Lobista ligado a Epstein avisou bilionário que se reuniria com donos da Globo, diz documento

Atualizado em 1 de fevereiro de 2026 às 22:57
Jeffrey Epstein

O Departamento de Justiça dos Estados Unidos concluiu a revisão dos registros ligados a Jeffrey Epstein e começou a liberar o material publicamente na sexta-feira (30). O acervo é gigantesco: mais de 3 milhões de páginas, cerca de 2 mil vídeos e 180 mil imagens. A publicação encerra meses de embate entre o governo americano, juízes federais e parlamentares sobre o formato e o ritmo da divulgação.

Entre os documentos já tornados públicos aparece um e-mail de 2013 em que o financista britânico Ian Osborne informa a Epstein que estava no Brasil para reuniões com representantes da Rede Globo e do banco Itaú, além do empresário Eike Batista. A mensagem não detalha o teor desses encontros, apenas registra a agenda de Osborne no país.

Na troca de mensagens, Epstein pergunta onde Osborne está e ele responde: “No Brasil. Falei ontem em uma conferência de tecnologia aqui; hoje com Eike; amanhã e domingo com as famílias Marino (Itaú) e Marinho (Globo), duas das três mais ricas e poderosas daqui”.

A família Marinho controla o Grupo Globo, fundado por Roberto Marinho em 1965. Após sua morte em 2003, os filhos Roberto Irineu, João Roberto e José Roberto Marinho assumiram o comando. Eles estão entre os mais ricos do Brasil, com patrimônio conjunto estimado em cerca de US$ 9 bilhões em 2024. 

Já a família Villela Marino é um dos clãs fundadores e principais acionistas do Itaú Unibanco, atuando através da holding Itaúsa. Ricardo Villela Marino (CEO das operações na América Latina) e Rodolfo Villela Marino (diretor da Itaúsa) são os principais representantes da nova geração, herdeiros de Milu Villela e netos de Eudório Libânio Villela. 

Quem é Ian Osborne

Osborne é apontado em um processo judicial em Londres como um articulador de bastidores com acesso a círculos empresariais, políticos e midiáticos de alto nível. O caso envolve o ex-CEO do banco britânico Barclays, Jes Staley, e trouxe à tona trocas de mensagens entre Osborne e Epstein sobre uma iniciativa informal apelidada de “Project Jes”, cujo objetivo era favorecer a nomeação de Staley para o comando do banco anos antes de sua efetiva posse, em 2015.

Ao longo da carreira no mercado financeiro, Osborne construiu reputação como alguém com trânsito entre bilionários, executivos de tecnologia, políticos e grandes grupos de mídia. Ele fundou a Hedosophia, empresa de investimentos que participou de aportes em companhias como Spotify e Alibaba, segundo pessoas familiarizadas com o fundo. Também atuou como conselheiro e relações-públicas de figuras de peso do Vale do Silício e de governos.

As mensagens apresentadas no processo mostram Osborne e Epstein discutindo estratégias para influenciar pessoas bem posicionadas no governo britânico, na imprensa especializada em economia e dentro do próprio Barclays. A ideia era criar um ambiente favorável à escolha de Staley para o cargo máximo do banco após a saída do então CEO, em meio a um escândalo de manipulação de taxa de juros.

Email de Ian Osborne para Epstein, citando os Marinhos e Eike Batista

Osborne teria sugerido abordar autoridades políticas e reguladores e afirmado que poderia ajudar “nos bastidores” do processo. Ele, o Barclays e executivos citados nas mensagens negaram comentar o conteúdo quando procurados pela imprensa internacional.

Relação com Epstein

Jeffrey Epstein, que morreu em 2019 enquanto aguardava na cadeia julgamento por acusações de tráfico sexual, mantinha uma ampla rede de contatos entre empresários e figuras públicas. O material divulgado nos arquivos Epstein reforça que Osborne fazia parte desse círculo e que os dois trocavam mensagens sobre negócios e influência corporativa.

Foi nesse conjunto de comunicações que apareceu a referência ao Brasil e às reuniões com famílias associadas ao controle da Globo e do Itaú, além de Eike Batista. O caso de Jes Staley segue em disputa judicial no Reino Unido.

A autoridade financeira britânica baniu o executivo do mercado e aplicou multa milionária, sob a alegação de que ele teria enganado o regulador sobre a natureza de sua relação com Epstein. Staley contesta a decisão.

Com a liberação gradual dos arquivos pelo governo dos EUA, novos detalhes sobre as conexões internacionais de Epstein e seus interlocutores no Brasil ainda podem vir à tona.

Ian Osborne, lobista ligado a Epstein
Kiko Nogueira
Diretor do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.