Livre, Lula escolhe Bolsonaro e Lava Jato como inimigos, mas também sinaliza paz e amor. Por Kennedy Alencar

(AFP)

PUBLICADO NO BLOG DE KENNEDY ALENCAR

POR KENNEDY ALENCAR

No primeiro discurso ao deixar a prisão, Lula escolheu os inimigos: Bolsonaro e integrantes da Lava Jato. Mostrou disposição para o embate, dizendo que roubaram a eleição de Fernando Haddad. Foi alusão à onda de fake news que beneficiou o atual presidente em 2018. E sinalizou que pretende liderar a oposição ao dizer que viajará pelo Brasil a partir da semana que vem.

Nas conversas que teve nos últimos dias, Lula avaliou que se enganou quem apostou que a cadeia o enfraqueceria. Ele se sente fortalecido, especialmente após as revelações da Vaza Jato que dão sentido ao discurso de vítima de abusos da Lava Jato.

Agora, a prioridade é conseguir anular no Supremo Tribunal Federal a sentença do ex-juiz Sergio Moro sobre o apartamento do Guarujá. Isso poderia abrir caminho para a sua volta ao jogo eleitoral, mas o ex-presidente enfrenta dez processos e tem ciência das dificuldades jurídicas.

Para evitar a armadilha de ser igualado a Bolsonaro, o ex-presidente afirmou que saiu sem ódio da prisão e que, aos 74 anos, só tem espaço para amor no coração.

Numa cena que emocionou a plateia que ouvia o discurso, ele beijou a namorada Rosângela Silva ao apresentá-la aos apoiadores da vigília que o acompanhou durante 580 dias. E ainda brincou dizendo que conseguiu arrumar na prisão uma paixão que teve a coragem de aceitar se casar com ele.

Lula deverá alternar movimentos mais incisivos com o estilo paz e amor. Leu muito na cadeia. Demonstra mais desejo de comprar brigas com a elite que não comprou quando foi presidente. Nesse sentido, há um Lula mais radical.

Mas ele é também um moderado. Toda a carreira política do petista mostra que os momentos de sucesso aconteceram com movimentos pela conciliação. Diante de um país dividido e com ódio no debate público, ele vai procurar fazer um discurso contrário ao do presidente Jair Bolsonaro.

Para Lula, Bolsonaro continuará a radicalizar e não deixará espaço para alternativas mais à centro-direita, como o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), ou o apresentador de TV Luciano Huck. O petista não crê que Doria ou Huck consigam tirar de Bolsonaro uma das vagas no segundo turno em 2022. A outra vaga, ele crê, será do campo de esquerda e centro-esquerda.

Há no centro político brasileiro a esperança de um líder que sinalize desejo por mais diálogo. Partidos como MDB e PP acreditam que Lula poderá seguir essa linha. Se o ex-presidente souber dialogar de forma mais ampla, e no passado ele o fez, terá sucesso. Se entrar numa raia muito petista, de só apontar inimigos por todos os lados, poderá se dar mal politicamente.

Foi importante Lula não generalizar ao criticar instituições como a Justiça, a PF, o Ministério Público e a Receita. Ela falou de um “lado podre” desses organismos. Isso mostra desejo de buscar apoio nessas instituições daqueles insatisfeitos com Moro e a Lava Jato.

É correto não generalizar. Pessoas até podem errar e causar danos às instituições. Mas essas não podem ser demonizadas por condutas individuais. Instituições estão acima das pessoas.

 

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