Lambança da Lupa levanta a discussão: a que (ou quem) servem as agências de checagem? Por Joaquim de Carvalho

Grabois e o papa Francisco

O episódio em que a agência de checagem Lupa tenta corrigir notícia divulgada sobre uma tentativa de entrega de um rosário a Lula levanta duas discussões:

  1. Quem checa o checador? 
  2. A que (ou a quem) servem essas agências?

Como se recorda, na segunda-feira o advogado Juan Grabois, professor universitário na Argentina e ativista social, foi à Superintendência da PF em Curitiba para tentar visitar Lula.

Na bagagem, levava um rosário abençoado pelo papa Francisco. Na saída, ele deu entrevista para dizer que foi impedido de entrar.

Segundo disse, os agentes lhe explicaram que havia ordens de cima. Disse também que, segundo entendeu, a visita de segunda-feira é privativa de sacerdotes consagrados.

Não concordou, já que, pela doutrina cristã, todos os batizados são missionários. Mas, sem ter o que fazer, Grabois deixou o rosário para ser entregue a Lula e deu entrevista para protestar.

A notícia era a proibição de que visitasse Lula, mesmo sendo reconhecidamente um ativista social ligado diretamente ao papa Francisco.

Mas, por conta de uma confusa checagem da Lupa, o foco mudou: ao corrigir a informação, divulgada pelo PT de que o rosário era um presente do papa Francisco, a agência deu fluxo para uma informação equivocada, divulgada pela agência do Vaticano: a de que Grabois já não era mais consultor do papa.

A notícia de Grabois poderia ser um tipo espertalhão, se passando pelo que não era, logo se espalhou e publicações da velha imprensa, como O Globo, tentaram desmoralizar Lula e a mídia independente, com uma informação que, agora se sabe, é mentirosa.

Grabois é consultor do papa e mantém interlocução permanente com o líder da Igreja Católica.

O que mudou é o nome do departamento a que estava vinculado. Era Pontifício Conselho da Justiça e Paz, agora faz parte do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral.

A checagem mal feita da Lupa serviu para que o Facebook também ameaçasse sites independentes, como o Diário do Centro do Mundo, de restringir o alcance das postagens.

Três lições ficam desse imbróglio:

  1. há uma ofensiva sobre sites independentes que, desde 2013, têm feito o contraponto à narrativa da imprensa hegemônica, empenhada na campanha para tirar o PT do poder;
  2. A agência de checagem, tão diligente na hora de apontar o dedo para os sites independentes, se calou sobre o erro da velha imprensa quanto ao papel de Juan Gabrois no Vaticano.
  3. há uma disputa no seio da Igreja Católica sobre o papel da instituição diante da ofensiva dos grupos de poder do Brasil sobre lideranças populares e, em última análise, sobre a própria democracia.

É fora de questão que o papa abençoou o rosário e que Grabois é de seu círculo mais próximo. O consultor não disse que o rosário era um presente do papa.

Com essa confusão, o que se vê é um movimento que cercear a posição do papa Francisco em relação à prisão de Lula.

O papa Francisco ainda não mencionou o nome do ex-presidente, mas já deixou claro o que pensa sobre o que está acontecendo no Brasil.

Em uma manifestação no dia 17 de maio, Francisco alertou para o risco de um movimento de manipulação midiática que condena o povo à massa de manobra. Disse o pontífice sobre o papel da imprensa nos dias de hoje:

“Criam-se condições obscuras para condenar uma pessoa (…) na vida civil, na vida política, quando se quer fazer um golpe de Estado. (…) A mídia começa a falar mal das pessoas, dos dirigentes, e com a calúnia e a difamação essas pessoas ficam manchadas. (…) Depois chega a justiça, as condena e, no final, se faz um golpe de Estado”.

Só falou dizer os nomes: Globo e os demais da velha imprensa, Sergio Moro, TRF-4, STJ e STF.

O episódio da entrega do rosário é só um detalhe. Ou um pretexto.

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