Livro disseca a poética das canções de Ronaldo Bastos. Por Donato

Ronaldo Bastos

Ronaldo Bastos é autor de vasta obra de referência no meio musical.

Um dos compositores brasileiros mais importantes destes trópicos, fez parcerias com um ecletismo admirável. De Lô Borges a Lulu Santos.

Bastos é autor e co-autor de um grande número de canções que se tornaram famosas em gravações de artistas tão distintos quanto Paralamas do Sucesso, Tom Jobim, Ritchie ou Ângela Maria. Tem pra todo gosto.

Mas é a poética do conjunto da obra que emerge do livro “Hotel Universo”, escrito por Marcos Lacerda. O DCM conversou com o autor.

Hotel Universo, de Marcos Lacerda, Editora Oca

DCM: O que o motivou a escrever sobre Ronaldo Bastos?

Marcos Lacerda: Em primeiro lugar, a excelência da obra. É impressionante o conjunto de canções de alto nível que fazem parte do imaginário do povo brasileiro e que se vê na obra do Ronaldo Bastos.

É só pensar em “Fé cega, faca amolada”, “Nada será como antes”, “O trem azul”, “Cravo e canela”, “Sol de primavera”, “Cais”, “Amor de índio”, e tantas mais. São canções com sofisticado apuro formal, densidade poética acima da média e capacidade de se sintonizar com a sensibilidade popular. Ronaldo fez canções com Milton Nascimento, Beto Guedes, Toninho Horta, Lô Borges, Paulo Jobim, Danilo Caymmi, Celso Fonseca, Lulu Santos, Johnny Alf, Joyce Moreno e muitos outros. Ele foi gravado pelos melhores cantores e cantoras do Brasil e do mundo.

Em segundo lugar, não havia até então nenhuma obra de análise crítica de suas canções que mostrasse a organicidade dessa obra. É por conta disso que eu falo em uma poética de Ronaldo Bastos. Existe uma organicidade, uma estilística própria no modo dele de fazer canção.

Assim como falamos sobre o estilo de Chico Buarque, Belchior ou Raul Seixas, há também o estilo de Ronaldo Bastos.

A quantidade de músicas impressiona mesmo.

Este livro quer que as pessoas percebam isso e que associem as canções ao Ronaldo Bastos. Não foram poucos os que comentaram comigo, após folhear o livro: “poxa, essa canção é do Ronaldo Bastos”, “ah, essa também é dele!”, e assim por diante.

Faltam livros assim?

Eu acho que faltam obras de análises críticas das obras de autores como Ronaldo Bastos, Belchior, Aldir Blanc, Luis Melodia, João Bosco, do mesmo modo que há em relação ao Caetano Veloso e ao Chico Buarque. Você pode ver, toda semana um caderno cultural dos jornais brasileiros apresenta um novo livro reafirmando a excelência destes artistas.

É claro que são excelentes, não há dúvida e é claro que têm obras poéticas de altíssimo nível, mas como diz um deles em uma canção conhecida: “tudo é muito mais”.

O que diferencia a obra de Ronaldo Bastos dos demais membros do Clube da Esquina?

É difícil dizer. Fernando Brant, por exemplo, é outro grande mestre da composição. Talvez o que possa diferenciar seja justamente a extensão da obra do Ronaldo, o fato dele ter tido muitos outros parceiros.

Você argumenta que Ronaldo Bastos é um poeta que transita entre a canção e as artes plásticas. Como se dá isso?

Eu diria entre a canção e diversas outras formas artísticas, além das artes plásticas. Os melhores compositores brasileiros, aliás, souberam fazer da canção uma forma artística capaz de abarcar as artes em geral e, nos casos mais interessantes, o próprio pensamento. É só pensarmos nos casos de Belchior, Raul Seixas, Aldir Blanc, João Bosco, Itamar Assumpção e, nos casos mais recentes, Mano Brown ou Vitor Ramil, entre outros nomes possíveis.

