Leminski e a inutilidade da poesia diante da barbárie de Bolsonaro. Por Mário Bortolotto

Leminski

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Lembro do Leminski usando essa expressão em palestras que assisti lá em Londrina. Leminski dizia que a “A única razão de ser da poesia é que ela faz parte daquelas coisas inúteis da vida que não precisam de justificativa”.

Enfim ele queria dizer que a poesia não precisa exatamente estar a serviço de porra nenhuma. Ela simplesmente tem que existir como o orgasmo, a amizade ou o afeto. Simplesmente ela existe pq nos faz bem. Um bem indescritível que dinheiro nenhum pode pagar. Acho inclusive que a expressão foi criada pelo grande poeta Manoel de Barros se não me engano no livro “Arranjos para Assobio” de 82.

Lembro de ter ouvido o Leminski usando a expressão em 85 ou 86, algo assim. Às vezes fico pensando mesmo que somos todos (artistas, escritores, músicos, etc) inutensílios pq no mundo das pessoas movidas apenas por interesses de ordem prática, somos vistos mesmo como “inúteis”.

E isso se agrava consideravelmente em tempos sombrios como o que estamos vivendo onde o presidente que está no poder não tem a menor preocupação com a vida humana no sentido mais literal da palavra. Como esperar que um presidente desses tenha algum apreço por literatura (acho que nunca deve ter lido um livro na vida) ou por música de verdade ou por pintura.

Como esperar que alguém assim já tenha ido ao teatro alguma vez na sua vida. A sua maneira de falar expõe sua tosquice. E os seus seguidores refletem a mesma tosquice. Gente que desconhece qualquer sílaba da palavra “sofisticação”.

É só ver o filho que também herdou a sua breguice, comprando uma mansão de 6 milhões com pia e torneira douradas, uma brinquedoteca (é claro que não seria uma biblioteca), piso do banheiro de mármore carrara, enfim tudo o que o dinheiro pode comprar de mais ostensivamente cafona.

Então se essa gente é que tem alguma utilidade para a maioria, prefiro mesmo ser visto como um “inutensílio”. Tá tudo certo. Hoje estava lendo “Paris é uma Festa” do Hemingway e tem um trecho do livro onde ele encontra um cara que era um engolidor de fogo profissional e que entortava moedas com as gengivas.

O cara não tinha mais nenhum dente e suas gengivas estavam obviamente inflamadas. Hem convida o cara pra beber uma com ele que conta tristemente para o escritor que estava totalmente na miséria e que nesse mundo não havia mais futuro para um engolidor de fogo e entortador de moedas com as gengivas.

Fiquei pensando que nesse mundo árido de bolsonaros não há mesmo mais nenhum futuro para nenhum de nós, meros e desprezíveis inutensílios.

Afinal se pessoas tão imprescindíveis como profissionais de saúde são desprestigiados, maltratados e desprezados, o que pensar de nós que somos apenas pessoas que não precisam de justificativas para existir. Assim como a poesia, como o orgasmo, como a amizade ou como o afeto.

O que eu sei é que pessoas como Hemingway, ou Isadora Duncan ou Modigliani ou Jimi Hendrix ou Will Eisner foram fundamentais na minha vida simplesmente por eu ter descoberto a arte que eles defenderam. E me fizeram um bem indescritível e uma pessoa com mais vontade de viver e de ser generoso e atento para com as outras pessoas ao meu redor. Pessoas como os bolsonaros da vida são o oposto de tudo isso.

Eles causam um mal irreparável por onde passam. São cavalos de Átila. Enquanto isso Leminski atravessava a rua brincando como atravessou sua vida se divertindo como nessa foto fazendo valer o que costumava dizer “Espero que todos se divirtam. Não há há muito mais a se fazer nesse mundo”. Por enquanto ainda não podemos nos divertir.

É impossível se divertir com tanta gente sofrendo. Não que nós não estejamos, mas é que tem muita gente muito mais ferrada, sofrendo em hospitais, passando fome, vendo os filhos sofrerem.

É impossível ligar a tv e ficar impassível diante de tanta tristeza. Mas eu espero que ainda possamos. Nós merecemos. Todos nós que não compactuamos com a barbárie. Pena que ainda não criaram um antônimo para “intelligentsia”. Serviria muito bem aos seguidores e simpatizantes do nosso atual governante.

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