Livro de Mandetta é feito de ressentimento, vingança e tem jogada política. Por Moisés Mendes

O presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta – Sérgio Lima / AFP

Estão publicando pílulas do livro de Luiz Henrique Mandetta. Mas a cada trecho publicado a sensação que fica é a de que temos mais uma obra com muitas curiosidades e pouca densidade.

Eu terei pelo livro o mesmo interesse que tenho pela música da dupla sertaneja Silveirinha e Silveirão. E vou dizer por quê.

Um livro como esse, feito na pressa, é resultado da sofrência de quem o escreveu (ou mandou que escrevessem). Tem ressentimento, tem vingança e tem jogada política.

Não parece ser um livro com informações relevantes, mesmo que reafirme a face mais grotesca de Bolsonaro com detalhes observados por quem esteve ao seu lado.

Pelo que li até agora, Mandetta mostra que o ex-chefe é um insensível e ignorante incapaz de compreender o que seria a tragédia pandemia.

E conta que Onyx Lorenzoni grampeava conversas com políticos para poder depois chantageá-los. Mas quem quer saber da ignorância e das crueldades de Bolsonaro e das fofocas sobre Onyx Lorenzoni?

As últimas obras de bastidores da política, a partir da metade do século 20, com alguma relevância, foram Notícias do Planalto, de Mario Sergio Conti, sobre o poder do núcleo e do entorno de Collor, e a série de Elio Gaspari sobre a ditadura.

São dois jornalistas, não são políticos tentando atirar em ex-aliados. Mesmo o livro da jornalista Taís Oyama sobre o primeiro ano de Bolsonaro não conta quase nada.

A única revelação importante de Taís é a contida em uma frase de Augusto Heleno, que se refere a Bolsonaro, num encontro com empresários, como “um despreparado”. O resto é uma compilação de notinhas.

Não há como escrever um livro sobre um ano de governo do presidente mais desqualificado que o Brasil já teve.

Bolsonaro não rende um livro, nem um desses à la minuta. O sujeito somente renderia um livro se alguém contasse suas relações complicadas com os militares.

Mas aí o autor precisaria ser um militar. Ele mandou seis generais embora do governo. Mas nenhum parece ter o perfil de quem possa fazer revelações.

A hierarquia e a disciplina não permitem. Todos os generais que Bolsonaro desprezou e humilhou teriam muito a contar.

Um livro sobre os civis medíocres de Bolsonaro, sem a copa e a cozinha dos militares, vale tanto quanto um livro de sonetos de Alexandre Garcia.

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