Longe do povo: Haddad faz campanha em hotel e Bolsonaro na guerrilha virtual

Bolsonaro e Haddad

Publicado originalmente no Balaio do Kotscho

POR RICARDO KOTSCHO, jornalista

“Tristes tempos em que cegos são guiados por loucos rumo ao abismo, diria o Rei Lear” (Nelson Motta, hoje, no Globo).

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Nunca antes em nenhuma outra democracia do mundo se viu campanha eleitoral como essa, em que os candidatos se escondem do povo.

O candidato favorito nas pesquisas continua abrigado em seu bunker na Barra da Tijuca e já mandou avisar que não vai a debates nem participará de atos públicos de campanha porque tem medo da sua segurança.

Seu adversário no segundo turno passou a semana no hotel Matsubara, no bairro do Paraíso, perto de onde mora em São Paulo, recebendo grupos de apoiadores e dando entrevistas.

Faltam apenas nove dias para a decisão do segundo turno e, até agora, Jair Bolsonaro e Fernando Haddad não botaram a cara na rua para ver como anda a vida dos brasileiros.

Desde que levou uma facada há seis semanas, o capitão Bolsonaro dedica-se a comandar sua guerrilha virtual para destruir o adversário nas redes sociais, com a ajuda de empresários e milícias cibernéticas que querem varrer o PT do mapa.

Candidato de um partido que sempre teve na militância a sua maior força, o professor Fernando Haddad cumpriu na quinta-feira uma agenda típica da atual fase da campanha: recebeu no hotel grupos de juristas, intelectuais e defensores de animais.

Até agora, Haddad só tinha deixado o hotel para rápidas incursões na periferia paulistana e encontros em ambientes fechados.

Só hoje ele vai pegar um avião para ir ao Rio participar de um debate no Clube de Engenharia sobre “Democracia e Soberania”.

A primeira atividade de rua do candidato petista neste segundo turno está prevista para sábado, no Ceará.

Lá ele participará, em Fortaleza e no Crato, de caminhadas do “Dia Nacional da Virada” marcadas para várias capitais do país.

Bolsonaro só saiu do bunker até agora para fazer algumas visitas protocolares.

Foi ao quartel do Bope, onde gritou “caveira”, a palavra de ordem da tropa de elite, depois passou no QG da Polícia Federal no Rio para agradecer o apoio e visitou a sede da Arquidiocese para uma confraternização com o cardeal Tempesta.

O toque popular foi dado por algumas funcionárias da Cúria que o saudaram, imitando o gesto de atirar com as mãos, diante de uma imagem de Jesus crucificado.

Como se já estivesse eleito, o candidato militar só sai da internet para receber o apoio de parlamentares das bancadas do boi, da bíblia e da bala, que estão fechados com ele.

Fora isso, eles só dão o ar da graça em seus programas eleitorais na TV e nos noticiários burocráticos dos telejornais.

Para quem acompanhou como repórter ou participou como assessor de imprensa de todas as campanhas eleitorais, desde os tempos da ditadura, nos últimos 50 anos, e viu o Brasil sair às ruas em 1984 para pedir a volta da democracia e das eleições diretas para presidente, confesso que agora é um pouco frustrante escrever este texto.

Foi para isso que tanta gente arriscou suas vidas, enfrentou a repressão, foi torturada e assassinada, perdeu parentes, amigos e empregos, viveu anos no exílio?

Para voltar tudo ao ponto de partida, com a eleição sendo decidida por fardas e togas triunfantes, enquanto a tudo o povo assiste bestificado como na Proclamação da República?

Tristes tempos, como diria o Rei Lear lembrado por Nelsinho Motta, que viu tudo isso acontecer.

Vida que segue.

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