Lula dá a volta por cima em Chapecó, num dia marcado pelo ódio dos adversários. Por Joaquim de Carvalho

Atualizado em 26 de março de 2018 às 8:51
Lula depois da volta por cima, já no hotel

Esta reportagem faz parte da série sobre a Caravana de Lula no Sul, financiada pelos leitores através de crowdfunding. As demais estão aqui

Manifestantes anti-Lula, muitos identificados com Jair Bolsonaro e com faixas do MBL, passaram 12 horas deste sábado causando tumulto no centro de Chapecó. Colocaram duas máquinas agrícolas nas imediações da praça onde Lula discursaria.

Atiraram pedras e ovos em que chegava à praça. Agrediram quatro jornalistas, dois deles na frente de policiais, que permaneceram inertes, soltaram rojão durante o dia todo, protagonizaram agressão racista contra militantes negros dançando como se fossem macacos, entre outros crimes e baixarias.

Mas bastaram alguns minutos do discurso de Lula para que fossem baixando o tom até ficarem em silêncio e marcharem para casa, alguns de cabeça baixa.

Ao final, Lula foi a pé para o hotel, distante uns 400 metros, passado pelo meio de um cordão formado pelas pessoas que o apoiam. Um ou outro remanescente dos que protestavam permanceram quietos olhando Lula passar, aos gritos de seus apoiadores: “Lula guerreiro do povo brasileiro”.

Já dentro do hotel, pessoas abraçavam Lula,  ele sorria. “Lula deu uma lição. Virou o jogo. Impressionante”, disse Fernando Haddad, que acompanhou o presidente da caminhada pela cidade.

Se o final da presença de Lula em Chapecó foi épico, o começo foi tenso. Lula demorou para sair do hotel por conta do cerco dos manifestantes, que, a rigor, não poderiam estar ali. Segundo o Diário do Iguaçu, jornal local, duas manifestações estavam marcada para a cidade.

A da Caravana de Lula seria na praça da Matriz, como foi, e dos contrários a Lula estava marcada para o Calçadão da cidade, distante mais ou menos uns seis quarteirões. Mas os adversários de Lula não ficaram no lugar combinado. Foram tentar impedir a realização do ato do PT.

Xingaram tanto durante a tarde que duas mulheres pintaram uma faixa com a frase: “Mude o repertório, por favor”. Não mudaram. Aliás, os manifestantes contrários a Lula estavam muito à vontade porque contavam com o apoio da tropa de choque.

Incrível.

Os policiais viram quando duas caixas de ovos foram entregues aos manifestantes, munição usada para atacar quem estava na praça, testemunharam alguns atirando pedras, viram a dança racista de um rapaz, não fizeram nada para conter quem atirava rojão na direção dos apoiadores de Lula.

Quando seguranças do ato, a maioria militante do MST e da CUT, correram para tentar ajudar uma pessoa que apanhava de um grupo na esquina, os policiais, em vez de defenderem quem apanhava, foram para cima dos seguranças.

Atiravam balas de borracha e soltaram bombas na direção dos militantes petistas. Um deles, que é da região e estava como voluntário, gritava “É eles que vocês têm que atacar, não nós”. Atrás da tropa de choque, os eleitores de Bolsonaro e membros do MBL comemoravam:

— Polícia! Polícia! Polícia!

Lula ainda estava no hotel, sem poder sair em razão do cerco. O deputado Paulo Pimenta, líder do PT na Câmara, foi ao microfone e cobrou:

— Vocês têm que proteger quem está aqui, democraticamente, se manifestando. Se algo de mais grave acontecer com as pessoas aqui, nós vamos denunciar ao governo do Estado, ao ministro da Segurança, ao ministro da Defesa. É inadmissível.

Alguns minutos depois, Lula chegou. Fez um discurso às vezes duro, outras vezes irônico, como quando os adversários soltaram rojão para tentar abafar a voz de Lula. Esforço vão.

— Eu nunca tive direito a ter um rojão deste na minha campanha. Agora estou percebendo que a oposição está soltando rojão em minha homenagem. Eu estou feliz porque nunca tive tanto rojão na minha vida. Esse povo deveria guardar esse rojão para soltar na minha vitória.

O povo ria.

No final, já com pouca gente provocando, uma vez que muitos tinham embora, Lula deu um conselho:

— Não vamos ficar raivosos, nós somos paz e amor, mas não pensem que vão bater nesta face e nós vamos dar a outra face. A gente vai dar é porrada se não respeitarem a gente. Nós não procuramos briga, mas não fugimos dela. Aprendam, seus fascistas, a fazer democracia. Aprendam a respeitar a pluralidade, aprendam a respeitar a convivência democrática na adversidade, porque, se não, o ódio vai prevalecer, e o ódio não conduz uma nação a nada. Povo de Chapecó, vocês que sobreviveram à morte de um time de futebol, e souberam sobreviver com a beleza e a tranquilidade de vocês, vocês saberão vencer os adversários da democracia. Um abraço, gente, e até outro dia.

Em seguida, pediu para que um cordão se formasse para que fosse até o hotel caminhando. Foi, literalmente, uma volta por cima.