
Em uma entrevista ao programa En Société, da rede France 5, a magistrada francesa Magali Lafourcade detalhou um episódio grave de ameaça por parte do governo Trump. O incidente ocorreu no contexto do julgamento de Marine Le Pen, líder da extrema-direita francesa, acusada de peculato e desvio de fundos do Parlamento Europeu.
De acordo com Lafourcade, que atua como secretária-geral da Comissão Nacional Consultiva dos Direitos do Homem (CNCDH), o encontro ocorreu em seu próprio gabinete, a pedido da Embaixada dos Estados Unidos em Paris, em 28 de maio. A magistrada relatou ter recebido dois enviados do governo americano que, inicialmente, buscavam uma conversa protocolar. No entanto, o tom mudou.
“Gostaria de contar o que aconteceu no meu gabinete. Conheci duas pessoas enviadas pela administração Trump, a pedido da Embaixada dos EUA em Paris. Mas, muito rapidamente, a conversa voltou-se para elementos que indicavam que este [o caso de Marine Le Pen] era um julgamento puramente político para impedi-la de concorrer à presidência”, afirmou a juíza.
Lafourcade traçou um paralelo alarmante com outros magistrados ao redor do mundo que enfrentaram pressões semelhantes. Ela mencionou especificamente o caso do ministro brasileiro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Segundo a juíza, apenas dois meses após o encontro em seu gabinete, o ministro brasileiro tornou-se alvo da Lei Magnitsky, após decisões judiciais que afetaram Jair Bolsonaro.
Lafourcade explicou que a estratégia de intimidação envolve a ameaça de inclusão de nomes de magistrados em listas de sanções internacionais, comparando o tratamento dado a juízes independentes ao de criminosos de alta periculosidade. “Sanções significam que seu nome é colocado em uma lista. Os piores traficantes de drogas do mundo estão lá”, pontuou.
Diante da gravidade do ocorrido, a magistrada informou que não permaneceu em silêncio. Ela confirmou ter formalizado um alerta junto ao Ministério das Relações Exteriores da França (Quai d’Orsay) sobre o conteúdo da conversa mantida com os americanos.
“A razão pela qual digo isto é porque fiz um alerta ao Ministério dos Negócios Estrangeiros sobre o conteúdo desta conversa. Pareceu-me que era meu dever fazê-lo”, declarou Lafourcade, reafirmando seu compromisso com a independência do Judiciário francês frente a interferências externas.
O caso de Marine Le Pen, que motivou a aproximação americana, refere-se à utilização de assistentes parlamentares pagos pela União Europeia para fins partidários na França. O desfecho do processo pode ter implicações diretas na elegibilidade de Le Pen para as próximas eleições presidenciais francesas.
Amazing moment on French TV. A French judge explains how Trump sent people from the US Embassy basically trying to intimidate her during Le Pen’s trial for embezzlement – something they’ve done to other judges around the world
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— Alex Taylor (@AlexTaylorNews) January 20, 2026