
A disputa pelo comando da direita brasileira entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), abriu espaço para que o PSD tente ocupar o vácuo político com uma candidatura própria à Presidência da República em 2026. Diante da indefinição dos dois principais nomes do campo conservador, o governador do Paraná, Ratinho Júnior (PSD), passou a ser tratado dentro do partido como alternativa viável ao Planalto, com o apoio direto do presidente da sigla, Gilberto Kassab.
Nas últimas semanas, segundo o jornal O Globo, Ratinho Jr. intensificou reuniões internas e passou a afirmar, de forma direta, que pretende disputar a Presidência. Kassab, por sua vez, tem reforçado publicamente e em conversas reservadas que, hoje, o paranaense reúne as melhores condições para representar o PSD na corrida presidencial.
A avaliação é que o racha entre Flávio e Tarcísio atrasou a organização da direita e criou um vácuo de liderança que pode ser explorado pelo partido, inclusive com a atração de quadros de outras legendas, como o União Brasil.
No PSD, a leitura é que Flávio Bolsonaro enfrenta dificuldades para ampliar alianças fora do núcleo ideológico bolsonarista, enquanto Tarcísio oscila entre acenos à disputa presidencial e sinais de que buscará a reeleição em São Paulo. Essa ambiguidade é vista por aliados de Ratinho Jr. como um fator que favorece o governador do Paraná, ao retirar do jogo o nome considerado mais competitivo da direita fora do bolsonarismo.
Na sexta-feira (23), Tarcísio voltou a negar qualquer pressão para definir sua posição nacional e reafirmou que seu foco está na reeleição em São Paulo.
Durante evento em Embu das Artes, ele declarou: “Não tem nada de pressão. Até porque agora a gente vai trabalhar muito em prol do Flávio Bolsonaro, não vai ter problema nenhum com relação a isso. Acho que, com o tempo, as coisas vão se acomodando. Isso é absolutamente normal. Tenho certeza que teremos uma candidatura muito competitiva”.
A disposição de Flávio em disputar o Planalto mesmo sem o apoio unânime da direita fortaleceu, nos bastidores, a estratégia de Kassab de lançar Ratinho Jr. como alternativa.

Segundo interlocutores do PSD, esta é a primeira vez que o dirigente sustenta de forma concreta o projeto presidencial do paranaense, não apenas como instrumento de negociação. A avaliação interna é que Ratinho Jr. teria mais chances de chegar ao segundo turno contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em um cenário fragmentado à direita do que em uma disputa polarizada com Tarcísio.
Já há, inclusive, uma estratégia inicial de campanha em discussão. O marqueteiro argentino Jorge Gerez participa das conversas e uma das linhas prevê o uso da imagem do pai do governador, o apresentador Carlos Massa, o Ratinho, como ativo eleitoral.
A aposta é ampliar a capilaridade da candidatura fora do eixo Sul-Sudeste. Outro eixo central deve ser a segurança pública, com a divulgação de indicadores do Paraná, investimentos em tecnologia, monitoramento por câmeras, uso de inteligência artificial e reestruturação das carreiras policiais.
Apesar do avanço interno, dirigentes do PSD reconhecem obstáculos relevantes na construção da candidatura. Em estados estratégicos, alianças locais do partido com o PT dificultam um discurso nacional de oposição. No Rio de Janeiro, o prefeito Eduardo Paes (PSD) está alinhado a Lula.
Na Bahia, o PSD integra a base do governador Jerônimo Rodrigues (PT). No Piauí, a legenda compõe a chapa de reeleição do governador Rafael Fonteles. Em Pernambuco, a governadora Raquel Lyra disputa apoio do PT.
Minas Gerais é outro foco de atenção. As conversas entre Ratinho Jr. e o governador Romeu Zema (Novo) avançaram nos últimos meses, sem definição formal. O PSD avalia que manter diálogo com Zema é essencial para preservar um palanque competitivo no estado, que foi blindado de uma associação automática ao bolsonarismo após a filiação do vice-governador Mateus Simões à legenda.