
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) começa 2026 com uma taxa de aprovação mais alta do que no mesmo momento do ciclo eleitoral de 2006, quando disputou a reeleição, ainda que em um ambiente consideravelmente mais hostil. A combinação de polarização intensa, mudanças no comportamento do eleitor e novas pautas centrais, como segurança pública e insegurança econômica, cria um cenário mais instável para qualquer projeto de quarto mandato.
Após enfrentar em 2025 o pior momento de popularidade de seus três governos, Lula conseguiu recuperar parte do apoio ao longo do ano. Segundo o Datafolha, a avaliação de ótimo e bom subiu de 24% em fevereiro para 32% na pesquisa mais recente, patamar superior ao registrado no início de 2006.
Naquele período, apenas 28% dos eleitores avaliavam o governo positivamente, em meio ao desgaste provocado pelo escândalo do mensalão, que dominava o noticiário e pautava a ofensiva da oposição tucana.
A recuperação recente está associada, em grande medida, ao arrefecimento da inflação dos alimentos, fator que havia pesado contra o governo, sobretudo entre eleitores de baixa renda. Com uma safra recorde de grãos e os juros mantidos em níveis elevados, os preços desaceleraram.
Dados do IPCA mostram que a inflação acumulada em 12 meses no grupo alimentos e bebidas caiu de cerca de 7% para 3,88%, ajudando a reduzir a pressão sobre o custo de vida.
Ainda assim, analistas ressaltam que o contexto econômico atual é menos favorável do que o de duas décadas atrás. Para Antônio Lavareda, do Ipespe, em 2006 a economia estava em aceleração, enquanto agora há uma tendência de desaceleração do crescimento, em parte provocada pelos juros altos.
Em entrevista ao Globo, Lavareda observou, que os três indicadores que mais influenciam a popularidade presidencial — crescimento, desemprego e inflação — iniciam o ano em patamares considerados positivos.

No campo político, Lula se beneficia de uma oposição fragilizada. O tarifaço imposto por Donald Trump às exportações brasileiras e o lobby feito por Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos em defesa de sanções contra o Brasil reforçaram um discurso nacionalista que acabou favorecendo o presidente.
Para Aldo Fornazieri, a oposição acumula escândalos, tem Jair Bolsonaro preso por envolvimento na trama golpista e ainda não conseguiu se reorganizar eleitoralmente.
Apesar disso, especialistas alertam para mudanças estruturais que dificultam comparações diretas com o passado. Mauro Paulino, ex-diretor do Datafolha, destaca que o peso das redes sociais alterou profundamente a forma como o eleitor decide o voto. Temas como segurança pública e insegurança econômica ganharam centralidade, especialmente entre jovens e mulheres.
A violência, em particular, tornou-se uma pauta decisiva. Pesquisa Quaest aponta que 38% dos eleitores já consideram a segurança pública o principal problema do país. O tema é sensível para o governo, que não conseguiu aprovar em 2025 propostas centrais como a PEC da Segurança Pública e o projeto Antifacção.
Para Moisés Marques, episódios como a operação conduzida pelo governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, mostraram como o assunto pode desgastar Lula, já que a maioria da população apoiou a ofensiva e rejeitou a avaliação de que se tratou de “matança”.