Jornalista espanhol que cobre o caso Aerococa descarta tese de “complô” e diz que imagem de Bolsonaro fica “marcada”

Foto dos 39 quilos de cocaína apreendidos em voo da FAB (Imagem: Reprodução)

A situação é curiosa, pra não dizer trágica. Ligo para a redação do Diário de Sevilha e peço para falar com o jornalista que cobre o último fato do caso Bolsonaro na cidade. A atendente pergunta: “o da cocaína?” Em seguida, converso com Fernando Pérez Ávila, jornalista responsável pela cobertura do caso.

Em quinze anos cobrindo o mundo policial andaluz, inclusive com flagrante de militares com droga, os 39 quilos de cocaína na comitiva de Jair Bolsonaro surpreenderam o jornalista. A “rota quente”, explica, geralmente vem pelos aviões comerciais. “Nunca nos havia chegado a notícia de que ela (droga) veio em um avião militar e muito menos em um avião que formava parte da comitiva do presidente da República”.

Um ineditismo negativo que, na visão de Ávila, “mancha a imagem do presidente”. Nesta entrevista para o DCM, ele conta as dificuldades de cobertura do caso, fala do “excesso de zelo” da Guarda Civil espanhola, que fiscalizou o militar antes mesmo de ele sair do aeroporto, em vez de segui-lo para descobrir os destinatários da droga.

Comenta a mudança de rota de Bolsonaro para Lisboa e revela que foi a rapidez da informação do presidente no Twitter que lhes confirmou a veracidade da história. Suas respostas sobre o fato de a droga ter sido encontrada na comitiva do presidente e sua mudança de rota deixam com uma pulga atrás da orelha sobre o caso.

DCM: Em sua carreira como jornalista, como reagiu ao caso “Aerococa”?

Fernando Pérez Ávila: Foi uma grande surpresa. Já havíamos publicado nos últimos dez anos várias matérias dizendo que existia uma rota “quente” do tráfico de cocaína do Brasil à Espanha, e especificamente com destino a Sevilha. Mas é claro que sempre vinham em voos regulares, voos civis. Nunca nos havia chegado a notícia de que ela (droga) veio em um avião militar e muito menos em um avião que formava parte da comitiva do presidente da República. Foi uma surpresa.

E é verdade o que disse o presidente brasileiro, de que isso acontece em muitos países?

Sim, aqui na Espanha houve um precedente, num barco da Escola das Forças Armadas, também houve militares que foram pegos com cocaína. Não é a primeira vez que acontece, mas não deixa de surpreender.

Mas é a primeira vez que acontece com um avião presidencial?

Na Espanha, ao menos, sim.

Como foi o processo de cobertura desse caso específico? Imagino que não é um caso “normal”.

Sim. Foi um caso que soubemos primeiro pelas redes sociais e pelos meios brasileiros do que com as nossas fontes aqui na Espanha. Vimos no Twitter uma referência à notícia e, pouco depois, o próprio presidente da República escreveu um tweet confirmando a notícia, quando nós ainda não tínhamos a informação oficial da Guarda Civil (polícia espanhola). Digamos que ele se adiantou em confirmar essa notícia. E acabou com as especulações de que a descoberta da droga tivesse sido no seu voo, do presidente.

E o que vocês descobriram, como está o processo da cobertura?

No momento que a Guarda Civil confirmou a notícia, por seus porta-vozes oficiais, passamos a averiguar mais informações, descobrimos a quantidade de droga, quem era o detido, o sargento Manoel Silva Rodrigues. Fomos até o local tentar fotografá-lo, mas não foi possível porque ele saiu num furgão, então não pudemos ter imagens desse momento. E também o valor que poderia ter a droga no mercado da Espanha, que calculamos em torno de 3 milhões de euros.

Esse é o valor que ele possivelmente receberia?

Sim, depende da pureza da cocaína, mas o quilo na Espanha está entre 30 e 35 mil euros. Então, fazendo o cálculo, o valor está em mais ou menos 3 milhões de euros.

Nesse caso específico, vocês estão tendo dificuldades de acesso às informações em relação aos casos que cobrem cotidianamente?

Sim, claro. Nesse caso, a Guarda Civil não quis fornecer imagens da mala com a droga. Ela foi divulgada num jornal espanhol, o El País, mas é uma fotografia vazada, a foto não veio pela via oficial. Não nos convocaram para que nós pudéssemos fazer nossas próprias fotos. Isso acontece talvez para não criar um problema diplomático entre os dois países.

O caso está sob segredo de justiça. Não sabemos o que o sargento Manoel Silva declarou. Sabemos que ele depôs, com um intérprete português, mas não sabemos ainda o conteúdo da declaração.

O segundo-sargento da Aeronáutica Manoel Silva Rodrigues

E os casos que vocês cobrem no cotidiano, vocês sabem se tem acesso normal?

Normalmente sim. Depende de cada caso também. O normal é que a polícia informe, faça comunicados de imprensa, ou que o próprio advogado possa informar coisas desse tipo. Não temos tantas travas, digamos. E é habitual que possamos fotografar o detido. Nesse caso, não foi possível.

