‘Entrevista com Escritores Mortos’ (número 26): François La Rochefoucauld. Por Camila Nogueira

Rochefoucauld: “Esquecemos facilmente os nossos pecados quando só nós próprios os conhecemos.”

François de la Rochefoucauld foi provavelmente o maior frasista de todos os tempos. Escolhemos máximas dele sobre temas variados para nossa série: “Conversas com escritores mortos”.

Monsieur la Rochefoucauld, como o senhor definiria a bondade?

Nada é mais raro do que a verdadeira bondade; até os que julgam tê-la em geral tem apenas condescendência ou fraqueza.

Então aqueles que são realmente bondosos devem ser louvados?

Ninguém merece ser louvado pela sua bondade se não tiver coragem de ser mau; qualquer outra forma de bondade não é mais do que preguiça ou ausência de vontade. É mais ou menos a mesma coisa que pronunciar-se acerca de sua coragem quando nunca esteve em perigo.

E a virtude?

Os vícios entram tanto na composição das virtudes como os venenos na dos remédios – e as nossas virtudes, a maior parte das vezes, não passam de vícios disfarçados.

Como assim?

Há péssimas qualidades que fazem grandes talentos. Além disso, o que impede a entrega a um só vício é termos vários. Você deve saber que esquecemos facilmente os nossos pecados quando só nós mesmos os conhecemos. Confessamos os pequenos defeitos para persuadir os outros de que não temos grandes.

E temos assim tantos defeitos?

Se não os tivéssemos, não nos agradaria tanto notá-los nos outros.

Claro. Mas não há aqueles que cumprem seu dever, sendo pessoas muito honradas e íntegras?

Sim, mas uma coisa não resulta na outra. Não é porque cumprimos nosso dever que somos honrados e íntegros. É algo muito interessante pensar que, embora a preguiça ou a timidez façam-nos cumprir nossos deveres, a virtude é que fica com as honras.

Mas o senhor me dá a entender que somos todos pessoas desprezíveis! Acha que não devemos aceitar elogios nem acreditar neles?

Quem recusa uma lisonja está procurando ser lisonjeado duas vezes. E não tenho nada a dizer quanto a acreditar neles… Por melhor que digam de nós, não nos dão nenhuma novidade.

O senhor é um grande conhecedor da natureza humana. Dentre todos os males, o que mais o entristece?

O envelhecimento. Os defeitos do espírito aumentam com a idade, tal como os do rosto. Ao envelhecermos, tornamo-nos mais loucos e mais sagazes. A velhice é uma tirania que proíbe, sob pena de morte, todos os prazeres da juventude.

Oh, mas a minha querida avó me dá ótimos conselhos, e…

É claro que dá. Os velhos gostam muito de dar bons conselhos para se consolarem de já não estarem em estado de dar maus exemplos.

E quais são as suas considerações sobre o casamento?

Há bons casamentos… Mas não há casamentos deliciosos.

Como assim? O senhor acha que o casamento mata o amor?

Não. Acho que nunca existiu o amor. O verdadeiro amor é como a aparição dos espíritos – muita gente fala neles, mas poucos os viram. Os bons casamentos não se baseiam no amor. Antes de mais nada, as relações mais felizes são aquelas baseadas na mútua incompreensão. Uma relação saudável não tem como companheiro o ciúme, até porque ele é fruto mais do amor próprio do que do amor em si. Depois, não se deve amar muito. A prudência é essencial para um casamento feliz e o amor e a prudência não se fizeram um para o outro; à medida que o amor aumenta, a prudência diminui.

Por que? Acha que não somos capazes de resistir às nossas paixões?

Se resistimos a elas, é mais pela fraqueza delas do que pela nossa força.

Uma pergunta final. As relações baseadas puramente no amor são infelizes?

Naturalmente. Se há somente o amor, há infelicidade. É uma regra. No fim das contas, se julgarmos o amor pelos seus efeitos, ele se assemelha mais ao ódio do que à amizade.

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