Jovem, mãe, cheia de vida: Quem era a técnica de enfermagem que morreu em Pernambuco por falta de UTI. Por Joaquim de Carvalho

Atualizado em 19 de abril de 2020 às 9:27
Williane em 3 momentos: ao comemorar o aniversário, na frente do espelho e no hospital, sem ar, implorando por vaga em UTI

Enquanto Bolsonaro em Brasília aplaudia a carreata pelo fim da quarentena, a família e amigos choravam em Pernambuco a morte da técnica de enfermagem Williane Maily.

Ela trabalhava na Clínica do Rim de Vitória de Santo Antão, onde nove profissionais de saúde estão afastados com suspeita de contaminação pelo coronavírus.

Há cerca de duas semanas, Williane teve sintomas de gripe, que evoluiu para dor de garganta. No pronto-socorro ela recebeu diagnóstico de laringite e o médico prescreveu um antibiótico.

Não teve efeito e, na quinta-feira, já com falta de ar, voltou ao hospital, mas não conseguiu vaga na UTI.

A médica Suzana Melo, sua amiga e colega de trabalho, recebeu por WhatsApp um vídeo em que, com muita falta de ar, Williane pedia ajuda para conseguir ser internada.

Apesar do empenho de Suzana, a vaga veio tarde demais, em um hospital particular. Quando ela foi entubada, não resistiu e morreu de parada cardiorrespiratória.

“A família já estava assustada, ela também. Percebiam, por serem da área, que era a covid-19 e que ela deveria ser entubada imediatamente. Ela me mandou um vídeo às 8h30 da sexta-feira, num estado muito grave, quase sem conseguir respirar. Ela era uma mulher jovem, sem qualquer problema de saúde, nunca foi tabagista, era saudável, trabalhadora. Não sou Deus para dizer que ela iria sobreviver, mas possuía grandes chances. Trinta anos sem patologias. Uma UTI a salvaria”, disse a médica à repórter Roberta Soares, do Jornal do Commercio.

Williane, como mostra sua rede social, era uma jovem de bem com a vida. Em novembro do ano passado, ao completar 30 anos, comemorou. “Trintei”, disse. “Obrigado, Deus, por mais um ano de vida”.

Tinha orgulho da mãe, também profissional de saúde, fisioterapeuta.

“Que Deus continue te ajudando, pois ser mãe não é nada fácil. Te admiro muito. Continue sempre assim sendo essa mãe batalhadora, guerreira, e corre atrás dos seus objetivos te amamos muito”, escreveu.

Williane deixou uma filha de 6 anos de idade.

Ontem, a mãe estava tão revoltada que rejeitou todos os pedidos de entrevista. Quem falou pela família foi o padrasto, Abimael Francisco Pereira, também da área de saúde, técnico em enfermagem.

A entrevista foi publicada pelo Jornal do Commercio.

JC – Qual o sentimento da família?

ABIMAEL – De revolta. A mãe dela está sem condições de falar. Desde a manhã do dia 17 que estavam atrás de leito e pedindo que a entubassem. Mas só vieram entubá-la quando surgiu a vaga, já na noite em que faleceu. Quando a entubaram, ela teve uma parada cardíaca.

JC – Williane desconfiava que poderia estar com a covid-19?

ABIMAEL –  Em nenhum momento ela desconfiou. Achava que era uma gripe, uma infecção de garganta. Fez tratamento por duas semanas, mas não melhorava. Quando começou a sentir falta de ar pediu ajuda. Mas a ajuda demorou muito. Era para terem levado ela logo pela manhã para a UTI, assim que chegou ao hospital. Porque se tivessem entubado mais cedo talvez ela não tivesse morrido.

JC – Ela tinha medo, fazia queixas?

ABIMAEL – Ela amava demais o que fazia. Já trabalhou em vários hospitais. Era uma profissional prudente.

Quando Abimael falava com a jornalista, Bolsonaro gravava uma live em frente ao Palácio do Planalto, para atacar governadores, prefeitos e o Supremo Tribunal Federal.

Sua ex-mulher Rogéria, mãe de Flávio, Carlos e Eduardo Bolsonaro, se exibia, orgulhosa, em uma carreata no Rio de Janeiro, para desgastar o governador Wilson Witzel.

“Missão cumprida de apoio ao nosso Presidente da República Jair Bolsonaro na carreata hoje do Aterro do Flamengo até São Conrado. Brasil acima de tudo! Deus acima de todos!”.

Errado.

Candidata a vereadora no Rio, quer agradar a seita. A única missão moralmente defensável agora é lutar contra a pandemia.

Quem tumultua o país ainda mais com atos políticos joga a favor do vírus.

São canalhas.

Rogéria Bolsonaro, mãe de Carluxo, vai para carreata de olho na eleição de 2020. Foto: Reprodução/Twitter