Laerte: governo Bolsonaro seria o império da ignorância e da estupidez, com fartas doses de revanchismo

Laerte

PUBLICADO NO SUL 21.

POR GIOVANA FLECK E LUIŚ EDUARDO GOMES

A chargista Laerte Coutinho está preocupada. Preocupada com a eleição presidencial, que coloca Jair Bolsonaro (PSL) como favorito na disputa contra Fernando Haddad (PT). Preocupada com o momento que o Brasil vive, a ameaça da volta do autoritarismo e o crescimento de uma onda de violência política e contra a população LGBT. Especialmente contra a população trans, como ressalta. Preocupada também com o impacto do WhatsApp, não só nas eleições, mas, de maneira geral, na sociedade, no seu trabalho e no trabalho da imprensa.

Uma das mais consagradas chargistas do País, tendo trabalhado no histórico Pasquim e há muitos anos assinando charges e cartuns para a Folha de S.Paulo, Laerte crê que a imprensa tradicional está “tomando uma surra dos tempos atuais”. Tempo que ela define, tomando emprestada uma expressão da jornalista Eliane Brum, como de “auto-verdade”. “É uma verdade que se estabelece a partir do ato de você falar, do ato de enunciar alguma coisa. Pronto, já é um negócio”.

Para ela, o jornal diário, por exemplo, é hoje uma espécie de “sub-WhatsApp”, relegado ao posto de publicar notícias que já foram remoídas, mastigadas e modificadas no dia anterior nas redes sociais. O Sul21 conversou com Laerte por telefone na manhã do dia 18, mesmo dia em que a Folha publicou em sua capa a reportagem com a denúncia sobre o financiamento de uma rede de impulsionamento de mensagens de WhatsApp que seria ligada à candidatura de Bolsonaro. Momentos antes, ela havia publicado em seu perfil no Twitter duas charges a respeito dessa matéria. Logo no início da conversa, Laerte é avisada que uma de suas charges havia sido modificada e estava sendo republicada com intuito diferente do original, o que diz acontecer com frequência.

Laerte acredita que o Brasil já vive um momento de ameaça autoritária, citando como indícios pronunciamentos de generais da ativa e da reserva em redes sociais insinuando que o Exército poderia intervir em assuntos políticos. Um tempo que, segundo ela, exigirá muita resistência da classe artística, independente da vitória de Bolsonaro ou não.

Contudo, se confirmado o resultado que indicam as pesquisas de intenção de voto no momento, ela prevê emergir um cenário negativo no País, especialmente na área cultural. “Provavelmente, é o império da ignorância, da estupidez. Eu acho que com fartas doses de revanchismo e de vinganças pessoais. Eu não sei, é difícil pensar, porque a campanha dele está deixando claro que ele solenemente não está ligando”, diz. “Então, o que se pode esperar é um desastre, um período de grande aflição e crise nessa área cultural”.

Sul21 – Como tu está vendo a questão do WhatsApp nas eleições? Isso está te deixando preocupada?

Laerte: Preocupada é um dos particípios passados que eu tô. Eu também tô assustada, impressionada, boquiaberta e um monte de coisas, porque essas coisas são novidades. Essas linguagens tecnológicas são novidades para mim e, na minha ignorância, eu sempre tendi a pensar como redes mais ou menos neutras de contato entre as pessoas. Facebook, Twitter, WhatsApp, eu sempre tendi a pensar como técnicas de contato de pessoas relativamente neutras. Mas a quantidade de portas que se abre para manipulação estão se revelando. Era uma coisa já conhecida por quem estudava o assunto, mas agora está se revelando uma coisa muito volumosa, e violenta também. O grau de desinformação – e mentira mesmo – que foi veiculado por essas vias é assustador. Eu não nego que o bolsonarismo, se é que se pode usar esse termo, tenha ganhado as cabeças e os corações de muita gente no Brasil, mas a base dessa convicção é para lá de suspeita.

Sul21 – Um bom exemplo disso é toda essa cultura e influência que se criou em torno do “kit gay”, que agora já está mais do que comprovado que foi uma mentira.

