Lincoln Gakiya pode colaborar com a nova Segurança Pública, mas não como ministro

Atualizado em 7 de novembro de 2026 às 9:46
Lincoln Gakiya, promotor de Justiça. Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

A narrativa de que o tema da segurança pública sempre pertenceu à direita é rasa e um tanto falaciosa. A esquerda preocupa-se, sim, com a questão, de profundos impactos na vida do cidadão. Ocorre que seus ideólogos entendem que as motivações sociais do crime – organizado ou circunstancial – são parte do grande problema do Brasil, motivador de todos os demais: a carestia de parcela significativa da população, quesito consagrador da nossa desigualdade histórica.

A esquerda nunca foi contra o combate frontal ao crime, à garantia do direito de ir e vir sem ser abordado por ladrões. Sempre afirmou-se, de outra parte, avessa a um modo de agir policial que acaba por penalizar as comunidades pobres, as pessoas negras em regra, e que pouco investiga, mantendo intocados os chefões encastelados bem longe das favelas, alguns até representados em altos cargos públicos. A esquerda sempre combateu, acrescente-se, a infiltração do crime organizado no seio das próprias polícias.

A pergunta que grita é se existem meios de conjuminar sociologia e ações contundentes de combate ao crime. Não se pode, jamais – e isto é certo -, concordar com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, para quem “efeitos colaterais” de ações policiais são inevitáveis, tomando-se tais efeitos como a morte de inocentes.

No momento em que o Congresso Nacional aprova um alvissareiro plano governamental de segurança pública e anuncia a recriação do Ministério exclusivo a esse fim, cogita-se a nomeação do promotor Lincoln Gakiya, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado – o Gaeco, do Ministério Público de São Paulo – para o posto.

Agentes da Polícia Civil e do Gaeco. Foto: reprodução

Gakiya é um profissional exemplar. Possui mais de duas décadas de atuação direta contra o crime organizado, sendo reconhecido como uma das maiores autoridades do país no enfrentamento ao PCC, tanto que está jurado de morte pela organização criminosa. A escolha de desse promotor daria ao Ministério da Segurança Pública um viés técnico, focado em inteligência policial e no desmantelamento de facções.

Ronaldo Caiado tentou cooptá-lo para sua campanha eleitoral, sem sucesso.

O promotor do Gaeco costuma dizer que o Brasil possui um sistema de segurança pública “absolutamente disfuncional e distópico”, no que está absolutamente correto. Argumenta que o país não sofre por falta de contingente policial, mas sim por uma absoluta falta de integração e coordenação nacional entre as forças estaduais e federais, problema que o plano do Governo Federal ataca com precisão. Embora seja conhecido por sua linha dura no cumprimento das leis e no isolamento de líderes do PCC, Gakiya prioriza a investigação policial, o estrangulamento financeiro e a inteligência penitenciária. A escolha do seu nome no Ministério da Segurança Pública refletiria uma visão que favorece a asfixia logística e econômica das máfias em detrimento da estratégia de confrontação armada massiva nas ruas. Em tese, claro.

Por que, então, o promotor Lincoln Gakiya pode não ser a melhor opção para o posto?

Talvez porque o ministro da Segurança Pública não deva ser um operador de ações contra o crime, mas alguém talhado para viabilização de políticas públicas de segurança e combate ao crime. É-lhe imprescindível o talhe para o jogo político. Há o dúvidas no Palácio do Planalto, portanto, entre ceder a pasta a um técnico como Gakiya e nomear um quadro político forte.

Alas mais à esquerda argumentam que nomear o promotor do Gaeco seria render-se ao modelo direitista de segurança, já que Gakiya se enquadraria no perfil do “xerifão”, do paladino da justiça talhado para caçar bandidos. Mas essa é uma assertiva dogmática. Lincoln Gakyia nunca foi um justiceiro.

Este jornalista, diferentemente dos “opinionistas” dos jornalões e das televisões, não cultiva o hábito de dar conselhos ao presidente Lula. Mas acredita que Lincoln Gakiya tem importantes contribuições a dar ao Ministério da Segurança Pública, ainda que não no posto máximo da pasta. Sua experiência no combate ao PCC não pode ser desprezada. Ele poderia vir a ser a mente operacional de um ministro Geraldo Alckmin, por exemplo, ou de um ministro Alexandre Silveira, ou de um ministro Camilo Santana, alguns nos nomes cotados para comandar o novo Ministério. Todos talhados para o cargo, registre-se.

Paulo Henrique Arantes
Jornalista há quase quatro décadas, é autor do livro "O que a Vida quer é Memória - O Brasil de Lula no Mundo de Trump” (Editora Autografia). Editor da newsletter "Noticiário Comentado" (paulohenriquearantes.substack.com).