma vez, permitindo que Bolsonaro elogiasse Ricardo Salles, acusado de contrabando de madeiras nobres e de se beneficiar do afrouxamento na fiscalização das queimadas.

Frustrante. Foi o que foi a entrevista, dando chance de Bolsonaro mentir sobre a compra de vacinas, mentir sobre a sua equipe, mentir sobre desmatamento, faturar a redução do preço dos combustíveis e, no final, deitar falação favorável às suas medidas, sem nem sequer ser questionado sobre a alteração da Constituição, para burlar a lei eleitoral que proíbe a compra de votos. E é disso que se trata. Bolsonaro ganhou R$ 41 bilhões para comprar a sua reeleição, sem que o respeitável público nem sequer tivesse, hoje, uma chance de vê-lo desmascarado por aqueles que o ajudaram a se eleger em 2018 e, novamente, abriram chance para que a crônica política que lhe é favorável, o poupem amanhã.

Não que mereça, mas é que faltou o contraditório. Pobre do país que não tem voz.

Às ruas em defesa da democracia, porque no que depender da mídia tímida, subserviente e titubeante, corre-se o risco de repetirmos 2018 e não haverá, depois de quatro anos, país nenhum.

Participe de nosso grupo no WhatsApp clicando neste link

Entre em nosso canal no Telegram, clique neste link

Diario do Centro do Mundo
O Diário do Centro do Mundo (DCM) é um portal brasileiro de jornalismo digital fundado em 2014. O site publica notícias e análises sobre política, economia, cultura, mídia, comportamente -- tudo o que é relevante, no Brasil e no exterior