Luislinda, a ministra negra que usou a escravidão para se dar bem no país do trabalho escravo. Por Sacramento

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Comparar pequenos obstáculos cotidianos com o martírio da escravidão negra é prática recorrente aqui no Brasil. Embora reprovável, é compreensível. O suplício imposto a milhões de negros ao longo de mais de 350 anos nunca foi considerado uma chaga na história do país.

Inadmissível, contudo, é a comparação partir de alguém com o dever de lutar contra o trabalho escravo e por reparações às consequências do passado escravista, como a ministra de Direitos Humanos Luislinda Valois.

Desembargadora aposentada, Luislinda entrou com um pedido de 207 páginas ao governo para juntar ao seu salário de ministra os proventos da aposentadoria, de R$ 30.471,10. Somando os dois, ela receberia ao fim do mês R$ 61,4 mil.

Esse valor ultrapassa o teto constitucional, hoje de R$ 33,7 mil, e devido ao chamado abate-teto o salário da ministra cai para R$ 3.2 mil. A regra é clara e qualquer estudante de curso preparatório para concursos públicos a conhece.

O texto eloquente da lei não impediu que a ministra fizesse a solicitação, pedido que ela tem todo o direito de fazer. O problema foi comparar na argumentação a sua situação à dos seus antepassados negros.

“Sem sombra de dúvidas, se assemelha ao trabalho escravo, o que também é rejeitado, peremptoriamente, pela legislação brasileira desde os idos de 1888 com a Lei da Abolição da Escravatura”.

Não, não, senhora ministra, não se assemelha. O salário de R$ 33,7 mil é maior do que o de 99% da população e 1757% do piso de um professor do ensino fundamental do Distrito Federal, conforme uma calculadora de salários do Nexo Jornal.

Em entrevista ao programa Timeline, da Rádio Gaúcha, a ministra defende seu pedido com o seguinte questionamento: “Como vou comer, beber e calçar”?

A resposta é simples. Basta ela se conectar com a realidade e olhar além do horizonte da Esplanada dos Ministérios, olhar para mulheres negras como ela, que comem, bebem e calçam recebendo os R$ 937,00 do salário mínimo.

Muitas dessas mulheres carregam ainda hoje as cicatrizes sociais da mesma escravidão invocada por uma ministra no seu pedido de aumento do salário de cinco dígitos. Outras tantas vivem em regime de escravidão até hoje em carvoarias e lavouras.

Aliás, o governo de Michel Temer, chamado por Luislinda de “padrinho das mulheres negras brasileiras”, assinou uma portaria que dificulta o trabalho escravo.

Auditora fiscal do trabalho  e responsável por operações que libertaram mais de 2.500 trabalhadores em situação análoga à escravidão, Marinalva Dantas disse em entrevista ao UOL que chorou por três dias seguidos ao ler o conteúdo da portaria, tamanho o retrocesso que ela representa.

Esse choro é a antítese do lamento da Luislinda Valois. E de certa forma tem ligação com a analogia leviana registrada na petição da ministra.

De um governo em que uma ministra negra menciona a escravidão sem se atentar para o peso da palavra, não é de se espantar que surjam medidas para perpetuar esta prática em solo brasileiro.

O velho ditado diz que “o diabo mora nos detalhes”. O detalhe impresso no texto de 207 páginas ajuda a entender a presença de Luislinda no ministério de Temer. No fim, como disse Camus em O Avesso e o Direito, “tudo se explica”.