“Jornalismo só tem importância quando combate os poderosos”, disse Greenwald ao DCM em 2016. Por Kiko Nogueira

Greenwald
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Esta matéria foi ao ar em setembro de 2016 e está sendo republicada à luz das revelações do Intercept dos diálogos entre Moro e Dallagnol

O jornalista americano Glenn Greenwald mora no Rio de Janeiro há 11 anos com seu companheiro David Miranda. Em 2013, ele ficou conhecido mundialmente pelo furo do esquema de espionagem da NSA revelado por sua fonte, Edward Snowden.

O Fantástico fez uma série sobre o caso. Greenwald teve reuniões com o dono da empresa, João Roberto Marinho. Pouco tempo depois, viraria inimigo mortal da Globo.

Ganhador do Pulitzer em 2014, Greenwald tornou-se referência para a imprensa internacional interessada no momento conturbado do Brasil. Ajudou a consolidar a chamada narrativa do golpe no exterior, dando à mídia o peso que ela teve como propagandista da solução Temer.

Em abril, Marinho deixou um comentário exaltado num artigo de Miranda no Guardian chamado “A verdadeira razão dos inimigos de Dilma Rousseff quererem cassá-la”. “Eu não acreditei quando vi que era ele”, fala Greenwald.

“No processo de impeachment, a percepção da mídia brasileira mudou. Muitos já sabiam que ela é controlada por famílias muito ricas, mas as pessoas perceberam pela primeira vez como isso pode ser um problema extremo”, disse ele, com seu sotaque invencível, ao programa do DCM na TVT.

Para Greenwald, o cenário lembra o da imprensa americana durante a guerra do Iraque, em 2002 e 2003. “A mídia ficou unida e publicou informações falsas. Criaram uma crise de confiança. Por isso surgiram jornalistas independentes. As pessoas estavam procurando uma alternativa”, afirma.

“Se você fala com jornalistas de Globo, Folha, Estadão, eles falam que são independentes, que ninguém manda neles. A verdade é que isso não é necessário. Em empresas grandes e com perspectivas de carreira, os funcionários entendem a cultura e sabem o que querem deles para subir na vida. Ninguém precisa falar: ‘olha, você precisa ter esta opinião’”, diz.

“As empresas jornalísticas grandes não querem lutar com poderosos pois isso pode afetar os negócios. Quando você é independente, está livre. Isso, para mim, é a alma do jornalismo. Dentro das corporações, é impossível”.

Sua experiência na parceria com o Fantástico rendeu um trailer dos ataques que sofreria depois. “Só a extrema direita me atacou naquela ocasião. Eu estava mostrando como este país é vulnerável e como os EUA invadiram o sistema de comunicação”, conta. “Pessoas de esquerda me criticavam por usar a Globo. Hoje eu vejo que essas críticas eram corretas”.

O processo do impeachment foi definitivo para ele. “Eu vi a democracia ser atacada e os jornalistas apoiarem os mais poderosos. Ia perder amigos e ser atacado pelas instituições que estavam me apoiando antes, mas não havia outra opção”.

De acordo com Greenwald, as “facções” que ganharam mais poder são um fator desestabilizador. “O jornalismo só tem importância quando luta contra os mais poderosos”, declara.

A internet vem mudando o jogo. “Você pode ter audiência rapidamente e sem muito dinheiro. Nos EUA existem muitos blogs com mais leitores que o New York Times. O Brasil ainda está um pouco atrás, mas vai pelo mesmo caminho. As pessoas estão com raiva e frustração e isso vai ser uma oportunidade para quem quiser criar alternativas”, aponta.

O Intercept teve o investimento de 250 milhões de dólares de Pierre Omidyar, fundador do Ebay. Americano de origem iraniana, Omidyar gosta de falar que usa sua fortuna para “fazer o bem”.

Greenwald enxerga que possa surgir um Omidyar aqui?

“A esquerda não ama o dinheiro tanto quando a direita. Há um pouco de desconfiança. Mas precisa ter orçamento, precisa ter recursos. Tivemos sorte de esse bilionário acreditar na nossa ideia de jornalismo independente. A esquerda precisa construir um sistema com dinheiro para competir mas, ao mesmo tempo, mantendo a integridade”, pondera.

A participação dos Estados Unidos no golpe, segundo ele, é algo que poderá ser verificado com certeza no futuro. “Em 64, eles esconderam as evidências até aparecerem os documentos. Como jornalista, não posso especular sobre isso. Perguntei a Lula e Dilma e eles disseram que não [houve interferência americana]. Dilma acha que foi algo interno. Mas posso garantir que o governo Temer está fazendo o que Wall Street ama — privatizando, vendendo bens públicos e cortando programas sociais sem aumentar o imposto dos ricos”, diz.

A Justiça brasileira passou a causar-lhe espanto pelos motivos errados. “No começo, fiquei impressionado com a atuação de Moro. Nos Estados Unidos, depois da crise de 2008, ninguém foi preso. Aqui, políticos e magnatas foram para a prisão”, afirma.

“Mas minha opinião mudou realmente quando ele mandou prender Lula sem razão e depois quando divulgou as conversas dele com Dilma e também dos advogados. Aquilo me deixou muito ofendido”, lembra.

“Um juiz com poder incrível não pode fazer política. Diziam que o Judiciário era independente… O juiz não pode ser visto como um deus. Quando vemos Gilmar Mendes e Moro se comportando como atores políticos, algo está errado”, acredita.

“A ideia do poder Judiciário é que ele seja totalmente separado do processo político. A juíza americana Ruth Bader Ginsburg teve que pedir desculpas por criticar Trump [Ruth chamou Trump de “enganador”]. Aqui no Brasil tem juízes que querem mostrar que estão invadindo o processo politico. Nunca vi isso em lugar nenhum”.

Quando chegou ao Rio, em 2003, ele esperava que fosse parar numa República de Bananas? “Eu me apaixonei por uma democracia que ajudou a vida de pessoas que não tinham nada. Em muito pouco tempo, a vida delas melhorou, as crianças tinham esperança, um otimismo com o futuro. Era o oposto do que acontecia nos EUA, quando tudo estava quebrado. Agora a democracia está sendo atacada por homens brancos e ricos que não ganharam nas urnas.”

Abaixo, trechos da entrevista de Glenn Greenwald ao DCM na TVT:

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