Sakamoto: Após ajudar a parir o tarifaço, Flávio critica Lula por reagir aos EUA

Atualizado em 16 de agosto de 2026 às 23:13
Flávio Bolsonaro. Imagem: reprodução

Por Leonardo Sakamoto, no UOL

Imagine que Cebolinha acuse Mônica de gastar tempo demais limpando o chão da própria casa e reclamando do Cascão. Segundo ele, ela deveria abandonar o balde e o esfregão porque há outros problemas importantes a resolver. O que Cebolinha omite é que foi ele quem incitou Cascão a entrar e espalhar sujeira pela casa da Mônica.

Na versão eleitoral dessa história, Cebolinha é Flávio Bolsonaro, Mônica é Lula e Cascão atende por Donald Trump.

Em seu primeiro comício de campanha, hoje, em Copacabana, Flávio afirmou que o governo petista perde tempo brigando com os EUA enquanto não enfrenta traficantes dentro do Brasil.

“O atual governo briga com países que estão a 10 mil quilômetros de distância da gente, em outro continente, mas não briga com o ladrão vizinho, traficante, estuprador, assaltante e assassino. Um governo que não tem a capacidade e a vontade de defender quem mora aqui também não tem condições de manter a soberania sobre seu próprio território”, disse ele ao lado de uma bandeira dos Estados Unidos.

É uma comparação conveniente para quem ajudou a criar o problema que agora usa para atacar o adversário. Flávio viajou a Washington, reuniu-se com Trump na Casa Branca, pediu ajuda ao governo norte-americano nas eleições. Seu irmão Eduardo havia feito o trabalho sujo no ano anterior, instalando-se nos Estados Unidos para defender sanções contra autoridades, instituições e a economia do próprio país a fim de salvar o pai da cadeia por tentativa de golpe.

Pouco depois do beija-mão de Flávio pela Casa Branca, Trump anunciou novas tarifas contra produtos brasileiros e ameaçou o Pix. Quando percebeu que o ataque dos EUA poderia custar votos, o senador tentou se vender como bombeiro do incêndio que ajudou a provocar. Chegou a pedir que o tarifaço fosse adiado para depois das eleições, como se lascar empresas e trabalhadores brasileiros fosse aceitável desde que isso ocorresse depois de fechadas as urnas.

Agora, Flávio tenta esconder esse cadáver debaixo do tapete realizando uma pirueta semântica. Como a palavra “soberania” lembra o eleitor da atuação de sua família contra o Brasil, o candidato resolveu trocar seu significado.

“Nós perdemos a soberania. Não temos mais soberania sobre nosso celular, nosso carro, nossa bolsa, nossa casa”, disse em Copacabana.

Segurança pública é fundamental. Sem ela, o cidadão perde liberdade, o suado patrimônio e, muitas vezes, a vida. Mas soberania nacional é o direito de um país decidir seu destino sem ser chantageado por uma potência estrangeira. Confundir deliberadamente as duas coisas é uma tentativa de transformar traição nacional em falta de preocupação com o celular roubado.

O truque é simples. Em vez de explicar por que sua família pediu ajuda estrangeira para constranger instituições brasileiras, Flávio aponta para o traficante da esquina e grita que soberania de verdade é poder andar com o telefone na mão.

O candidato pode falar de segurança pública. Deve, aliás. Mas poderia começar explicando o que aconteceu no próprio quintal político.

Jair e Flávio Bolsonaro. Imagem: reprodução

Rodrigo Bacellar, então presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro e nome preparado pela máquina política ligada ao governo bolsonarista de Cláudio Castro para assumir o Palácio Guanabara, foi preso sob suspeita de iobstruir uma investigação sobre o Comando Vermelho.

Segundo a investigação, Bacellar teria atuado como uma espécie de X9 institucional, vazando informações para ajudar o então deputado TH Joias, acusado de intermediar negócios para a facção.

O plano político previa que Cláudio Castro deixasse o governo e que Bacellar assumisse como governador-tampão para disputar a reeleição sentado na cadeira do poder. Se o esquema não tivesse sido descoberto, ele poderia estar hoje comandando o Estado do Rio e pedindo votos para continuar no cargo.

Por isso, quando Flávio pergunta por que Lula não briga com traficantes, a resposta deveria vir acompanhada de outra pergunta: como alguém suspeito de passar informações ao Comando Vermelho conseguiu chegar tão perto de assumir o governo do principal reduto político dos Bolsonaro?

Podemos discordar das propostas de Flávio Bolsonaro para economia, educação e saúde, apresentadas do alto de um caminhão em Copacabana. Podemos debater seu tesouraço de ministérios, suas escolas cívico-militares, seus vouchers educacionais. Isso faz parte do jogo democrático.

O que não faz parte desse jogo é atacar as urnas quando o resultado desagrada, conviver com a promiscuidade entre estruturas políticas e o Comando Vermelho e ajudar os Estados Unidos a lascarem o Brasil para beneficiar a própria família.

Isso não é divergência de programa de governo. É sujeira que nenhum discurso consegue varrer para debaixo do tapete.

Cascão não é apenas o gringo.

Diario do Centro do Mundo
O Diário do Centro do Mundo (DCM) é um portal brasileiro de jornalismo digital fundado em 2013. O site publica notícias e análises sobre política, economia, cultura, mídia, comportamente -- tudo o que é relevante, no Brasil e no exterior