No caso em especial do Ronaldo Bastos, existe um gosto pela imagem e isso se nota na forma de algumas das suas composições, que se parecem com poemas visuais. Você consegue visualizar as imagens das palavras.

Também podemos destacar o trabalho visual da sua gravadora, a Dubas, com o olhar arguto e culto do Leo Pereda, por exemplo, ou mesmo os belos vídeos feitos por Rodrigo Ferdinand para o álbum “Liebe Paradiso”.

Quanto a ditadura influenciou a obra dele?

Muito. Ronaldo é um artista do seu tempo. O primeiro capítulo do livro, “A política e a poética da canção”, mostra isso claramente, através de canções que apresentam, de forma complexa, a tensão com o regime autoritário e, por extensão, a própria tensão entre estética e política.

Veja os casos de Menino, que referencia Edson Luis, o jovem estudante assassinado pela ditadura; Réquiem, que faz uma descrição poética do grande Che Guevara; Fé cega, faca amolada, que é quase um chamado à luta com pulsão de vida e senso de ação.

Inevitável que este período sombrio da vida brasileira, cuja fantasmagoria paira sobre nós desde ao menos o golpe de 2016, esteja presente na materialidade das suas canções.

Você já foi diretor do Centro de Música da Funarte. Agora aquela instituição é presidida por alguém que diz que Beatles vieram ao mundo para implantar o comunismo. Como vê isso?

É nítido que a extrema-direita brasileira atua no âmbito da cultura e da construção do imaginário, com forte atuação nas redes sociais. Eles parecem querer de fato uma espécie de revolução cultural baseada em valores regressivos e mesmo repulsivos. Basta ver a relação substancial dessa gente com o fundamentalismo obscurantista das igrejas neopentecostais e as nomeações do infame Roberto Alvim.

Mas, confesso que, neste caso em especial, a respeito do novo presidente da Funarte, eu sou daqueles que acham que se trata de uma cortina de fumaça para ocultar o pior do pior desse governo: a retirada violenta dos direitos sociais da classe trabalhadora precarizada em todos os aspectos e dimensões. A destruição do esboço de políticas sociais de proteção aos mais pobres, que vimos durante os governos em especial do presidente Lula.

Algumas letras de Caetano Veloso são tão bem trabalhadas que o professor Pasquale Cipro Neto comumente as usa em seus textos e programas sobre o idioma. O novo presidente da Biblioteca Nacional creditou o analfabetismo ao fato de Caetano, entre outros, ser utilizado em materiais didáticos. O bolsonarismo pode solapar a cultura de modo irreversível?

Sinceramente, não acho que a extrema-direta seja capaz de solapar a cultura brasileira, nem um pouco.

O que eles podem é limitar o acesso à institucionalização e tentar criar uma cultura “oficial” própria, baseada, como disse, em valores retrógrados e repulsivos. Mas a cultura brasileira é forte, vasta, e vai acontecer como sempre tem acontecido.

Dito isso, claro, temos que lutar com toda força e com todos os aliados possíveis contra este governo antipopular, ultraliberal e entreguista, francamente contrário à cultura, ao conhecimento, à ciência, às artes em geral.

A música hoje está pouco politizada? Citaria algum compositor atual?

Se me permite, vou discordar aqui. Não acho que a canção brasileira contemporânea não esteja politizada. Temos muitos exemplos de criações de excelência formal com dimensão crítica e política.

Um primeiro caso é o do Racionais Mcs que é, para mim, o acontecimento mais importante da canção brasileira das últimas décadas, tanto no apuro formal, na excelência poética, quanto na dimensão crítica.

É possível mencionar uma série de álbuns de artistas da canção brasileira contemporânea com perspectiva política e atentos ao seu tempo.

Encarnado (2014), da Juçara Marçal; De baile solto (2015), do Siba; A mulher do fim do mundo, da Elza Soares.

Há o impressionante Negro Leo, com o experimentalismo musical agudo, entrelaçado com uma poética vigorosa e altamente subversiva. É só ouvir um álbum como “Ilhas de calor” (2014), para sentir isso.

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