José Mayer, o homem autorizado. Por Nathalí Macedo

José Mayer
José Mayer

 

Outro artista denunciado por assédio sexual e outros holofotes vertiginosos, abafados em dois ou três dias por colunas apagadas porque, graças a deus, jornais digitais são facilmente editáveis (mas não a boa memória da digníssima internet, lamento).

O clichê não poderia combinar mais com o Brasil do Ministro da Cultura que se parece com Lorde Voldemort: o denunciado da vez foi José Mayer, aquele galã que sempre come alguém nas novelas globais (e eventualmente, parece, come todas as personagens femininas numa mesma novela).

Eu citaria uma novela global em que José Mayer não come ninguém, mas, mesmo não sendo a maior entendedora de novelas globais, desconfio ser impossível.

Ele é, enfim, um dos galãs eleitos pela mais poderosa emissora de televisão do país. Ele é o homem que está autorizado. O homem que pode perguntar a uma colega de trabalho “quando você vai me dar”, porque, teoricamente, ela não é uma colega de trabalho, tampouco outro ser humano, é um objeto que deveria estar disponível pra lhe dar prazer.

É autorizado a, em vez de cumprimenta-la, chegar enfiando a mão na boceta dela – como se fosse de domínio público, porque para os homens que se sentem autorizados, de fato o é.

A colega de trabalho em questão é a figurinista Susllem Meneguzzi Tonani, 28, que denunciou o assédio numa coluna no Blog #AgoraÉQueSãoElas, do jornal Folha de S.Paulo. O post foi apagado poucas horas depois.

José Mayer não disse comentou o assunto. Adivinhem: ele está autorizado a não dizer nada, a esperar que o assunto seja simplesmente esquecido – e será.

Autorizado pela sociedade que o perdoa, pela cultura do estupro que o endossa, pela Folha de S.Paulo que apagou o post-denúncia, tão autorizado quanto Marco Feliciano, Bruno, Bertollucci, Cris Brown.

A Globo emitiu uma nota tirando descaradamente o corpo fora:

“A Globo repudia toda e qualquer forma de desrespeito, violência ou preconceito. (…) esse assunto foi apurado e as medidas necessárias estão sendo tomadas. A Globo não comenta assuntos internos” (a Globo está autorizada a ‘não comentar assuntos internos’).

Já que, aparentemente, ninguém se importa com o que uma possível – provável- vítima de assédio de um galã global tem a dizer, como se o fato pudesse simplesmente ser ignorado, homens brancos, ricos e supostamente poderosos continuarão a garantir seus lugares de poder.

(Relaxa, Luciano Huck).

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