Laerte: Foi uma mentira, mas o alcance das medidas coercitivas e punitivas vindas do TSE ou de um arbítrio qualquer que possa controlar as coisas é limitado, não alcança o WhatsApp. O WhatsApp corre por baixo, vamos dizer. Provavelmente, as pessoas estão continuando a falar em kit gay à vontade. E o que adianta você ficar fazendo desmentidos?

Laerte em visita a Porto Alegre em 2016 | Foto: Guilherme Santos/Sul21

Sul21 – Tu, que vivestes no período militar, participou de publicações contrárias ao regime e que foram censuradas, como está vendo esse cenário atual? Tu achas que o momento atual tem comparação com aquela época?

Laerte: É difícil comparar. Eu trabalhava num jornal chamado Gazeta Mercantil, que não existe mais, e numa empresa chamada Oboré, que ainda existe, mas naquela época atendia basicamente os sindicatos de trabalhadores. [A entrevista é interrompida por um momento]. Olha aí, meu filho me avisando que tem alguém postando as minhas tiras com o texto alterado.

Sul21 – Tu tá brincando?

Laerte: Isso fazem há anos.

Sul21 – Acontece muito?

Laerte: Sim, acontece. É só pegar, mudar e publicar. Você percebe? Nós estamos lidando com um território de alta volatilidade. Antigamente, quando comecei, a gente publicava no Pasquim uma coisa e aquilo era uma espécie de pedra gravada. O cartum era um negócio meio imutável e aquela mensagem saia e ia atingir os seus objetivos. Agora não dá, você joga um negócio e, no instante seguinte, já tem gente pirateando aquilo.

Sul21 – Tu joga na internet e a pessoa pode atribuir o significado que quiser. Tem muito disso também nessa circulação de WhatsApp, as pessoas entenderem o que quiserem.

Laerte: Pois é, os tempos são outros.

Sul21 – E como tu vês o papel da imprensa e de chargistas neste momento?

Laerte: A imprensa é uma que está tomando uma surra dos tempos atuais. As pessoas não se informam mais na ‘imprensa’. A imprensa também tem virado, cada vez mais, um veículo de manipulação. Nunca deixou de ser. O fato de você construir uma manchete de uma forma e não de outra, o fato de você colocar uma foto e não outra, você já está direcionando. Os editores de jornais e construtores de primeiras páginas e de manchetes estão fartos de saber disso. Não é um conhecimento novo. Mas o fato é que a existência de mensagens paralelas, como as redes sociais e agora o WhatsApp, transformou a imprensa numa espécie de sub-WhatsApp, e atrasadão. Quando sai um jornal diário, tudo aquilo já foi remoído, mastigado e já tem uma produção de contra-informação violenta. Esse trabalho da Folha que saiu hoje [no dia em que a entrevista foi realizada] é um dos poucos exemplos de informação nova e valiosa. Mas, de um modo geral, a imprensa está numa situação muito difícil. Fora questões industriais, de preço de papel e dificuldades disso ou daquilo, tem também problemas sérios em relação à linguagem de mídias que são praticamente gratuitas, ou aparentemente gratuitas, porque as pessoas estão sempre pagando de alguma forma. Os conteúdos de acesso limitados a assinantes, por exemplo, eu não sei se os jornais estão fazendo bem com isso. Em princípio, é defensável, porque você está se recusando a abrir um produto que custou dinheiro para você produzir e botar no papel, então você está cobrando um xis de quem quer acessar. Mas, nos tempos que a gente vive, acho que é preciso encontrar outra forma de lidar com o assunto. As pessoas estão simplesmente parando de ler jornal, parando de ler sites de notícia por causa disso. Quando aparece o negócio lá, ‘acesso limitado a assinantes’, a pessoa simplesmente volta pro WhatsApp e continua a se informar por ali.

Sul21 – Como se trabalha a charge, o cartum, a ironia como forma narrativa, nesse cenário?

Laerte: O conteúdo que eu faço para a Folha, eu não saio publicando por causa disso, porque é um conteúdo exclusivo. A não ser a parte das tiras que saem na Ilustrada [um dos cadernos do jornal], que não é exclusivo. Mas, de qualquer jeito, o que eu faço para jornal não publico com tanta liberdade. O que eu tenho são coisas como essas que publiquei no Twitter que são para rede social, não para jornal.