Como você vê o fato em si o fato de 39 kg de cocaína terem sido encontrados num avião da comitiva de Jair Bolsonaro?

Eu gostaria de pensar que se trata de um militar corrupto, que fazia parte de alguma organização internacional dedicada ao tráfico de cocaína. E era uma simples “mula”. Penso que é assim. Do contrário, teria havido uma investigação, teriam deixado ele sair do aeroporto, teriam-no seguido para ver o destino da droga, teria havido escutas telefônicas.

Teria havido alguma investigação que, nesse caso, não houve. Cremos que simplesmente foi um excesso de zelo da Guarda Civil, de vigilância da Guarda Civil, que viu que o militar queria sair do aeroporto carregando a mala, obrigando-o a passar pela fiscalização. Pela foto que vi, o sargento não guardava (a droga) com nenhuma medida de precaução. Ela ocupava toda a mala. Não tinha nenhum elemento para ocultar.

Estamos acostumados a que a droga venha em máquinas, carregamentos de frutas, em muitos tipos de lugares para escondê-la. Nesse caso, encontrou-se a droga simplesmente abrindo a mala. Ele estava seguro de que não ia passar pela fiscalização da Guarda Civil. Eu gostaria de pensar que é o único implicado, que não há nenhum esquema na comitiva do presidente do Brasil.

Considerando sua experiência nesse tipo de cobertura, acredita que o militar fez tudo sozinho ou que faz parte de uma organização criminosa?

Claro, é uma mula, uma pessoa que leva droga de um lugar para outro e aproveita sua condição de militar, levantando menos suspeita. Creio que ele faz parte de uma organização internacional que trafica droga. Possivelmente a droga vem da Colômbia, chega ao Brasil e vai para a Europa, onde tem alguém esperando aqui em Sevilha, ou na Espanha, pelo menos.

O presidente brasileiro disse que o episódio é uma coincidência, o que muitos interpretaram como uma tentativa de dizer que foi um complô contra ele. Como você vê esse tipo de declaração?

Desconheço um pouco a atualidade política brasileira para poder opinar sobre o assunto. Se é um complô contra ele? Acho estranho porque haveria outras maneiras. Não creio que seja a forma mais “adequada” de fazer um complô contra ele. Não sei. Acho um pouco distorcido pensar que era um complô contra o presidente.

O presidente também disse que o militar pagará “muito caro”. Parece-lhe apropriado dizer esse tipo de coisa?

Levando em conta que o delito foi cometido na Espanha, deve ser julgado aqui em Sevilha e condenado pela lei espanhola. Não sei quantos anos ele vai pegar. Mas aqui em Sevilha, por exemplo, o responsável pela maior quantidade de cocaína apreendida, quase 900 quilos de cocaína, foi condenado a seis anos de prisão. Não é tanto. Não é “pagar caro”. Não sei a que (Bolsonaro) se refere.

Será expulso do Exército brasileiro? O que mais pode fazer a justiça do Brasil? Mas a justiça espanhola pode condená-lo entre seis, oito e talvez dez anos de prisão. Na Espanha, poderia ser colocado em uma prisão para militar e funcionário público, mas na Espanha ele não é funcionário público. Ele o é no Brasil. Creio que tampouco vai pagar tão caro.

Será preso e ficará provavelmente na Espanha?

Sim. A pena, deverá cumprir na Espanha. Aqui foi feito o flagrante da droga.

Você acredita na colaboração das autoridades brasileiras com as autoridades espanholas?

Penso que sim. Sempre funcionou essa colaboração. Quando foram parte dessa “rota quente”, também houve detidos na origem, no Brasil. Quando o delito se comete aqui, os detidos cumprem prisão aqui. A colaboração pode ser um intercâmbio de informação para ver se ampliam a investigação.

Como você vê a mudança de rota de Bolsonaro de Sevilha para Lisboa? Seria uma tentativa de escapar de alguma fiscalização?

Não acredito. Creio que é mais uma questão de imagem, para que não estivesse aqui quando o caso transcendeu, porque seria fotografado no mesmo aeroporto em que foi produzido o delito, onde se encontrou a cocaína. Creio que é mais isso do que uma questão de fiscalização. Por uma questão diplomática, acredito que ninguém fiscalizaria o presidente do Brasil.

Qual é o impacto internacional à imagem de Jair Bolsonaro?

Creio que é uma grande mancha do presidente porque formava parte de sua comitiva. Lemos que o sargento havia feito com o presidente 29 viagens oficiais. Isso não deixa de ser uma mancha à imagem do presidente.

Um outro militar foi preso com 33 quilos de droga.

Nas Canárias, não?

Sim. Esse fenômeno lhe parece uma exceção como disse o ministro da Justiça ou lhe parece um fenômeno mais “instalado”?

Olha, os dois fatos aconteceram num intervalo de tempo muito curto. Por dois episódios, não se pode dizer que há um esquema do Exército brasileiro de cocaína para a Espanha. São dois fatos que aconteceram com pouca diferença de tempo e talvez deveria ser aberta uma investigação interna entre os militares brasileiros sobre esse envio massivo de cocaína em suas viagens.

O jornalista Fernando Pérez Ávila

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