Justiça do Paraguai ordena prisão de Santiago Peña

Atualizado em 6 de novembro de 2026 às 19:53
Santiago Peña

O Ministério Público do Paraguai determinou a prisão do ex-presidente Santiago Peña Palacios, destituído do cargo em meio ao escândalo financeiro envolvendo o Ueno Bank. A ordem foi expedida nesta sexta-feira (6), no âmbito de uma investigação por suspeita de administração desleal de recursos e outros possíveis crimes relacionados à instituição financeira.

Segundo o jornal paraguaio ABC Color, a determinação foi encaminhada diretamente ao Comando da Polícia Nacional para cumprimento.

A ordem de prisão foi assinada pelos promotores Elena Fiore, Christian Benítez e Silvia González Véster, da área de Crimes Econômicos e Anticorrupção, além de Ruth Karina Benítez, da unidade especializada em crimes informáticos e lavagem de dinheiro. O texto divulgado não informa se Peña já foi localizado e preso.

Relação de Santiago Peña com o Ueno Bank

A investigação envolve a relação financeira do ex-presidente e de integrantes de sua família com o grupo empresarial responsável pelo Ueno Bank.

Em sua declaração patrimonial de 2023, Peña informou possuir ações da Ueno Holding avaliadas em 6,144 bilhões de guaranis. Segundo a reportagem, essas participações foram vendidas em abril de 2025.

O ex-presidente também declarou um certificado de depósito de 2,4 bilhões de guaranis no Ueno Bank e um título financeiro da empresa Itti.

Outro ponto examinado é a participação de seu irmão na U Holding SARL, sociedade por meio da qual o grupo empresarial teria mantido o controle do banco.

Essas relações passaram a integrar os questionamentos sobre possíveis conflitos de interesses entre a Presidência da República, os órgãos responsáveis pela fiscalização bancária e a instituição financeira.

Denúncia envolve Banco Central e recursos públicos

A investigação foi ampliada após uma denúncia apresentada por parlamentares paraguaios nesta quinta-feira (5). O documento acrescentou três novos fatos à representação original, protocolada em 22 de outubro de 2025.

Autoridades do Banco Central do Paraguai (BCP), especialmente o ex-presidente da instituição Carlos Carvallo Spalding, tinham conhecimento dos problemas financeiros do Ueno Bank desde abril de 2026.

Segundo os parlamentares, apesar das informações disponíveis, os responsáveis pela fiscalização não teriam adotado a tempo as medidas previstas na legislação para impedir o agravamento da crise bancária.

A denúncia também questiona a aplicação de recursos públicos no Ueno Bank por diferentes instituições paraguaias.

Entre as entidades mencionadas estão o Instituto de Previdência Social (IPS), a Itaipu Binacional, a Entidade Binacional Yacyretá e o Ministério da Economia.

Os parlamentares pedem que os investigadores analisem individualmente as decisões de aplicação desses recursos para determinar se houve prejuízo ao Estado ou eventual atuação coordenada entre agentes públicos e dirigentes da instituição financeira.

Intervenção no banco ameaça depósitos do Estado

O Banco Central do Paraguai interveio no Ueno Bank e iniciou o processo de resolução da instituição financeira, procedimento destinado a administrar sua crise e definir o destino de ativos e obrigações.

Com a medida, parte dos recursos públicos depositados no banco passou a depender dos resultados desse processo.

Segundo a denúncia parlamentar, os valores que ultrapassam a cobertura do Fundo de Garantia de Depósitos, limitada a 228,3 milhões de guaranis por depositante, estão sujeitos ao resultado da apuração dos ativos e passivos da instituição.

Os denunciantes sustentam que o risco financeiro se transformou em possível prejuízo efetivo para o Estado após a intervenção.

A investigação procura identificar quem autorizou as aplicações, quais informações estavam disponíveis no momento das decisões e se houve favorecimento indevido ao grupo empresarial.

Peña foi destituído antes da ordem de prisão

A determinação do Ministério Público ocorre após a destituição de Santiago Peña da Presidência do Paraguai, em meio às acusações relacionadas ao Ueno Bank.

O caso envolve suspeitas sobre a relação do ex-presidente com o grupo financeiro, a atuação dos órgãos de fiscalização e a exposição de recursos públicos à crise bancária.

A ordem de prisão representa uma nova etapa da investigação criminal, mas não equivale a uma condenação pelos fatos apurados.

Os promotores deverão examinar as operações financeiras e a atuação dos agentes públicos envolvidos para estabelecer eventuais responsabilidades penais.

Kiko Nogueira
Diretor do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.