Sul21 – Tu sentiu o teu processo criativo afetado por essa onda de violência e esse contexto que temos vivido nas últimas semanas?

Laerte: Não pela onda de violência, mas por essa característica do momento. Primeiro, essa coisa das pessoas poderem rapidamente interferir no conteúdo, mudando uma palavra ou mudando um negócio. Isso está acontecendo direito e é uma coisa que me preocupa na hora de ter a ideia. Eu procuro deixar o menor número possível de saídas para isso. Mas tem.

Sul21 – As pessoas, quando querem, encontram um jeito.

Laerte: É. Eu fiz um desenho, por exemplo, que é um suposto Moisés moderno indicando que o mar vai se abrir para as pessoas passarem. É uma referência a certas lideranças pseudo-religiosas recomendando voto no Bolsonaro. Mas aí eu botei uma plaquinha no cajado escrito 17. É só mudar para 13 que você altera o negócio.

Sul21 – Essa questão da onda de violência contra a população LGBT, ou mesmo contra quem critica o Bolsonaro, não te preocupa?

Larte: Sim, muito. Tem acontecido episódios de violência e ataques que precisam evidentemente ser investigados também. A velocidade com que as notícias correm também dá margem a interpretações apressadas. Quer dizer, até hoje tem pessoas colocando em discussão o que aconteceu realmente no atentado ao candidato. Se foi um ataque real ou se tem algum tipo de performance ali. Eu acredito que foi real, acho que a maior parte das pessoas acreditam também. Mas, você percebe, a gente está lidando com algo que a Eliane Brum chamou de auto-verdade. É uma verdade que se estabelece a partir do ato de você falar, do ato de enunciar alguma coisa. Pronto, já é um negócio.

Sul21 – Se fala muito também da legitimação dessa violência pelo discurso do Bolsonaro. A Agência Pública fez um levantamento que constata pelo menos 50 casos desde o primeiro turno, a maioria contra pessoas que rejeitam o Bolsonaro. Desses, pelo menos um terço contra pessoas assumidamente LGBT. Com uma possível vitória dele, como tu sente que o cenário pode mudar?

Laerte: É assustador. Eu tô assustada com essa possibilidade. Esse candidato vem realmente falando coisas de uma truculência e de uma ignorância fantástica. Há anos ele vem falando isso. Grande parte do prestígio dele junto a parte da população vem justamente dessa pseudo-franqueza, que na verdade é uma ignorância e uma truculência muito grandes. Isso vai se refletir no comportamento dos apoiadores. O Brasil já é um País onde se mata muitas pessoas da população LGBT, principalmente T, as trans, travestis e transsexuais. O que se anuncia é um aumento desses casos de ataques.

Sul21 – Ele fez boa parte da campanha atacando a Lei Rouanet e o financiamento dos artistas. Como tu imaginas que seria um governo Bolsonaro para a classe artística?

Laerte: Provavelmente é o império da ignorância, da estupidez. Eu acho que com fartas doses de revanchismo e de vinganças pessoais. Eu não sei, é difícil pensar, porque a campanha dele está deixando claro que ele solenemente não está ligando. Tá pouco se importando com a questão da cultura, da arte, da viabilidade industrial do cinema e de financiamentos para teatro, etc. Ele não liga para isso. Isso é bobagem para ele e ele deixa claro isso. E ele está se cercando de pessoas que também são reconhecidamente truculentas e estúpidas. Então, o que se pode esperar é um desastre, um período de grande aflição e crise nessa área cultural.

Sul21 – Vamos passar por um momento que vai ser de resistência?

Laerte: Já está acontecendo. Boa parte do que se está fazendo hoje na campanha pró-Haddad é, na verdade, um gesto de construção da resistência, porque vamos precisar disso. E não é uma resistência só na eventualidade de vitória do Bolsonaro, é uma resistência também na eventualidade de vitória do Haddad, porque essa opinião reacionária e truculenta cresceu muito e não vai deixar de existir mesmo se o Bolsonaro for derrotado.

Sul21 – A que tu atribui o crescimento desse tipo de opinião?

Laerte: É um monte de coisas. Acho que é difícil fazer um resumo de tudo. Eu tenho procurado, inclusive, ler e refletir sobre isso, porque é também assustador para mim. A gente se acostuma a pensar que se a vida da população melhora, se o acesso da população ao ensino melhora, se tudo isso acontece, fatalmente vai acontecer também um reflexo disso no ambiente cultural, no ambiente ideológico de um país como o nosso. Mas não é nem um pouco simples. Porque cresce a adesão a propostas negativistas, reacionárias, truculentas ou essa coisa do ‘me ne frego’, to pouco ligando pro que vai acontecer, por que acontece esse individualismo egoísta e ensandecido? É difícil precisar, mas estamos constatando que isso pode acontecer. Onde foram parar aquelas forças que a gente considerava vivas e inabaláveis? Os trabalhadores organizadores, os sindicatos atuantes. Como isso tudo se diluiu ou se pulverizou nesses anos todos? Avaliar o que aconteceu é um trabalho que acho que vamos fazer durante muito tempo, fazer críticas e reformulações. O que não dá é para fazer, como ouvi alguém falando, é lavar roupa suja na beira do precipício, como o Cid Gomes foi fazer no encontro do PT. Isso não dá. A uma semana do segundo turno, acho que as decisões precisam ser mais sumárias. Acho que esse trabalho de reflexão, entendimento, crítica e reformulação vai ter que acontecer.

Sul21 – Sobre esse trabalho de reconstrução das bases. Quais são os atores que deveriam se envolver, além dos partidos? A classe artística tem um papel nisso? Quem deve puxar esse trabalho?

Laerte: Não sei, acho um pouco difícil. Acho que muita gente é capaz de contribuir de maneira boa e profunda para esse tipo de reflexão. Eu não quero citar nomes porque vou deixar gente de fora. E tem também processos que vão envolver entidades. O que acontece hoje com sindicatos de trabalhadores? Qual é a realidade dos trabalhadores no Brasil? O que aconteceu com as estruturas de apoio e representação que deixaram passar essa reforma trabalhista do jeito que veio? Não é que estavam inativas. Eu acompanhei, as pessoas se manifestaram, mas a força das representações dos trabalhadores não foi suficiente para barrar isso que é um atentado, um ataque aos direitos de quem trabalha no Brasil. Então, sob o pretexto de adequar a legislação e as regulamentações a uma nova realidade comercial, industrial, produtiva, se atropelou e se desmantelou coisas muitas importantes, como a Justiça do Trabalho. Não é que isso tudo foi aceito passivamente, mas não houve força suficiente para barrar isso, porque foi aquele atropelo num Congresso claramente comprado. Então, reformular essas instâncias de luta não é que nem você estar no exílio fazendo um congresso de auto-crítica ou coisa assim. Não, a gente está no meio da tempestade, vamos ter que reformular essas coisas com o bonde andando, porque ninguém vai parar, o País não para. E a gente tem que entender também e dar resposta para os anseios dessa população que está abraçando hoje uma candidatura maluca como a desse sujeito.

Sul21 – Tem uma charge tua que vai nesse caminho de, no olho do furacão, analisar o que está acontecendo. Tu colocas no ninho dos tucanos um ovinho em que se choca o Bolsonaro, para surpresa deles. Como tu sentes que a gente tem que olhar para esse momento e melhor aproveitá-lo para que se possa ter uma mudança de discurso? Como agir no olho do furacão?

Laerte: Eu me sinto meio incompetente para responder em nome de alguém que precisa falar em um programa de reconstrução. Eu fiz parte de programas de reconstrução no tempo pós AI-5. Eu entrei na faculdade em 1969, o clima era de absoluto desconsolo. As pessoas andavam quase de luto. Tinha gente presa, sumida, gente sendo morta, as lideranças estudantis desbaratadas, como os órgãos de representação estudantil todos. Então, a ideia de não fazer nada era quase uma ideia positiva. ‘Não vamos fazer nada porque não dá para fazer nada’. Isso era considerado algo progressista. Estou exagerando, fazendo uma caricatura.

Naquela época, me integrei a pessoas que estavam querendo fazer justamente o contrário, ativar e agitar a vida cultural dentro da universidade, do modo que fosse possível. Era reconstruir os centros acadêmicos, era promover debates, promover eventos, trazer artistas, tornar vivos de novo os espaços de convivência e troca entre os estudantes, que eram as atléticas, os grupos de cine clube. Tudo isso foi parte de um modo de entender a crise e o que fazer frente à crise. Era isso, continuar agitando, mantendo vivos os canais, não deixar virar metástase aquele sentimento de derrota. É isso, tudo continua. Eu vou continuar fazendo o trabalho que estou acostumada a fazer e vou continuar me integrando e me associando a pessoas que estão também nesse pique.

Sul21 – Tu temes a volta da repressão e de uma ameaça mais contundente à democracia ou achas que não vai ser bem assim?

Laerte: Não é que eu temo, já está acontecendo. Essas tuitadas de generais ameaçando claramente intervenção na véspera de julgamento do STF, ameaçando botar tropa na rua. Eles falaram claramente isso, não estou inventando. Na época que o Dallagnol [procurador do MPF, Deltan Dallagnol] estava dizendo que ia fazer jejum, tinha general também falando que as forças armadas não iam admitir isso. Desde quando isso é possível? Desde o fim da ditadura não se via uma coisa dessas e a gente está vendo cada vez mais. O candidato a vice na chapa do Bolsonaro já falou coisas que, em outros países, como no Chile, provocaram reserva compulsória. As pessoas estão elogiando torturador, estão dizendo que pode haver golpe sim, que o Exército está aí para isso. O que é isso? O Exército como corpo institucional deveria se manifestar contra essas falas. O fato de não se manifestar contra essas falas, que são abertamente antidemocráticas, jogam lama na figura institucional do Exército. Essas falas deveriam estar sendo criticadas e esse pessoal deveria estar sendo enquadrado. Então, já está acontecendo.

Sul21 – Na sociedade civil, tu achas que esse discurso de violência e revanchismo está sendo normalizado?

Laerte: Acho que sim. O pensamento que ideologicamente define o apoio de alguém ao Bolsonaro não é uma formulação democrática, não. É uma formulação maluca, de consagração de estado de exceção, de aceitação de comportamentos absolutamente anti-democráticos, de violência. Como se chegou a isso? Eu acho que é uma resposta que demanda mais tempo. Acho que tem influência da mídia, forte, na construção do golpe que derrubou a Dilma, por exemplo. Mas também na construção de uma cultura anti-PT e de uma imagem do PT associada a esquerdismo, comunismo, feminismo, LGBTismo e coisas meio mal explicadas. Tem vários processos aí de construção de confusão. Essa coisa foi semeada num campo que estava muito aberto a isso, de alguma forma estava frustrado com determinadas expectativas que não se cumpriram, com problemas que vinham se acentuando nos últimos anos, a partir de 2013. O que eu penso sobre isso vai mais ou menos por aí, mas é algo que me surpreende e me faz pensar. Ainda estou querendo entender a fundo o que leva pessoas que até poucos meses atrás eram democratas, progressistas e tal, que passaram a dizer ‘não, acho que é Bolsonaro sim’. É meio chocante. Você tem que entender o que houve. É só influência da mídia? Tem algum processo social estranho que você não levou em conta e talvez esteja acontecendo? Tudo vai ter que ser entendido.

Sul21 – Vai ter que ter um distanciamento histórico.

Laerte: Então, hoje a gente já está no daqui a alguns anos em relação, por exemplo, a 64. O que aconteceu em 64? Falava-se em perigo comunista. Não havia esse perigo, hoje a gente sabe. Havia várias retóricas, falas e discursos por aí, mas não havia o perigo comunista. ‘Ah, as ligas camponesas’. As ligas camponesas, como foi verificado, não eram nenhuma ameaça à estabilidade da democracia. Havia um golpe, sim, que já estava sendo construído desde Getúlio Vargas. Bom, isso a gente sabe hoje. Mas o que era a sociedade brasileira em 64? Era uma sociedade bastante desmobilizada, carente de organizações e entidades, instituições, sindicatos, clubes. Tudo isso se proliferou de lá para cá, mais modernamente. Então, a sociedade brasileira hoje tem uma complexidade que não havia de modo algum em 64. Como vai se dar uma suposta tentativa de instalar uma ditadura no Brasil hoje? Não sei. Estamos vivendo um tempo diferente.

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